Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam os mortos distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
MATÉRIAMUDA - poesia, lixo e arte
domingo, 3 de maio de 2020
quinta-feira, 30 de abril de 2020
Do Buda
Apenas por si mesmo é feito o mal,
Por si mesmo alguém é corrompido.
Por si mesmo se evita o mal,
Apenas por si mesmo se é purificado.
Pureza e impureza dependem de si mesmo,
Ninguém pode purificar ninguém.
Por si mesmo alguém é corrompido.
Por si mesmo se evita o mal,
Apenas por si mesmo se é purificado.
Pureza e impureza dependem de si mesmo,
Ninguém pode purificar ninguém.
domingo, 25 de janeiro de 2015
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
JOSÉ RÉGIO / CÂNTICO NEGRO
"Vem por aqui"--dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços,e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem:"vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há,nos meus olhos,ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre de minha Mãe.
Não,não vou por aí!Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis:"vem por aqui"?
Prefiro escorregar,arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo,foi
So para deflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O que mais que faço não vale nada.
Como,pois,sereis vós
Que me dareis machados,ferramentas,e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre,nas vossas veias,sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos,as torrentes,os desertos...
Ide!Tendes estradas,
Tendes jardins,tendes canteiros,
Tendes pátrias,tendes tetos,
E tendes regras,e tratados,e filósofos,e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a,como um facho,a arder na noite escura,
E sinto espuma,e sangue,e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam,mais ninguém.
Todos tiveram pai,todos tiveram mãe.
Mas eu,que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah,que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:"vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--Sei que não vou por aí!
Estendendo-me os braços,e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem:"vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há,nos meus olhos,ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre de minha Mãe.
Não,não vou por aí!Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis:"vem por aqui"?
Prefiro escorregar,arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo,foi
So para deflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O que mais que faço não vale nada.
Como,pois,sereis vós
Que me dareis machados,ferramentas,e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre,nas vossas veias,sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos,as torrentes,os desertos...
Ide!Tendes estradas,
Tendes jardins,tendes canteiros,
Tendes pátrias,tendes tetos,
E tendes regras,e tratados,e filósofos,e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a,como um facho,a arder na noite escura,
E sinto espuma,e sangue,e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam,mais ninguém.
Todos tiveram pai,todos tiveram mãe.
Mas eu,que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah,que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:"vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--Sei que não vou por aí!
ÁLVARO DE CAMPOS / LISBON REVISTED
Não:não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-na daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos,não me enfileirem
[conquistas
Das ciências(das ciências,Deus meu,das ciências!)
Das ciências,das artes,da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade,guardem-na!
Sou um técnico,mas tenho a técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido,com todo direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo,ouviram?
Não me macem,por amor de Deus!
Queria-me casado,fútil,cotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto,o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa,fazia-lhes,a todos,a vontade.
Assim,como sou,tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixe-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho
Ah,que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul -- o mesmo da minha infância--,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada,Lisboa de outrora de hoje!
Nada ma dais,nada me tirais,nada sois que eu me sinta.
Deixem em paz! Não tardo,que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-na daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos,não me enfileirem
[conquistas
Das ciências(das ciências,Deus meu,das ciências!)
Das ciências,das artes,da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade,guardem-na!
Sou um técnico,mas tenho a técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido,com todo direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo,ouviram?
Não me macem,por amor de Deus!
Queria-me casado,fútil,cotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto,o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa,fazia-lhes,a todos,a vontade.
Assim,como sou,tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixe-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho
Ah,que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul -- o mesmo da minha infância--,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada,Lisboa de outrora de hoje!
Nada ma dais,nada me tirais,nada sois que eu me sinta.
Deixem em paz! Não tardo,que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Processos e peças
Lápis Azul
quase na penumbra ela aponta o lápis azul encostada na ponta da mesa metálica presa por duas finas tiras de cabo de aço na parede.uma mesa levadiça.a noite apresenta sua escuridão aos abraços de Morfeu. e na mínuscula fresta de luz que trepassa os vãos da porta desajustada em seus batentes.portas de ferro batentes de chapa galvanizadas fixas por buchas e parafusos imensos. na ponta do lápis começa a nascer entre uma lasca e outra um fino dedinho azul e, as lascas ficam dispersas sobre a mesa metálica e ela continua com seus movimentos compassados num ritmo de dança entre o lápis e a gilete.pela linha de luz que rasga a escuridão do ambiente--aquela lâmpada amarela fixa no teto do corredor é a única certeza que existe um outro lado.a ponta do lápis cresceu.com terna paciência ela começa a recolher os restos decepados do lápis azul e , num movimento livre vai tocando um por um com a ponta do lápis azul as lascas juntando-os num pequeno mosaico de um sol azul sobre a mesa metálica.seu olhar por vezes alcança a fresta de luz que insiste dentro do ambiente e,seu olhar retorna pra cima da mesa e assim,vai passando seus dedos finos delgados com uma delicadeza de menina e as lascas formam uma figura de boneca.num movimento calmo e silêncioso ela apanha o lápis azul e com muita calma,caminha ate onde a fina luz vara a fresta e mancha a parede de um branco gasto.com destreza vai esbarrando o lápis azul na parede áspera e uma caligrafia clara e precisa vai deixando uma inscrição rupestre azul perdido sobre um fundo branco gasto.agora com o olhar dentro de si,repousa o lápis azul com a mesma calma dos movimentos anteriores e, deixa-se ser acolhida pela cama que fixa como a mesa metálica range os cabos de aço quando seu corpo magro ajeita-se sobre ela.olhando a fina fresta de luz que vara teu ambiente,ela arrasta a lâmina e, sem tirar seu olhar perdido da linha de luz que invade sua visão fraca;afunda a lâmina no pulso esquerdo e o sangue salta aos jorros absoluto. com a mesma parcimonia do movimento anterior abre o pulso direto e,temos a mesma cena do pulso esquerdo:sangue saltando aos jorros e absoluto.na manhã quando a porta de ferro 48 é acionada e destravada a funcionária da Instituição,depois de observar o corpo ínutil e o encharcado colchão de sangue.percebe o lápis azul,o pequeno mosaico e uma inscrição em letras miúdas:Eu não suporto mais esta vida.
Coisa besta
manhãs destas aí;que você saí virado no setenta.correndo sempre pra não ver os sol nascendo
lá naquele fundo de brejo.depois de tudo;estas coisas continuam acontecendo na vida de gente
que não sentou praça em canto nenhum.que desafôro!viver poraí com um galho na correnteza:
perdido;a deriva e totalmente sem rumo nem prumo nem porra nenhuma.aí num destes maldidos acasos;puft! bate de frente e aí:eu não corro.sei que posso sobreviver a tudo.Eu sei!
Fica diferente dormir juntos depois de dormir um tempo tão grande porái ;dormindo avulso como se fosse viver eternamente.
manhãs destas aì;depois da magia do começo.aquela camisa jogada já é o prenúncio do fim do nosso amor.mas aí agente ouve Gal cantando Meu Bem.. e, fica naquela dança: quem cedeu sorriu
porque ceder de verdade ensina crescer...
lá naquele fundo de brejo.depois de tudo;estas coisas continuam acontecendo na vida de gente
que não sentou praça em canto nenhum.que desafôro!viver poraí com um galho na correnteza:
perdido;a deriva e totalmente sem rumo nem prumo nem porra nenhuma.aí num destes maldidos acasos;puft! bate de frente e aí:eu não corro.sei que posso sobreviver a tudo.Eu sei!
Fica diferente dormir juntos depois de dormir um tempo tão grande porái ;dormindo avulso como se fosse viver eternamente.
manhãs destas aì;depois da magia do começo.aquela camisa jogada já é o prenúncio do fim do nosso amor.mas aí agente ouve Gal cantando Meu Bem.. e, fica naquela dança: quem cedeu sorriu
porque ceder de verdade ensina crescer...
Elegância
ela tinha aquela tortura natural das deusas em enlouquecer aos desavindos de alma perdida.e,tanto desencontro nas retinas que o vazio úmido dos dias tristes era visível.
enamorado de não buscar o que falta abriga afagos de sonhar ao pôr-do-sol que toda málicia
da noite será casta ordinária e maravilhosa.
duma feita o falar das manhãs tornou-se alva e tão diáfna que cegava;e naquele dia o cinza
mórbido espantou-se com minha felicidade e bradrou:alto lá!onde pensa que vai? e como meu
sorriso nesta manhã não era parte das máscaras que uso no meu cotidiano áspero e que corroi
todas as sensações por medo de senti-las.porra.eu estou apaixonado!
sentir que parte por parte racha-se por dentro e tudo é tão novo e delicado que voce sente
que não pode mentir aos desejos que eriçam teu ser num sonho sem fim.
enamorado de não buscar o que falta abriga afagos de sonhar ao pôr-do-sol que toda málicia
da noite será casta ordinária e maravilhosa.
duma feita o falar das manhãs tornou-se alva e tão diáfna que cegava;e naquele dia o cinza
mórbido espantou-se com minha felicidade e bradrou:alto lá!onde pensa que vai? e como meu
sorriso nesta manhã não era parte das máscaras que uso no meu cotidiano áspero e que corroi
todas as sensações por medo de senti-las.porra.eu estou apaixonado!
sentir que parte por parte racha-se por dentro e tudo é tão novo e delicado que voce sente
que não pode mentir aos desejos que eriçam teu ser num sonho sem fim.
Domingo
outro destes estava poraí olhando pelas frestas de janelas descuidas e, como se um olhar estivesse chamando pra trocar o gás,ou sei lá que porra.sabe,tem dias que você não sabe o que fazer da vida e,fica olhando como a vida escorre pelas janelas alheias.bem,o sol arde numa manhã linda de domingo.mas,eu não estou dentro deste dia.sabe como é?..vejo mulheres sacando roupas de dentro de suas máquinas de lavar e armando varais e,tão descuidas de tudo que não sentem meu olhar de perdido.as ruas começam a desabrochar num alvoroço que só existe nas quebradas;caras começam a lavar seus carros da frota prata,a molecada corre pra lá e pra cá.que felicidade! bom, o domingo cresce e a festa começa na banca de pastel..
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