sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Mapa / (trecho) Murilo Mendes

....
Almas desesperadas eu vos amo.Almas insatisfeitas,ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida,os homens¨práticos¨...
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos. ...

glória morta / Dante Milano

Tanto rumor de falsa glória,
Só o silêncio é musical.
So o silêncio,
A grave solidão individual,
O exílio em si mesmo,
O sonho que não esta em parte alguma,

De tão lúcido, sinto-me irreal.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

rápido e rasteiro / Chacal

vai ter uma festa
que vou dançar
até o sapato pedir pra parar.

aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.

¨olho muito tempo o corpo de um poema ¨Ana Cristina Cesar

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

O LUTO NO SERTÃO / JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Pelo Sertão não se te como
não se viver sempre enlutado;
lá o luto não e de vestir ,
é de nascer com, luto nato.

Sobe de dentro, tinge a pele
de um fosco fulo: é quase raça;
luto levado toda a vida
e que a vida empoeira e desgasta.

E mesmo o ururbu que ali exerce,
negro tão puro noutras praças,
quando no SErtão usa a batina
negra-fouveiro, pardavasca.

domingo, 13 de setembro de 2009

Sintonia para pressa e presságio / Paulo Leminski

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele,na palma,na pétala,
luz do momento.
Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita.
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz ,eis o deus ,eis a fala,
eis que a luz se ascendeu na casa
e não cabe mais na sala.

Agosto 1964 / Ferreira Gullar

Entre lojas de flores e de sapatos,bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.
Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja.Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu a compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policia-militar.

Digo adeus a à ilusão
mas não ao mundo.Ma não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta
da humilhação, da tortura,
do terror,
retiramos algo e com ele construimos um artefato

um poema
uma bandeira

Versos íntimos / Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidavél
Enterro de tua última quimera.
Somente Ingratidão -- esta pantera --
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-se à lama que te espera!
O Homem,que,nesta terra miserável,
Mora,entre feras,sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo.Acende teu cigarro!
O beijo,amigo,é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O AUTO RETRATO / MÁRIO QUINTANA

No retrato que me faço
-- traço a traço --
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e,desta lida,em que busco
-- pouco a pouco --
minha eterna semelhança,

no final,que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

um amor depois do outro / Derek Walcott /tradução Nelson Ascher.

Virá o tempo
quando exultante
saudarás a ti mesmo chegando
à tua porta,em teu espelho, e cada qual
sorrirá ante a saudação do outro,

e dirá,senta-te aqui.Come.
Voltarás a amar o estranho que foste.
Dá vinho.Pão.Teu coração de volta
a ele mesmo, ao estranho que toda a vida

te amou,que por outro
ignoraste,que te conhece a fundo.
Pega as cartas de amor na estante,

as fotos, as anotações desesperadas,
descasca do espelho tua imagem.
Senta-te.Refestela-te com tua vida.

fazendo a lição / Lao-tsé /tradução:T.Wojciechowski/R.Prado/A.C.de Carvalho.

Quem sabe caminhar não caminha.
Quem sabe falar não fala.
Quem sabe calcular não calcula.
A porta intransponível é aquela que não foi fechada,
assim como prende mais a corda que não amarra.

A utilidade do amigo de Tao é ajudar qualquer um
sem querer saber se é joio ou é trigo.
Salva por não crer em perdição
e por isso não enjeita viva alma.

Brilhar sem ofender a treva,eis a iluminação.
Um homem útil em terra de ignorantes
deve ter alguma função.
Ou a ignorância é um erro de criação?

O bem é mestre,o mal nos dá uma lição.
Aquele que se considera neste mundo sem mestre e sem lição
precisa ser repensado.


Tao tem essa sutileza.

natureza morta / Mohammad Khallaf (Egito) tradução:Ignácio Dotto Neto.

O mar abre uma porta
saída de uma onda de seu interior.
Escuta a flauta tocar em silêncio.
Amoroso sob a chuva que avança,
remonta às fontes de seu tédio,
fazendo brotar a ostentação da quietude.
Ele se inclina para uma planta desconhecida que passa,
depois crava a lâmina em seu peito.
Do alto desta pedra
um jarro derrama a noite e a água,
e a água possui o brilho do mármore.

pergunta a um amigo/Po Chü-I / traduçao:Mauríco Arruda Mendonça.

planto orquídea não planto artemísia
germina artemísia e germina orquídea
raiz se entrelaça no mesmo espaço
caules e folhas um só enfloram
perfume do caule mau cheiro da folha
crescendo dia crescendo noite.
arrancar artemísia é ferir orquídea
regar orquídea é nutrir artemísia
nem morte artemísia nem água em orquídea:
pesado lamento intenção dividida.
questão sem palavra :
como desejo mantém harmonia?

MOMENTO NUM CAFÉ. MANUEL BANDEIRA.

Quando o enterro passou Os homens que se achavam no café Tiraram o chapéu maquinalmente Saudavam os mortos distraídos Estavam todos volt...