domingo, 5 de dezembro de 2010

AO DIVINO ASSASSINO

Uma litania ante o Sagrado Coração concebida em Paray-le-Malnier,tempos depois do acidente fatal de Anecy Rocha.
Bruno Tolentino

Senhor,Senhor,o teu anjo terrível
é sempre assim?Não tens um refratário
à hora do massacre-- um sensível

que atrasasse o relógio,o calendário?
Ao que parece a todos tanto faz
por quem o sino doi no campanário.

Começa a amanhacer e uma vez mais
rebelo-me,mas sei que a minha vida
não tem como ou por que voltar atrás.

Aceito que a mais dura despedida
é bem mais uqe a metáfora do nada
a que se inclina o chão;que uma ferida

e a papoula sangrenta da alvorada
pertecem ao mindo sobrenatural
tanto quanto uma lágrima enxugada

à beira de um caixão.Mas afinal,
Senhor,amas ou não a humanidade?
Não fui ao escandaloso funeral

e imaginá-la em Tua eternidade
doi demais!Vou passar mas este teste,
sim,mas protesto contra a insanidade

com que arrancas à muqe o que nos deste!
Tu sabes que a soberba da família
era maior que a dela e eu tinha a peste--

pai e mãe apartavam-me da filha
e o irmãozinho nem falar... E hoje,coitados,
como hão de estar?Aqui é a maravilha,

as genulfexões...Os potentados
e os humildes;a nata da esperança
todos chegam por cá meio esfolados,



sangrando como a luz.Não só da França,
toda a Europa rasteja ate aqui
esfolando os joelhos,não se cansa

de ensaguentar-se até chegar aTi
e ao menos a um pixote do Além Tejo
restituiste a vista;eu quando o vi

solucei-- mas que o cego e o paraplégico
saiam aos pinotes,que o Teu coração
se escancare e esparreme um prívilégio

aqui e outro acolá na multidão,
só me faz perguntar:E ela? E ela...?
Não consigo entender que a um aleijão

concedas tanto enquanto a uma camélia
Tu deixas despencar...
Por que, Senhor?
Olho tudo do vão de uma janela,

mas vejo a porta de um elevador
escancarar-se sobre um outro vão,
um vão sem chão... E seja lá quem for

aqui absurdamente dás a mão!
Me pões trêmulo,gago,estupefado,
pasmo,Senhor--mas consolado não.


A mesma mão que fez gato e sapato
da minha doce Musa,cura e guia,
cancela as entrelinhas do contrato,

Dominus dixit... Mas quem merecia
mais do que uma açucena matinal
um manso desfolhar-se ao fim do dia,

quem mais do que uma flor,Senhor?Igual
numca viram os mais alvos crisantemos
tinha direito a um fim mais natural,

à morte numa cama,em casa ao menos...
Mas não--- tinha que ser total o escândalo!
Por que,se nem nos circos mais extremos

Teus mártires andaram despencando
sobre os leões,nem o lixo cai
de oito andares aos trancos,Santo Vândalo?!

Não vim denunciar o Filho ao Pai
ou ao Pai ao Filho,não vim dar razão
aos que recusam e usam cada ai

contra a humildade;vim porque a paixão
me chamou pelo nome e a alma obedece
e aceita suar sangue--como não?

Mas não sei mais unir o rogo a prece
do que a elegia ao hino de louvor,
não sei amar-Te assim...Caso o soubesse

teria que ficar aqui,Senhor,
aqui,arrebentando-me os joelhos,
esfolando-me todo ante um amor

que vai tornando sempre mais vermelhos,
mais duros os degraus do Teu altar.
Tu,que tudo consertas,dos artelhos

que desentortas e repões a andar
até ás pupilas mortas de um garoto,
do cachoupinho que me fez chorar;

Tu,que a este dás a flor no broto
e àquele o lírio pútrido do pus;
Tu,que passa por um de quarto e a um e outro

pegas no colo e entregas a Jesus;
Tu que fazes jorrar da rocha fria;
Tu que metaforizas Tua luz

ao ponto de fazer de uma agonia
um puro horror ou a morna mansuetude---
que hás de fazer,Senhor,comigo um dia?

Quando eu agonizar,boiar no açude
das lágrimas sem fundo... Quando a fonte
cessar de soluçar e uma altitude

imerecida me enxugar a fronte...
Como há de ser,Semhor? Oxalá queiras
que a mim me embale a barca de Caronte

como fazia a velha Cantareira
o azul da travessia...A irrecorível
arrasta a cada a um de uma maneira

e a quem quer que ser abeire ao invisível
recordas a promessa:aquele a escuta
e este a recusa porque a dor é horrível,

mas,se a todos a última permuta
terá sempre a o sabor da anulação,
o travo lacrimoso da cicuta,

a ela Tu negaste o próprio chão,
deixaste-a abrir a porta sem querer!
Nunca falou na morte,e com razão,
intúia,quem sabe,o que ia ver...

mas quando arrancas mais uma cabeça
como saber que és Tu,que não mentia
O que ressuscitou?Talvez na pressa,

no pânico de Pedro,eu negue um dia
e trate de escapar,mas hoje não;
hoje sofro com fé e,sem poesia,

metrifico uma dor sem solução,
mas não vim negar nada!Faz efeito
essa dor:faz sangra,mas faz questão

de defender-me como um parapeito
contra a queda da revolta...Um Bootticelli
despedaçou-se todod,mas que jeito,

se por Lear enforcam uma Cordélia
e encarceram a Ariel por Calibã...?
Alvorece,a manhã beata velha

enfia agulhas no Teu céu de lã,
tricoteia Paray-le-Mauliner
e eu penso:wla morreu...Hoje,amanahã,

enquanto Te aprouver e até que dê
a palma ao prego e o último versos à traça,
vai doer--- mas Amém! Naão há por que

amar a morte,mas,que venha a Taça,
aceito suar sangue até o final,
como não...Tudo doi,menos a graça,

mata,Senhor,que a morte não faz mal!


Da Festa do Sagrado Coração
em Junho de 1979 ate ao 26 de Outubro de 1997.

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