quarta-feira, 20 de julho de 2011

Da vez primeira em que me assassinaram/Mário Quintana

Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que tinha.
Depois,de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje,dos meus cadáveres,eu sou
O mais desnudo,o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela,amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde,corvos,chacais,ladrões de estrada!
Ah! desta mão.avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz,trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Alberto Caeiro / fragmentos..

Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar,como nas cousas.
Se a ciência quer se verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?
Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

Em ti a terra / Pablo Neruda

Pequena
rosa,
rosa pequena.às vezes
diminuta e desnuda,
parece
que na minha mão
cabes,
que assim vou te agarrar
e te levar à boca,
porém,
de repente,
meus pés tocam teus pés e minha boca teus lábios,
cresceste,
sobem teus ombros como duas colinas,
e teus peitos passeiam por meu peito,
meu braço mal consegue rodear a delgada
linha de lua nova que tem tua cintura:
no amor como água de mar te desataste:
apenas meço os olhos mais extensos do ceú
e me curvo sobre tua boca para beijar a terra.

MOMENTO NUM CAFÉ. MANUEL BANDEIRA.

Quando o enterro passou Os homens que se achavam no café Tiraram o chapéu maquinalmente Saudavam os mortos distraídos Estavam todos volt...