"Vem por aqui"--dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços,e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem:"vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há,nos meus olhos,ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre de minha Mãe.
Não,não vou por aí!Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis:"vem por aqui"?
Prefiro escorregar,arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo,foi
So para deflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O que mais que faço não vale nada.
Como,pois,sereis vós
Que me dareis machados,ferramentas,e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre,nas vossas veias,sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos,as torrentes,os desertos...
Ide!Tendes estradas,
Tendes jardins,tendes canteiros,
Tendes pátrias,tendes tetos,
E tendes regras,e tratados,e filósofos,e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a,como um facho,a arder na noite escura,
E sinto espuma,e sangue,e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam,mais ninguém.
Todos tiveram pai,todos tiveram mãe.
Mas eu,que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah,que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:"vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--Sei que não vou por aí!
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
ÁLVARO DE CAMPOS / LISBON REVISTED
Não:não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-na daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos,não me enfileirem
[conquistas
Das ciências(das ciências,Deus meu,das ciências!)
Das ciências,das artes,da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade,guardem-na!
Sou um técnico,mas tenho a técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido,com todo direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo,ouviram?
Não me macem,por amor de Deus!
Queria-me casado,fútil,cotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto,o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa,fazia-lhes,a todos,a vontade.
Assim,como sou,tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixe-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho
Ah,que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul -- o mesmo da minha infância--,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada,Lisboa de outrora de hoje!
Nada ma dais,nada me tirais,nada sois que eu me sinta.
Deixem em paz! Não tardo,que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-na daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos,não me enfileirem
[conquistas
Das ciências(das ciências,Deus meu,das ciências!)
Das ciências,das artes,da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade,guardem-na!
Sou um técnico,mas tenho a técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido,com todo direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo,ouviram?
Não me macem,por amor de Deus!
Queria-me casado,fútil,cotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto,o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa,fazia-lhes,a todos,a vontade.
Assim,como sou,tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixe-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho
Ah,que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul -- o mesmo da minha infância--,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada,Lisboa de outrora de hoje!
Nada ma dais,nada me tirais,nada sois que eu me sinta.
Deixem em paz! Não tardo,que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Processos e peças
Lápis Azul
quase na penumbra ela aponta o lápis azul encostada na ponta da mesa metálica presa por duas finas tiras de cabo de aço na parede.uma mesa levadiça.a noite apresenta sua escuridão aos abraços de Morfeu. e na mínuscula fresta de luz que trepassa os vãos da porta desajustada em seus batentes.portas de ferro batentes de chapa galvanizadas fixas por buchas e parafusos imensos. na ponta do lápis começa a nascer entre uma lasca e outra um fino dedinho azul e, as lascas ficam dispersas sobre a mesa metálica e ela continua com seus movimentos compassados num ritmo de dança entre o lápis e a gilete.pela linha de luz que rasga a escuridão do ambiente--aquela lâmpada amarela fixa no teto do corredor é a única certeza que existe um outro lado.a ponta do lápis cresceu.com terna paciência ela começa a recolher os restos decepados do lápis azul e , num movimento livre vai tocando um por um com a ponta do lápis azul as lascas juntando-os num pequeno mosaico de um sol azul sobre a mesa metálica.seu olhar por vezes alcança a fresta de luz que insiste dentro do ambiente e,seu olhar retorna pra cima da mesa e assim,vai passando seus dedos finos delgados com uma delicadeza de menina e as lascas formam uma figura de boneca.num movimento calmo e silêncioso ela apanha o lápis azul e com muita calma,caminha ate onde a fina luz vara a fresta e mancha a parede de um branco gasto.com destreza vai esbarrando o lápis azul na parede áspera e uma caligrafia clara e precisa vai deixando uma inscrição rupestre azul perdido sobre um fundo branco gasto.agora com o olhar dentro de si,repousa o lápis azul com a mesma calma dos movimentos anteriores e, deixa-se ser acolhida pela cama que fixa como a mesa metálica range os cabos de aço quando seu corpo magro ajeita-se sobre ela.olhando a fina fresta de luz que vara teu ambiente,ela arrasta a lâmina e, sem tirar seu olhar perdido da linha de luz que invade sua visão fraca;afunda a lâmina no pulso esquerdo e o sangue salta aos jorros absoluto. com a mesma parcimonia do movimento anterior abre o pulso direto e,temos a mesma cena do pulso esquerdo:sangue saltando aos jorros e absoluto.na manhã quando a porta de ferro 48 é acionada e destravada a funcionária da Instituição,depois de observar o corpo ínutil e o encharcado colchão de sangue.percebe o lápis azul,o pequeno mosaico e uma inscrição em letras miúdas:Eu não suporto mais esta vida.
Coisa besta
manhãs destas aí;que você saí virado no setenta.correndo sempre pra não ver os sol nascendo
lá naquele fundo de brejo.depois de tudo;estas coisas continuam acontecendo na vida de gente
que não sentou praça em canto nenhum.que desafôro!viver poraí com um galho na correnteza:
perdido;a deriva e totalmente sem rumo nem prumo nem porra nenhuma.aí num destes maldidos acasos;puft! bate de frente e aí:eu não corro.sei que posso sobreviver a tudo.Eu sei!
Fica diferente dormir juntos depois de dormir um tempo tão grande porái ;dormindo avulso como se fosse viver eternamente.
manhãs destas aì;depois da magia do começo.aquela camisa jogada já é o prenúncio do fim do nosso amor.mas aí agente ouve Gal cantando Meu Bem.. e, fica naquela dança: quem cedeu sorriu
porque ceder de verdade ensina crescer...
lá naquele fundo de brejo.depois de tudo;estas coisas continuam acontecendo na vida de gente
que não sentou praça em canto nenhum.que desafôro!viver poraí com um galho na correnteza:
perdido;a deriva e totalmente sem rumo nem prumo nem porra nenhuma.aí num destes maldidos acasos;puft! bate de frente e aí:eu não corro.sei que posso sobreviver a tudo.Eu sei!
Fica diferente dormir juntos depois de dormir um tempo tão grande porái ;dormindo avulso como se fosse viver eternamente.
manhãs destas aì;depois da magia do começo.aquela camisa jogada já é o prenúncio do fim do nosso amor.mas aí agente ouve Gal cantando Meu Bem.. e, fica naquela dança: quem cedeu sorriu
porque ceder de verdade ensina crescer...
Elegância
ela tinha aquela tortura natural das deusas em enlouquecer aos desavindos de alma perdida.e,tanto desencontro nas retinas que o vazio úmido dos dias tristes era visível.
enamorado de não buscar o que falta abriga afagos de sonhar ao pôr-do-sol que toda málicia
da noite será casta ordinária e maravilhosa.
duma feita o falar das manhãs tornou-se alva e tão diáfna que cegava;e naquele dia o cinza
mórbido espantou-se com minha felicidade e bradrou:alto lá!onde pensa que vai? e como meu
sorriso nesta manhã não era parte das máscaras que uso no meu cotidiano áspero e que corroi
todas as sensações por medo de senti-las.porra.eu estou apaixonado!
sentir que parte por parte racha-se por dentro e tudo é tão novo e delicado que voce sente
que não pode mentir aos desejos que eriçam teu ser num sonho sem fim.
enamorado de não buscar o que falta abriga afagos de sonhar ao pôr-do-sol que toda málicia
da noite será casta ordinária e maravilhosa.
duma feita o falar das manhãs tornou-se alva e tão diáfna que cegava;e naquele dia o cinza
mórbido espantou-se com minha felicidade e bradrou:alto lá!onde pensa que vai? e como meu
sorriso nesta manhã não era parte das máscaras que uso no meu cotidiano áspero e que corroi
todas as sensações por medo de senti-las.porra.eu estou apaixonado!
sentir que parte por parte racha-se por dentro e tudo é tão novo e delicado que voce sente
que não pode mentir aos desejos que eriçam teu ser num sonho sem fim.
Domingo
outro destes estava poraí olhando pelas frestas de janelas descuidas e, como se um olhar estivesse chamando pra trocar o gás,ou sei lá que porra.sabe,tem dias que você não sabe o que fazer da vida e,fica olhando como a vida escorre pelas janelas alheias.bem,o sol arde numa manhã linda de domingo.mas,eu não estou dentro deste dia.sabe como é?..vejo mulheres sacando roupas de dentro de suas máquinas de lavar e armando varais e,tão descuidas de tudo que não sentem meu olhar de perdido.as ruas começam a desabrochar num alvoroço que só existe nas quebradas;caras começam a lavar seus carros da frota prata,a molecada corre pra lá e pra cá.que felicidade! bom, o domingo cresce e a festa começa na banca de pastel..
terça-feira, 30 de setembro de 2014
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
A Sutileza Mórbida da Convivência
O que existe dentro do cotidiano que não é digerido com o olhar
perdido da rotina? Por vezes, Asdrúbal se questionava no caminho para o
trabalho; sobre a possibilidade (cada vez mais próxima) de largar tudo e sair
pelo mundo—pelo mundo como tanta gente faz! Mas, pensava: não é tanta gente
assim e, seguia seu caminho para o trabalho; cumprimentava um e outro e vê que
todos os bons-dias serão sonoros e acompanhados de sorrisos que poderão ser
metafísicos e decorados como a tabuada:7x5=35! Bom dia! 4x3=12! Bom Dia! .
Ninguém esquece, mas, temos o artifício dos dedos E assim são os bons-dias—os
olhos denunciarão quando o bom-dia só cumpriu a educação formal. E assim. Asdrúbal chegará ao
seu trabalho: um prédio com tecnologia avançada e muitos tramites para entrar. Os
porteiros, sim, isso mesmo, os porteiros ficarão ali todo santo e, Asdrúbal
trabalhará no sexto andar no setor gráfico. E o operador de xérox a laser mais capacitado
que a empresa tem até o momento—sempre virá alguém para substituir o melhor—entretanto,
se por acaso, um destes acasos que acontecem nas manhãs de tédio ou de imensa
alegria, aquela alegria inútil de olhar o sol pela janela e; acreditará que o
dia será lindo. Ah! Metrô insuportável! .Assim, se Asdrúbal se esquecer do
crachá, os porteiros, amigos de fim de expediente e confissões ao pé do balcão,
no botequim que insiste em sobreviver no alvoroço da especulação imobiliária
desta cidade. Ah! .estaria frito. Crachá eletrônico! .Catracas que liberam o
funcionário ao trabalho que lhe foi” concedido” por concurso público.—crachá!
Esqueci...Os olhos dos amigos após as dezoito horas serão de indignação. As
câmeras denunciarão os afetos, os sorrisos afáveis.., esqueci....Você vai ter
que preencher os formulários ,e o porteiro chefe será acionado: O que
houve?—Esqueci o crachá! .A formalidade do amigo após as dezoito horas será
notável e registrada pela câmera central—você sabe que só tem três tolerâncias
por mês, esta é a última! Queira passar! Vem comigo. Enquanto o fluxo de
funcionários observará Asdrúbal se submetido ao vexame de ser acompanhado pelo
chefe dos porteiros—amigos após as dezoito horas—pelo corredor onde entrarão
numa sala com câmeras e ali será lavrado um formulário de autorização ao seu
local” concedido” para o trabalho de oito horas. Entre os dentes, o porteiro
chefe sussurrará: porra coloca esta merda no pescoço, de cabeça baixa, é claro.
Asdrúbal imaginará tudo naquela sala.. Olhará o formulário e irá
colocando—assinalando—X nos quadrinhos. As câmeras são cascavéis dando botes
sincronizados—nada escapará! .Na saída da sala, o porteiro chefe—amigo após as
dezoito horas—comentará sobre o jogo de sábado e, Asdrúbal falará qualquer
coisa e, seguirá para o seu andar, agora estará devidamente autorizado liberado
a suar oito horas em suas máquinas de xérox de última a geração. Bom
Dia!(6x3=18) será parceiro de trabalho, como na cadeia: parceiros! Bom
Dia!(9x7=63).Já sei.. esqueceu o crachá, ligaram aqui pro Seu Lewis pra autorizar
você.., É...dentro da sala com máquinas off-set e outras de xérox a laser
Martinos e Asdrúbal,serão observados pelo Seu Lewis dentro do aquário com vidro
claro e transparente, tendo uma tira de insulfilme fume de cinqüenta
centímetros que divide o vidro branco e, porali Seu Lewis observará tudo. O que
foi agora? Martinos é um operador prático e sistemático com seu trabalho e, tem
uma admiração platônica por Asdrúbal. Esqueci! Só isto: esqueci. As máquinas
serão acionadas e quase não farão ruídos; de costas pro aquário Asdrúbal e Martinos
trabalharão e conversarão e irão se tolerar...você viu o jornal ontem
Asdrúbal?—Não!—Você precisava ter visto. Em São Paulo estão comendo cachorros. E,
as máquinas serão precisas com seu trabalho programado por micro-processadores
e, enquanto as máquinas vomitam folhas e mais folhas, Asdrúbal ouvirá Martinos
destrinchando teses sobre tudo: você viu a nova chuteira do Ronaldinho Gaúcho? Tem
um chip no cravo e vai a imagem do pé dele via satélite; voce precisava ver a
gostosa lá do Irã que fez um filme sobre a vida dos camêlos e...Asdrúbal olhará
o parceiro e emitirá Uns grunhidos como se estivesse com cólicas. E, saberá que
lá do aquário serão observados Pelo Seu Lewis. Meio-Dia! O mundo recomeçará
para Asdrúbal que sairá para a rua e ,seus olhos necessitarão de óculos
escuros, a luminosidade do sol será abrupta. Depois passará pela portaria e
ouvirá um tudo bem do porteiro chefe—amigos após as dezoito horas—Irá
jogar-se-á num banco de praça e ficará a deriva: quantos anos pra resolver o
que não resolvo; pergunta-se-á: Qual a
segurança que tenho neste emprego? Aposentar e ficar num banco de praça jogando
dominó? E assim, dentro do tempo que lhe restará para voltar para a sala das
máquinas e, ouvirá Martinos com suas teses e conclusões. Asdrúbal permanecerá tão
longe de tudo o que lhe é próximo que não notará que Seu Lewis e o Gerente de operações
estarão lhe observando no sexto andar. Quando Asdrúbal entra com a mão no bolso
par tirar o cartão eletrônico que lhe permitirá atravessar a catraca do metrô: Meu
Deus! Cadê meu crachá?? Clovis de Carvalho
Merdinha
O quarto de hotel na cara da rodoviária denunciava em que situação
esta quem ali hospeda-se. a mala era uma mochila azul. aquele azul de
felicidade que quando você é um merdinha e, olha o céu azul da manhã e nada é
mais lindo. praticar o pôr-do-sol e chorar ainda é um ato livre e solitário que
me ensina ir vivendo com minha fudida alma.um dia destes li num livro que o céu
do sertão do Guimarães Rosa é tão estrelado que parece uma casa sempre acesa
pruma baita festa. mas o que é um pôr-de-sol? é uma beleza sem explicação que
toma voce..encosto num pé de viaduto que é um lugar dos mais tranqüilos estas
horas da tardezinha. ali. o sol vai afundando e cai de vez lá no fundo de prédios
que não tem fim. A cidade fica tão linda esta hora. parece uma festa, sabe; gente
pra cá gente pra lá e todos fora do compasso da dança. todos perdidos numa
velocidade sem nexo. vidas que não deixam sombras nem num espelho. e quando se
é um merdinha você vê aquele céu lindo. tudo é perfeito. depois; todo cara que
não aceita as direções autoritárias da montagem de todas as cenas
trágicas-cômicas cotidianas que chamamos de sociedade. então ele é um fracassado,
um fudido.um zero.. A água do chuveiro é um bálsamo que abriga um ser que
refestela-se na vida simples; do agrado do mato; da brisa das roças de milho e
mandioca que plantei. da noite que ouve o sussurro do vento.. e da dor que
remoi a memória como o nervo de um dente que dói numa chuvosa e fria noite. Por
fim, calço aquelas gastas sandálias que parecem de índios dos distantes
planaltos. na rua o olfato humano escorre em calhas dentro do vão que as
pessoas criam no trajeto sobre as calçadas. uns vão com a tristeza da morte; outros
em sentido contrário caminham com o peso dos afazeres; dos desmandos; dos
acasos insondáveis desta vida e Deus para consolar à todos. o ar que
canaliza-se entre estes vãos humanos criam uma zona de olfato muito
diversificada e rica. caminho pelo vazio desta existência sem existir. não
busco nada. existo. Por vezes, caminho sozinho pelas ruas da cidade que me
segura como um filho no atravessar da rua. e sinto nas expressões futigadas de
tanta gente uma desesperança, uma dor forte que nos arremessa pro mundo. assim:
é minha solidão. e na noite que nutre nossos diabos que nos invadem como as de
muitas almas num fogo dos infernos de Dante. Percebo seu olhar como se
questionasse a imensidão do céu que alaranjazulou-se e confeccionou o painel
mais lindo do dia. ele me mostra suas coisas, sua casa: coisas amontoadas de um
lado coisas amontoadas de outro lado. o viaduto é o teto. carrinho estacionado
na porta da pocilga entre três vira-latas que rosnam a quem chega perto. sem
autorização é um perigo. digo-lhe que estou no hotel da frente. torce sua
feição e diz que ali é melhor. chamo prum café.me diz se procuro trabalho. só
no comércio e pros judeus. quando se é um merdinha daqueles em dias felizes com
os irmãos e os pais num parque. não poderia entender o odor que saculeja todo
meu olfato.. as morenas tem algo de diabólico. Cruzam roçando no meu corpo
,estão tão alucinadas de sonhos e pressa que não sentem meu olhar.de posse.de
luxuria total. a voraz vida que se arrasta diante desta rotina caquética que nos
ilude com um futuro que não virá, porque o que você vive é teu futuro. ele ouve
e olha o ceú num novo alaranjazulou de arder a vista num fundo de mar .eu
beberia formal pra comemorar. digo que preciso ir. e vou por onde sempre fui: a
lugar nenhum sempre dando voltas como um cão que perdeu seu dono e agora só tem
os becos ,as vielas ,as pontes e os viadutos e vez ou outra um hotel de quinta;
quando você caminha nas ruas de qualquer grande metrópole é uniforme esta
velocidade; gente com papéis numa das mãos e arrastando a outra mão como um
rastelo nervoso pelos cabelos; gente que não olha as reentrâncias nos imensos
edifícios onde os pardais e pombos ficam imóveis nos observando. as ruas desta cidade
são grandes bocarras que masgam toda esta gente como se fosse um naco de fumo e,
depois, as cospem fora suas almas negras como a baba do fumo escorrendo pela
boca; as marcas de toda desesperança que vejo estão refletidas em mim como uma
máscara num manequin destes que uma vitrine qualquer anuncia uma liquidação. a
grande desurbanização que é esta cidade; inspira um olhar de grande instalação
que afeta nossas mais primitivas aflições e emoções num grande redemoinho de
imagens que nos desmontam como expectadores para uma grande arte que não afeta
o nosso entendimento. caminho como um destes livros velhos que mesmo jogado na
rua ninguém apanha. as pessoas estão realmente na era cibernética .quando volto
pro hotel, vejo que o cara do pôr-de-sol esta nas ruas com seu carrinho e o
séqüito de três vira-latas num trabalho relegado aos marginais, os excluídos de
tudo. da janela do hotel visualizo o oceano de prédios que naufragam num cinza
cor de pele de rato e, os únicos que tem um pouco de paz neste caos que se
estabelece como premissa de viver num lugar destes; são os vadios e mendigos
que estacionam suas dores em qualquer lugar e emergem para dentro de suas
desgraçadas vidas. arrumo minha mochila cor de felicidade e desço para me
despedir do cara do pôr-do-sol. falamos coisas do dia que passou tomamos um
café numa espelunca e digo que já estou de partida. vai pra onde? ele me
pergunta como se eu pudesse arrastá-lo dali mesmo se fosse a fórceps. fico mudo
e ele compreende que seus vira-latas estão melhor que eu.de repente apanha um
livro de sua tralha e me entrega sem dizer nada.um Olhai os Lírios do Campo com
capa dura.adeus.adeus.... Clovis de Carvalho
Véinho
O Bom, eu estava convidado pra festa de mano, liberdade xará. Já
largou uma dinamite na minha mão e, começou a destrinchar sua lábia ágil e
cheia de requebros. aí veinho, fica a vontes poraí, se quiser tem pra cheirar?
não. tou suave! vou só de beck.. .é pode crer! fica a vontes e, saiu pro meio
do povo na frente de seu barraco. sua biqueira é na frente da vala que já foi
um puta córrego que nadei na minha infância; que foi bem louca. aqui por onde
escorre a vala ,existe agora uma favela de barracos pintados pelo Kassab, pra
dar aquela impressão maravilhosa de felicidade com as cores que o Ruy Othake
emprestou da mãe e, ficou aquele Naïf ao vivo de descaso e miséria colorida ao
lado da vala fedorenta e, que; vai cuspir no Tiête toda esta carniça deslizando
ao nosso lado. maluco, tá uma cheiração do caralho. Pivetas começam à chegar
num frisson alucinante de noitada, agora: balada! O funk começa a explodir
dentro da favela anunciando um terremoto de lascívia e desejos nos saculejos
sexuais das pivetas. aí veinho, cola na banca. colei. então: como é que ta a
festa? porra, muito louca maluco! Você ver uma festa funk na TV é uma parada,
você dentro de uma festa funk numa biqueira é outra coisa, maluco o barato é louco!!comé aí veinho; uma mesa
forrada de rango: batata frita, cachorro-quente e refri pra molecada e um
churrasco com meia banda de boi pra ir comendo com pão.. então veinho, se joga,
as minas aqui é tudo é nosso. e, me servi de refrigerante. Num bebe não veinho?
não. e saiu pra receber uma galera de outra quebrada. convidados de honra.
manos da outra quebrada que adiantou o lado do mano pra sair fora na fuga
organizada com sua gente. envolvimentos ta ligado.. eu já estava doidão pra
caralho, aquela cheiração, o funk comendo solto :uuiiuu levanta sua bucetinha e
senta o cuzinho no meu caralho uiiuiuu.. e porái vai indo a coisa. como não
conheço quase ninguém, fico de canto fumando meu torpedo; vendo e ouvindo
coisas deste mundo que parece um filme daqueles que você usa aqueles óculos
tridimensionais pra ver está realidade que nasce no descaso geral que existe em
toda periferia do País.. volto pro funk e; olhando as pivetas estremecendo o
ambiente do lugar num remelexo tão demoníaco que só não fica de pau duro quem
não gosta, maluco tinha uma loirinha funkiando com um neguinho, mano. Kama
Sutra é gibi do Tio Patinhas(lê aí minha gíria arcaica),maluco o neguinho ia
pra cima da loirinha e numa gingada de seus descendentes que sofreram pra
caralho na mãos dos religiosos brancos com sotaque estranho ..bom: o neguinho
entrava dentro da loirinha e saia do outro lado numa fúria de planta carnívora,
caralho. salve :sexo drogas e funk! Desculpa aí Marvin Gaye .. Meu
,inacreditável aquelas pivetas chacoalhando o rabo como um guiso de cascavel
encurralada. meu torpedo naufragou.eu doidaço!. aí, veinho, cola aí na banca.colei.me apresentou pra rapaziada convidada de honra e disse na cara
deles que eu era uma cara ponta, e que dei a maior força pra ele, sem que ele
pedisse nada, aí maluco ,o veinho é sangue. cola cumnóis aqui na quebrada.vi
que me olharam como um das antigas, é assim que definem qualquer cara que correu
fora da grande engrenagem e ainda está por si e solto na vida.. vai.. .não só
fumo! quando colei pela primeira vez nesta biqueira, meu camarada, patrono da
festa, não me serviu. depois de ser apresentado por dois pivetes que fumam
comigo numa praça, ele, meu camarada disse-me: aí veínho, pensei que fosse um
verme da Civil. porra, qual que é meu? ..começamos a nós encontrar duas vezes
por semana. duas. três.. quatro.. que bagulho bom meu chapa! Num dia destes que
aqueles remorsos invadem sua alma na calada da madrugada caminhado com você e
sua carga de dores fundas que marcam sua cara numa máscara derretida que vai
soltando pedaços como os relógios de Dali, enquanto o fogo da memória vai avançando
com sua língua mortal. Estava passando na margem da vala calçada pelo Kassab com
aqueles tijolinhos de cimento de cores cinza, branco e terracota, super-
faturados é claro, pra que todos possam correr nas manhãs ao lado da fedorenta
vala. passei pela biqueira que estava vazia estas horas. aí veinho! ouvi sua
voz que saia detrás de uma cerca tão fudida caindo os pedaços mesmo. cola
aí.colei.me passou o beck e falou: com barba ou sem você tem o naipe dos vermes
da Civil. vai fundo aí! Enchi a boca de fumaça e não respondi nada. Dei mais
uma longa puxada e quando devolvi- lhe o beck perguntei: tão na tua aba? Porra.. tenho que acertar
hoje até ás seis, senão fodeu! Falta quinhentos contos! me devolveu o beck.
falou tossindo. traguei. prendi e ahh! Quanto falta? quinhentos! tenho dois e
meio na goma. meus olhos dilatados cruzam suas retinas e senti que todo aquele
ódio que vi porali era o suficiente pra expurgar todos os vermes da Civil de
uma só vez. ficamos ali, enquanto eu estava engolindo minha dor com uma grande
dose de drama e angústias. o cara do meu lado estava pra ir pra cadeia; senão
acertasse sua dívida com os caras que são pagos com tua grana pra te proteger
de toda malandragem patrocinado pelos grandes corruptos que deitam e rolam na
sopa que é a Grande Parada da droga. Olhando o portão que poderia estar no MoMA
se fosse criado por um destes artistas das classes dominantes eternamente
deitados em berço esplêndido; explicando sua criação numa linguagem tão escabrosa
e com uma mixórdia de pensamento burguês do caralho, ofilhodaputa nunca passou
nem perto de uma favela e quer exibir sua genialidade sobre conceitos de arte
sociológica... .Meu Deus! aí veinho, era meu camarada me devolvendo a grangrena
desta realidade social que pra quem domina é necessário saber que tudo continua
lá como sempre foi, segregação total e agora, tudo pintado! vou nesta e; segui
meu passo lento e arrastado. comecei: olhando a vala e me vi com aquela
molecada nadando ali, e, nem imaginava que aquela farra na água do riozinho era
felicidade! meus demônios estavam todos loucos como eu e estavam dando uma
festa. Continuei errando pela margem da vala subi numa viela e segurando minha
balinha prateada de papel alumínio. meu tesouro! bom ,se o ratos da Lei te pegam
com uma porrinha destas armam um script de horror e, eles são Fred Grugger e a caricatura
que um porra dos Estados Unidos transformou uma imagem alucinante de Munch. meu
predileto dele e uma figura vestida de negro sentada na beira de uma praia de pescadores
com aquele olhar tão vazio e perdido, um olhar sem esperança como o meu.eu já tinha
fumado com meu camarada dentro da goma dele, conhecia seus três pivetes e sua esposa.
Tinha tomado café e mandado bolo de fubá e nesta foi uns quatro beck numa
conversa aberta e franca sobre a merda da vida de todos nós ..tudo ali na
frente da vala, das crianças e de Deus que se diverte com tudo isto. só pode
meu! todos tem sonhos e ninguém quer ficar nesta porra de beira de vala; quando
chove legal. enchente geral. putaquiupariu! mas, vai pra onde? vai ficando e
tentando se resolver pelo outro lado que não adianta nada só atrasa ;enquanto
todos da ordem e dos bons costumes; e que cheiram pra dedel vão mantendo a Parada
do Narco-Tráfico com tentáculos de vício e morte em benefício de seus carros importados,
mansões holywoodianas, castelos e a porra toda de luxo; que o poder de sua nomenclatura
vai anunciando uma imunidade diante de suas pegadas de corrupção alastrando-se
em todo o processo desta Justiça que só existe pra pobre, negro e outros fudidos.
Já pensou se o Nelson Dantas resolve falar a verdade sobre sua grande rabiola
de amigos e quem são cada um dos fiapinhos de plástico que lhe sustenta no ar ..maluco!
umas três da tarde, desci pra beira da vala e trombei meu camarada. Aí véinho. aí
meu.me arrastou até seu barraco e foi dizendo que estava tudo em cima .a grana estava
na mão era só esperar aqueles vermes da Civil colar e acertar a treta. vou ter
que sair do ar por uns tempos ,senão os caras só vem morder, mas os meninos vão
ficar servindo poraqui. fumamos um olhando a agitação da favela. molecada
chegando da escola e, numa rapidez assustadora entram em seus barracos e saem
só de bermudas e nas mãos uma lata de linha e um pipa na outra ,a vida começa
agora pra eles.as meninas ficam brincado de amarelinha, pulam cordas; as
adolescentes jogam futebol e falam de outras paradas num gestual cibernético
com muitos palavrões.. e, todas com seus inseparáveis celulares tocando aquele
funk do caralho. umas cinco vazei. Saio no meu role matinal pelas ruas de minha
infância e desço pra biqueira .ae tiozão! Era o sobrinho do Beto adiantando os
fatos.. os vermes fizeram o acerto e depois ,lá pelas oito da noite outros
vermes chegaram e já enquadram o Beto e levaram pra outra quebrada. porra, que filhosdaputa.
é foda xará, os caras são a lei! cheguei no barraco do Beto ,falei com a Nice,
sua esposa ,e tudo foi confirmado. Peguei um dois por hum com o moleque que estava
no lugar do Beto, bolei e ascendi e saí fumando na beira da vala; olhando toda
aquela gente que vive porali; são gente que tem aquela fé num Deus que não sabe
deles. Os vermes do acharque pegaram a grana da extorsão e, já armaram pra
outros vermes da Civil de outro Munícipio colar e levar o Beto sem acordo. quando
fazem este tipo de acordo entre eles ,pode ter certeza que os vermes da
extorsão já estão na mira da Corregedoria, que esta investigando e, enquanto
não chegam mais perto do povo as Instituição ficam capengas na vista de todos. O
cara fica lá guardado enquanto seus Patrões transitam em grandes festas em
palácios e outras porras. a lama podre vai deixando caras como Beto que é um
mero traficante sem antecedentes s criminais ..no grande primeiro estágio da
parada doida da cadeia, ali só temoutros também que começaram como o Beto. só
um adianto e aí vai e num sai mais e depois que rodou uma vez, uma só vez; você
é um gado marcado pro abate social mais fudido que existe neste país de uma
democracia pra quem tem grana; agente da arquibancada não tem nem tomate podre
pra mandar na cara desta corja que desfila na cara da gente tantas patifarias
e, assim toda a sociedade vai patrocinando os mais furiosos pistoleiros com sua
própria lei. a Justiça pega um cara deste e se existisse interesse o Beto
poderia ter outra oportunidade se ficasse por lá estudando e aprendo um
profissão. por ex: poderia ser soldador pra quando saísse montasse um quadrilha
de arrombar cofre com maçarico, justiça pensa assim; e joga o cara no meio da
fúria, meio de tudo o que já esta podre podre. .Um 12 na cara. fugiu! agora já
era! Caralho! este dois por um é foda. estava doidaço e fui caminhado olhando a
grande serpente negra espalhando seu fedorento hálito em público em direção ao
Tiête. tudo bem pintadinho. soube pela Nice; que ele agradecia as cestas
básicas que descolei levei pra sua espôsa, depois fiquei fudido, mas estava
sempre sabendo o que acontecia e aproveitava e ia ver as crianças e brincar com
elas na beira da vala. e depois partia com meu dois por hum. agora, ali na
frente eu era testemunha de grandes pactos; de grandes paradas; de grandes
tretas numa dimensão inimaginável e o funk arrebentando nos tímpanos pra fuder.
aí veinho, ele já estava bem pra lá de Marraquesh. Eu em Plutão. aaí tá vendo
aquela ali de saia azul ,e apontou pra gostosinha ela sorriu largamente com seu
melhor sorriso, gostou de você. porra aí ficou fácil. você não sabe o que uma
trepada magistral com uma mina dançando funk em cima do seu cacete, eu também
não sabia. uui uui aaee aaee fica de quatro que o cuzinho eu vou foder, eu
seguia todas a letras com dedicação digna de condecoração disciplinar.. como
fode estas pivetas. umas três da manhã meu pau, e eu, estavam sem fôlego. deixei
ela porali meia zonza de tanto cheirar e fumar e foder .aí da um tempo que vou falar
com o Beto. ja volto. e ela lá largando aquele nariznho que enchi de porra. aaí
Beto descola um azulzinho.na moral. aí veinho, qué morre é! ela fode demais nenão?.demais.
dois minutos ele estava de volta com o poderoso: eu morro mas morro feliz!, tomei
metade com Fanta. e voltei pra aquele rabinho..uuuii põe gostoso põe gostoso
põe paizinho. obedeçono sol a pino! Sei que o Beto anda no corre poraí, saiu
fora da quebrada, soube por seus substitutos; que ele esta no Progresso. é o
que falam. pego meu dois por hum e vazo. vou plantar umas sementes da bichinha
quem sabe vai.. Clóvis de carvalho
ANJINHO DE PROCISSÃO
Nasci bem na divisa do Estado de São Paulo com o Mato Grosso e fui
sendo criado na Fazenda de Seu Antão; onde minha mãe morreu de tuberculose e de
um desgosto dos infernos; Meu pai tinha fincado pé no mundo e depois que nasci
minha mãe morreu, dizem que só estava esperando eu nascer pra partir, é o que
dizem as pessoas mais próximas de mim. A irmã de Seu Antão, uma destas beatas
que não casou-se nem tão pouco, teve filhos; me adotou e tanto era sua fissura
por um filho, dizem que até no peito dela eu mamei; ela me pegou no parto
fúnebre de minha mãe. O sonho de D.Maria Ladiva, era este o nome dela; era que
eu fosse padre e, muito cedo começou com esta história de me empetecar de goma
no cabelo e enfiar uma bata branca com asinhas também brancas e, aquelas sandálias
de tiras que sobem até dois dedos abaixo dos joelhos, e claro, aquela auréola
de penas de galinha.. tive uma infância solta e cheia de mimos e de segredos;
ainda menino senti várias vezes o olhar de Seu Antão sobre mim; enquanto
brincava com brinquedos que, por vezes, chegavam de outros países, trazidos nas
bagagens de amigos da família. A cada véspera de qualquer dia santo eu penava
na preparação para ser o Anjinho de Procissão. Era aquele esmero exagerado das
beatas em cuidar de mim como se eu fosse um bibelô sagrado. Mas, fora esta
encheção de saco; tudo era maravilhoso. Estudava muito. Aos treze anos, estava
livre do Francês e do Inglês, mas ainda tinha aquelas tardes em Frente Ao piano
com D.Esther tentando fazer meus dedos tirar notas perfeitas de tudo quanto era
música de concerto, que era moda na Europa.. Meu Deus ,que inferno! Como foi ficando
cada vez menos provável que eu seria religioso; várias vezes, no decorrer de minha
infância pré- senciei discussões de Seu Antão com D.M.Ladiva sobre minha
formação. Seu Antão, não alisava e dizia: Você pensa que este menino nasceu pra
falar estas línguas enroladas e tocar piano nos seus chazinhos da tarde?;
.graças a Deus ele tem o gosto pelo mato, pelos animais e pelo tudo que você
diz ser nada e; você não viu o olhar tinhoso dele quando tem gente querendo me
enrolar: você é louco Antão, falar uma coisa destas do inocente, você desviou
ele do caminho que foi traçado por Deus e você vai pagar por isto, se já não
esta pagando. Nem nas procissões ele não quer ir mais, ontem, aos suspiros
disse ela : que a festa de São João deste ano vai ser a última e desabou num
choro tão sentido e profundo que até me remexi no meu esconderijo, que era
atrás de uma cristaleira.. E, depois de outras acusações mais fortes que
entrava do lado de Seu Antão: o padre Silas, as beatas e a formalidade de
tentar me transformar num almofadinha destes que não valem merda nenhuma; do
lado de D.M.Ladiva ouvia-se: por que não fez isto com teu filho? Por que não
fica no “teu mundo” sozinho? E.. cada um saia para o seu lado. E sempre na hora
do jantar era tudo passado os dois tinham um certo pacto, Que na hora das
refeições estas conversas eram proibidas, mesmo que às vezes, a situação Exigisse
umas farpinhas para serem servidas com a sobremesa. e; também era raro o dia que
não tinha aqueles comensais que de tanto estarem ali na hora do jantar nem eram
mais convidados. Na noite da véspera da Festa de São João, sorrateiramente, Seu
Antão com Uma conversa macia encantou a todos com o presente que desejei ganhar
desde que era um pirralho destes que sentam pelos cantos das casas e, que por
vezes; conversam com passarinhos.., e Seu Antão disse com galardia e uma
propência à ser aplaudido pela sua honradez e visão de futuro e, fui ouvindo
que tudo estava pronto para a minha partida para São Paulo para estudar a
ciência que sabia do aprendizado na lida espontânea do campo vendo como Seu
Antão sabia quando chovia; quando era coisa braba, daqueles ventões de levar
nossa alma pra tão longe que não se acharia mais e, sabia tanto que por vezes seus
olhos se banhavam no emaranhado do capim que cresce dentro da gente em manhãs
tão vistosas aos olhos que sonham com aquilo que nunca pensaram ter e ,,,perdido
dentro da audição dos aplausos finais de seu discurso Seu Antão esforçava-se para
agradecer á todos. Eu fiquei nos braços de D.M.Ladiva por uma eternidade
revendo paisagens de nossas tardes na varanda e sem voz dentro da gente. fui
uma comunhão. E ,depois de toda espécie de hipocrisias que existe ser cortejada
como entrada; minha vida seria outra;. esta era uma coisa que sabia que existia
e não sabia como era ;mas, era uma sensação de leveza que se eu pulasse neste dia
pra longe de tudo tudo ;eu seria livre! Eu já estava em São Paulo havia dois
anos ,quando numa tardes destas que você esta poraí Andando e pensando num
monte de coisas que não se resolvem na vida, na minha vida, e; Olha tanto o
horizonte que teus olhos mentem uma luminosidade dӇgua que fica como uma
aquarela no punho da camisa; então acontece: a velocidade de nosso tempo é tão efêmera
que recordaríamos este instante com uma falsa precisão de gestos e tatos em noites
de segredos e ajustes. E, eu sentido o aroma daquela esperança dos que sonham com
um cotidiano menos abrupto, mas, tudo que vivi foi o vazio da relações de tatos
olhares armados de uma loucura tão usual que tudo era para mim; só mais um
grande ensaio da sala de jantar de Seu Antão. Aqui nesta cidade, tudo é tão
moderno e esplendoroso que quem tinha o pôr-do-sol invadindo portas e janelas
e, sentia a fina língua da pétala macia da neblina que cobre toda nossa vida de
meninos correndo na poça d”água. chapinando. senti o frisson das mulheres que
caminham com olhos fortes num olhar de reconhecimento que seu tempo é de
colheitas e partilhas e isto é só delas e sentem Que só elas possuem; senti a
anestesia dos costumes e por vezes era para chorar mas muitas eram pra rir, e
ria de tanta coisa que sabia e que aprendi com outro nome e executado de outra
maneira—Seu Antão era uma presença na minha vida! Eu sentia falta de D.M.Ladiva
que em tardes que corria pelas varandas sentindo os aromas que investigam os
nossos paladares com sua magia de nos dar o gosto do bolo de fubá que mais
gostamos sem tê-lo que provar e no revoar dos pássaros ela dirigia sua voz
forte e Berrava meu nome com tanta candura que por vezes eu imaginava que isto
era uma mãe; e me perdia em divagações de relembrar cenas cotidianas que
passaram por mim por olhos de uma beata que sob a égide do pecado e da Mão de
Deus pesando sob sua sombra na culpa que o perdão da cunhada não chegou e foi
se alongar nas capoeiras intrincáveis do emaranhado das relaçoes e; desistiu de
mim: ao ver eu enfiando um punhal num porco gordo que Seu Antão acabará de dar
com o nó do machado na testa; eu tinha nove anos. E foi neste mundo solto e
recebendo os melindres de uma educação tão Européia que tudo é diferente de dar
aquela mijada no formigueiro e não dar tempo de correr e algumas lava-pés Alcançam
por de dentro seu pé do pequeno sapato fino que usava pra correr pelas tardes na
varanda... E por vezes, caminho nas mesmas tardes de estampas e memórias que se
ajuntam como os brinquedos do meu quarto e não tinha com quem brincar. E toda
minha vida que se constrói e se consome num silêncio de manhãs no artifício de surpreender o sol e buscar qual máscara usarei enquanto estiver nesta cidade
tão moderna e esplendorosa.. No Mato, lá enfiado eram minhas tardes que não
tinha piano e que de tão errantes minh”alma; era do vento que me tomava todo e
a volúpia desta desfiguração pelo vento fortíssimo de fins de tardes de Janeiro
eu era uma parte daquela paisagem devastada pela fúria do vento.. Aquela
ocupação de todas suas coisas ; é que toma seu tempo e, muitas destas cartas
longas de D.M.Ladiva eu relia como uma primeira emoção inaudita. E sentia a mão
forte e sua sombra sempre esteve ao meu lado mesmo eu não querendo pertencer ao
que pertenço...depois, tudo a nossa volta começou a ficar pequeno e oval e toda
maneira de sonhar era sempre um pequeno vislumbre do nada que existiu entre eu
ela. livre como cheguei voltei pra ser de novo tudo o que sempre fui ...enfiado
no mato sentindo o filtro do fachos do sol que recebem meus olhos ávidos de
tudo. E incerto como toda a existência que não é prova de nada. Amar suas
entranhas acostumando com o tamanho fedor dos avessos e desencontros de toda
minha vida Voltar ao passado é só aquele medo do escuro que se foi e toda a
frescura da manhã manhosa do despertar é sempre o futuro que acaba de chegar e
que por outros caminhos; exige no mínimo encanto! E, hoje metido com todas as
coisas que Seu Antão deixou pra que eu cuidasse; depois do derramar do rio
houve um sol tão forte que nossas coisas amarelaram e ficaram turvas nossas
vistas de tanto não querer ver que é o cotidiano que ramifica a hera que cresce
dentro da gente...Encontro os mistérios nos mesmos lugares da casa e olhares
são de reencontro e paz; sinto aquele aroma dos varais que são velas içadas dentro
de nossa memória em dia de navegação tranqüila, de tantas peripércias Que ficaram presas nas teias de aranha daquele quarto onde o padre
se enforcou e; depois de morta D.M.Ladiva sobrevoava uns vastos calipais que
secam nossa seiva e nos endurece os laços que circulam a nossa volta num
incessante cercear de sobrevôos e vôos e; tudo Sob o sol do resignado
cotidiano; minha existência e o todo que restava dela era um apelo de
reencontrar com o entendimento de ser como se sente diante do que se foi e; vivendo
a mercê do pôr-de-sol que ensina que a beleza é simplicidade de reconhecer que
existe algo acima de explicações pra tanta beleza que arraiga nossa alma tão
nervosa por coisas fantásticas e tão necessárias. diante desta absurda razão
que permeia a vasta imensidão de olhares perdidos presos neste vício que esqueci...consumo!
E, no meio de cada ano sento diante dos olhares que sabem de minhas sombras e ventanias
Cumprimentam-me com o olhar sereno que desponta em dores mesmas e; perdido no meio
de vozes e brindes; reconheço minha memória e oferto afagos aos que enxergam minha
brevidade feliz em olhar o facho de luz que cobre o menino que passa vestido de
Anjinho de Procissão. Clovis de Carvalho
Camisa de linho branco
Deverás! Foi meu último instante de correr o olhar sem esperança
pela vidraça sempre embaçada do meu mundo. só meu. todos a minha volta percebem
meu cenho preocupado com as montanhas de nuvens que vão, em mim, movendo-se
numa lenta mutação de imagens azuis e brancas. mas, eu não sentia a presença de
mais ninguém no trem ,com a cara enfiada na janela sentindo minha alma vazia e
infeliz. ... .hoje, estava decido ontem: levantei fumando. Depois de camisa de
linho branco estava aprumado e pronto. era sábado; embarco no trem da Luz até o
Brás; portas são abertas e o trem exibe seu aspecto de ordem e asseio :tudo mentira!
depois de rever a boiada estourar, mas se tivesse dois passageiros, eles iriam
brigar, um pra sair e outro pra entrar. embarco: Itaim Paulista, em pé, meto a
cara no acrílico da porta do trem que avança e, minhas retinas vão engolindo a
paisagem urbana crescendo sempre em eterna desconstrução ;os varais são
obras-primas ! continuo doidaço e olhando como a sociedade estabelecida na hipocrisia..;
não interessa a classe social esta porra já vem embutida na educação que
recebemos de todos os lados.. e rejeitam minhas pupilas que nem cartão de
crédito passa.. .o trem avança suave e revejo a paisagem desta cidade veloz que
cresce apontando seus dedos imensos em concreto armado sob um perturbado céu
sem cor... quando você fica guardado sem fim perde a referência de tempo e
espaço; agarrado na memória que lhe apresenta flashs de tudo que foi destruído,
subtraído em nome do progresso e tudo que vejo é um emaranhado de botecos; igrejas
cada uma com seu Deus levando esta gente pro oco da ignorância; bairros
inteiros onde era um pântano imenso com gente vivendo a mercê de caras que usam
esta mesma fé em Deus pra prometer dias menos terríveis, que filhosdaputa! A
voz metálica anuncia que a próxima parada é Itaim Paulista ,num sobressalto
saio de minha letargia e me preparo como se fosse encontrar um velho amigo; mas
,o que encontro é uma estação brincando de Jetsons com espaços pra exposições e
outras porras, mas não existe nem uma foto das primeiras estações que morreram
pra dar lugar pra esta; que diz que o progresso chegou no bairro. mas, faltou
grana pra botarem escadas rolantes iguais das estações dos bairros dos bacanas;
capricharam mesmo nas escadas, inclusive nas caracóis ordinariamente estreitas;
pra quem não quiser usar a passarela legal que também é acesso ás bilheterias..
,os caras que projetaram toda esta grandiosidade nunca estiveram presentes num
horário de pico pra saber como é foda... saí fora da estação e caminhei um
pouco pelas imediações; não sobrou um puteiro dos meus tempos. O XM era a boate
de gatas inacreditáveis pra um cara de quinze anos. mas, Lago Azul era na
calçada e não tinha segurança era demais aquelas mulheres loucaças dançando na
rua; o Olgadora era meu preferido.. mais intimista, aquela luz tingindo tudo de
vermelho: putas, malandros e moleques de quinze ..dezesseis.. dançar com
aquelas gostosas de sainha coladinha, maluco! transar com uma destas gostosas com
uma caranga muito louca; roubada lá pelos lados da Augusta, porra! era legal
demais; quando estava num carros destes.. construiria-se uma escola com sua
grana.. os mesmos olhos que sempre me olharam como a parte da sarjeta que sou;
me olhavam agora como um filho-de-papai de algum homem caucasiano metido na
sarjeta da política. agora tudo são lojas de magazine, bancos e gente voando de
um lado pro outro pra bater o cartão .. triste pra caralho. contornei por uma
ruazinha que era linda e agora só tem gente, desci a rua lateral rumo a
estação. e ascendo mais um. trouxe maconha como se fosse pra algum lugar que
não existisse a danadinha... nada existe pra mim aqui e voltei pra estação
maravilhosa de escadas rolantes pra sacanear. embarquei no trem, agora sentado;
a paisagem me tomou por inteiro e fiquei ali olhando o mar de tijolos baianos, zinco
e madeira e aquelas telhas com cor de pele de rato que cobre a periferia que
estende-se ate onde o céu acaba pro meus olhos cansados e tristes. Elas, que se
prepararam pra dar aquele role e, são a minoria entre as que vão dar um trampo
nos Shoppings; que deveriam ser casas de arte-natureza pro povo aprender a
viver em harmonia com a Sua Mãe...viajei pra caralho. Meu Deus! Tantas gostosas
e muitas ostentam aquele celular do caralho no bolso detrás da calça apertada mesmo,
dando a impressão de animal rastreado em pesquisa biológica com aquelas
coleiras incomodas pra cacete ;que estes caras da biologia botam nos bichos pra
fazer um trabalho muito louco de preservação... Vou olhando alguns vagões
antigos jogados pela beirada da ferrovia ao lado de grandes construções que
ficam para o tempo corroer, por que será que não usam estes espaços pra arte e
trabalhos sociais; paredes de tijolos imensos caiados sem nenhuma imaginação;
imensos galpões à mercê do tempo, desabando e anulando a primeira memória dos
bairros que montam esta cidade que esta ocupada sem conhecimento da urbanização..
Já pensou um Grafite organizado e patrocinado entre cptm e as centenas de
fabricas de tintas desta cidade; os muros desta Ferrovia poderiam contar a
memória de cada quebrada em frente e verso reunindo gente de cada bairro pra
contar sua historia.de novo, viajei pra caralho. ..Tenho mais um aqui no bolso
de minha camisa de linho branco, isqueiro no bolso da bermuda caqui e curta no
joelhos, e sandálias de petróleo cinzas; faz um mês que usei esta roupa. Ando sempre
assim toda vez que saio pra me matar. Brás. embarco pra Luz desembarco. Na rua
comecei recitando Augusto dos Anjos: Toma um fósforo! Ascende teu cigarro. E
ascendi na calçada da Estação da Luz e, fui direto na direção delas, agora, não
conheço nenhuma; percebo uma bunda passando no meio de plantas tão lindamente
cuidadas, voltei e fui atrás. tinha uma cara gasta do infernos ,mas o corpo só
podia estar no formol pra estar daquele jeito.oi.oi.” Os que estão morrendo, amor.
precisam de tão pouco.” .e sorri dizendo: quanto é? vinte? o que você faz por
vinte? se o seu pau não tiver nada de machucadinho, chupo sem camisinha, e você
gozar rápido demais, agente vai outra vez.. .se eu não gozar rápido demais?
fico no prejú? Ri. e disse que tudo bem, ainda dei mais um trago no baseado e
saímos pro hotel. lembrança daquela Estação da Luz dos anos setenta. o lugar é
outro; tudo ficou mais forte e visível no descuido total da cidade que em sua
mutação ficou como um velho no asilo que não tem parentes só a memória roendo
lentamente sua solitária espera do fim. quando fumo muito fico assim deste
jeito: critico e feliz como se outra realidade me absorvesse me abduzisse deste
esgoto que conheço desde ... .totalmente chapado tenho uma saudades do meu
tempo; poraqui tudo que já era gasto e mal cuidado ficou assim tão desfigurado;
a cidade continua sempre maquiada às pressas pra festas suspeitas que acabam em
grandes palácios, numa bandalheira com a grana desta gente que corre por suas
entranhas gastas e sujas.. mas; tinha sempre paredes de reboco irregular
caiadas num cal pálido e com aquelas florzinhas pintadas na lateral das janelas
e suas portas coloniais; altas e estreitas de gradil pintados de azuis ou
verdes dos hotéis vagabundos nas imediações da Rodoviária Marechal Deodoro da
Fonseca xará.; aqui era demais pra vagabundear tomar todas e sair com elas. E
claro descolar uma grana preta dos otários chegando em Sampa, admirados da
cobertura colorida da Rodoviária como guarda-sóis numa praia linda e todos
chegavam para serem felizes, como eu.um covarde que não tem coragem de tomar
chumbinho e; vai olhando toda esta gente como sombras bruxuleantes num velório
de uma cidade que morre a cada dia com os desmandos da corja que deixa sempre
os que necessitam à mercê do descaso. porra, tou doidaço; o cinema pornô ascendia
forte e a Boca Lixo era minha quebrada. muita mulher maluco! sei que nada mais
disto existe. Estação da Luz meu eterno ponto de embarque e desembarque ,é ali
que descolo uma grana legal tem muito otário na parada. Muito otário. enquanto
caminho na rua ao lado de minha parceira por vinte contos, olho de soslaio sua
bunda empinadinha num vestido cinza semi- colado no corpo e, com a mão na sua
bunda vou olhando uma arquitetura caindo como os dentes podres da boca daquele
velho que arrastando sandálias de chumbo e ,morre largado um corredor de
hospital público da quebrada; sem receber os primeiros- socorros dos caras, que
tratam a cidade assim com governos medíocres e suspeitos pra caralho...fiquei
no prejuízo, mas foi divertido ficar ali com a Rute, foi o nome que me deu
junto com a mesma história de Hollywood: menina pobre do Interior vem tentar a
vida em São Paulo e cai na prostituição. e, você o que faz?—“Todos os meus
conhecidos têm sido campeões em tudo, eu.. ”estou na rua outra vez.19 anos é
tempo pra caralho.. foi neste quarto que comemoramos ontem um mês de convivência.
ela saia pra trabalhar do outro lado da rua onde aluga sua boceta por vinte
mangos. eu fiquei escrevendo esta porra e lendo coisas que não consegui ler na
cadeia, foi lá que comecei ler poesia. eram os livros mais finos e comecei
poraí, gostei tanto que não parei de ler e li tantos caras fudidos nesta vida; depois
deste impacto da poesia em mim senti que alguns poetas escreveram coisas pra
mim e pra todo cara que vazou pelo próprio rumo depois de levar porrada do pai
até os oito anos; viver na rua não pra qualquer um não, tem que ser da raça dos
vira-latas bem magrelos e fedidos com os eternos olhos remelentos e vazios de qualquer
esperança, senão morre logo. Quando saio pra me matar relembro coisas de minha
vida e penso nas poesias de caras que falando coisas deles, que também são
minhas. beck maravilhoso! Há um mês freqüento o Centro Cultural do antigo
Doi-Codi ...vi muita Verâneio Vascaina entrar e sair rasgando lá da boca do
predio. tudo mundo sabia o que acontecia ali dentro: era a parada da política. outro
ramo e, eles não se misturam com gente de minha espécie.. .gosto de dar meu
trampo, no Rush.. .os otários estão imersos em seu horários de escravos; que
ira determinar seu futuro de grande consumidor ,e, não se ligam que um senhor
elegante, baixo e, sempre com um livro nas mãos trabalha; como velhos tempos, desculpe
jovem! E o que tiver no bolso arrasto; e assim vou olhando minha cara de
covarde diante de tanta vida que vivi sempre fracassando em tudo que fiz.
comecei roubando na igreja; adorava comer aquelas taças de hóstia com groselha,
que delícia. Agora, sinto-me detido nesta urbanidade que não vi ficar
desfigurada. viajo em vagões que me levam a grandes concentrações de gente; que
circulam com aquela velocidade estúpida pra ter grana no fim do mês pra pagar contas.
porra que triste! Se você pode ficar alheio e chapado no meio da Estação da Luz
olhando tudo aquilo vai se ligar que tudo é como uma grande senzala social; é
uma aula que nenhuma universidade pode dar. Oi querida, como foi seu dia hoje? meu
,catei um cara que tinha uma rola deste tamanho, e abre suas mãos numa
distância de um palmo. porra me arrombou. ouço suas queixas e faço uma massagem
no seu corpo cansado do uso coletivo.na moral. depois me passa uma grana pro
meu passeio ali na Cracolândia onde busco uma maconha borracha. é muito louco
você ouvir dizer em bocas da ordem e do progresso, que você é o patrocinador de
toda esta escória humana infantil-adolescente que trombo enquanto vasculho o
traficante que conheço...os caras que abastecem esta porra toda estão em
coberturas e com ternos Dior com seus cabelos besuntados de gel; sorrindo em
corredores onde o Lobby da Máquina da Droga é ultra-facetado como esta
realidade jogada aos meus pés; pivetes de nove anos morrendo empunhando
saquinhos de cola e cachimbos de crack, são seus estandartes e ,que já tomaram
tanta porrada na vida que tanto faz eles estarem vivos ou mortos, eu me sentia
assim.. aí.aí quanto? Trinta! Valeu... nasci tão longe daqui que a única
lembrança que tenho com clareza de minha infância: é ver na minha frente aquela
estrada sem fim que iria acabar onde estavam construindo uma cidade inteira de uma
só vez. era o que falavam todos naquele caminhão com um pano grande igual ao da
jangada que ficou parada lá na praia de areia branquíssima ,onde eu meus seis
irmão corríamos livres... A cidade nasceu e cresceu e também eu .rodei num 551
nervoso. quando saí; sumi daquela cidade que revelou-se cinza e fria como o
concreto de suas formas que Galango nenhum entendia ;depois de dois anos em São
Paulo, rodei num 12 forte hein?. Foi um longo tempo olhando a vida por detrás de
grades e leis que junta iniciantes com grandes macacos velhos ,aí xará, é a lei
do cão e pra não morrer matei; como você mata faz a diferença, eu sei. ele
partiu pra cima com seu estilete em punho; com um movimento rápido ergui meu
braço direto e recebi o estilete que abriu uma perfuração fina e ardida
,dei-lhe um chute tão foda no saco, que ele ajoelhou-se e soltou o estilete
;agarrei-lhe a cabeça como se agarra a vida que você sente estar por um fio; e,
bati violentamente na lateral do vaso, que partiu-se em cacos; numa tesoura
prendi-lhe os braços e, com minha mão esquerda agarrei-lhe o pescoço numa
gravata para trás e, com a minha mão direta que sangrava; munido de um grande
caco de cerâmica do vaso partido, fui-lhe abrindo a face, e o tórax, abri lentamente
enquanto ele urrando numa dor descomunal cedia ,e ficava frouxo na minha teia ..ele gritava tanto que nem parecia aquele
cara que tentou me estuprar e, fui abrindo-lhe lateralmente também ,abri –lhe numa
curva do estômago ate sua virilha direita; ainda vi sua cara de terror quando
lhe cravei o teco de louca pontiaguada vazando-lhe o olho esquerdo, seu sangue
lavou o canto do boi sob os olhares antônitos de uma meia dúzia de caras.; depois
de corta-lhe as bolas e sua rola, enfiei tudo em sua boca aberta de lado a
lado, soltei-o. fiquei em pé com as tripas dele nas minhas mãos; todos olhavam
como eu devolvia tudo que passei em instituições e outras porras cheias de
padres querendo fazer a mesma coisa; tudo sob o aval de seu Deus. filhosdeumaputa!
Sentia seu sangue esvair-se num desenho surreal.. vermelho vivo sobre piso
cinza-cimento gasto; quando chegou a cavalaria, ele estava aberto como um
porco. Então, depois do tratamento especial que lhe dão. Aí, me jogaram naquela
escuridão gelada da solitária; perdi a noção de tempo; mesmo ouvindo os caras
falando pelo vaso pra que aguentasse mais ,pra que eu ficasse me exercitando
pra cansar e tentar dormir naquele miséro colchonte de papelão frio e
peçonhento. .foram noites, que jamais me abandonam. jamais! . sai dela com uma
pneumonia que deixou meus pulmões fudidos ate agora. Quando saí vivo daquela
porra de solitária.eu era olhado com ódio medo e respeito, o tempo passa lento e
eu me enfiava neste mundo dos livros fininhos; o Capelão vendo meu interesse
por livros me levou pra trabalhar com ele na organização de livros que
comporiam a primeira biblioteca numa cadeia pra presos perigosos como eu. começamos
organizando prateleiras e depois abrindo cada caixa doada e catalogando cada
livro um por códigos e uma numeração e todos pra sua prateleiras: religião, história,
matemática, bíblia pra caralho! Revistas de religião Católica Apostólica Romana
E toda a literatura de outras religiões. depois eram aquele livros fininhos que
eu pegava pra ler pra acabar rápido; o gosto pela poesia foi crescendo a cada
descoberta de novos poetas ,por vezes, sentia minha alma aquecida como as
manhãs de banho de sol, crescia.. .hoje é outra realidade: tudo é máquina
cibernética! Com muito celular, fácil demais pra abraçar. levo vários prum
chinês .todo mundo sabe.. ficam neste faz de conta.. então ;resolvi de vez
acabar com esta covarde e medíocre vida que arrasto perdido nesta sociedade que
não passa de um grande labirinto com a imensa maioria morrendo ali sem ver a
luz da saída, da existência. mas, hoje acabo com tudo e quero me matar como
antigamente. Saltei do metrô na Praça da Sé e, subi escadas falando sozinho
“Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas, os soldados que
perderam a batalha, parei pra tragar e continuei, as mães bem mães, as fêmeas
bem fêmeas ;os doidos bem doidos” sai na Praça do Patriarca do jeito que entrei
no Viaduto do Chá, dei uma pequena corrida apoiei minha mão direita na mureta e
saltei na cara da boca aberta do Túnel do Ademar .clovis de carvalho
CLAÚDIA
Putaquiupariu! Três da tarde e eu aqui sentado esperando meu tempo
se esgotar. tempo de olhar a vida como as velas destes barcos à minha frente; estacionados,
vazios e com fedor de peixe. cadê o Dimas? três e quinze. três e dezessete! chega!!
Minha paciência não pode vazão aos ensinamentos de Confúcio. fodase Confúncio! começo
a caminhar no Sentido Centro Comercial de Angra dos Reis; cidade com história legal,
não vou contar não; vai ler para saber! As ruas são estreitas e de paralelepípedos
frios como meu sangue que desfila suave nas minhas veias finas e cansadas. tomar
café num boteco é outra parada. volto Pra escadaria da Igreja. cadê o
filhodaputa do Dimas? bom, vamos es-perar. minha vida toda é uma fila que não
anda. por que não posso esperar mais uns quinze minutos? três e meia..
filhodaputa. três e meia. num repente começo a olhar a rua que desce da lateral
esquerda da Igreja; Tem um colégio ali; mas com cara de convento. que porra é esta?
começo a olhar e ver a paisagem exuberante que escorre do Portão do colégio; pivetas
grandes, bem grandes mesmo naquele uniforme de saias azul-marinho de dobrinhas,
meias brancas e camisas brancas. caralho, uma mais gostosa que a outra. dane-se
o Dimas. levanto e dou uma ajeitada na bermuda multicor revejo meus pés imundos
igual a minha vida e; saio na direção da porta do colégio. vou contra o fluxo
e, passando pelas colegiais meu pau começa a ficar meio duro; será que é esta
roupa que instiga meu subconsciente de adolescente de punheteiro com os
catecismos do Zéfiro. paro no boteco. café.. e fico como aqueles urubus velhos
que perderam o comando do grupo e; ficam ali pairando no ar sobre a carniça; enquanto,
os mais jovens e fortes despedaçam o cadáver e o devoram. começo caminhar de
volta pra escadaria e, vou passando por elas no meio da rua; esbarro aqui; desculpe
meu bem. esbarro ali; perdão, minha linda.na escadaria fico sentado de costas
pra casa de Deus, quem sabe ele assim não vê o que estou fazendo. olhando o emaranhado
de barcos à minha frente todos naquela dança que vem coisa poraí; ou é só
barcos grandes desembarcando ou embarcando Criando aqueles saculejos e, os
barcos ancorados ao lado uns dos outros, se tocam como um ranger de dentes.. .
oi moço, esta voz aveludada que jamais vou esquecer tirou-me do meu devaneio e,
Continuou falando; ..você pode olhar isto—e mostrou seus dois livros e um
caderno e uma mochila—aqui pra mim, que vou ali do outro lado da pista pegar
uma lata de óleo no posto? Rapaz! Deus existe. ah. se existe. depois, fiquei
sabendo que tinha quase vinte; me vendo sentado ali com cara de pastel; veio me
inquirir se poderia deixar suas coisas—dois livros e um caderno e sua
mochila—sobre meus olhares, enquanto iria buscar uma lata de óleo vazia no
posto pra fazer seu trabalho de artes...e, pode deixar que olho e, olhei mesmo quando
ela curvou-se pra colocar seus pertences ao lado de meus pés descalços e
imundos e, vi aqueles peitinhos durinhos de biquinhos foscos igual vidro
leitoso; depositou tudo aos meus pés e começou à atravessar a pista; Meu Deus!
.senti o balanço daquelas nádegas duríssimas no mesmo ritmo dos barcos
ancorados a minha frente. que coisa enlouquecedora!. devia ser proibido
mulheres perfeitas de sainhas atravessar as ruas e pistas correndo: que
espetáculo revelador; a sincronia da beleza; o ápice do tesão é uma deliciosa
atravessando a rua dando aquela corridinha. Aqueles pulinhos... Meu Deus! fiquei
ali, estático, olhando ela pedir a lata de óleo pro cara do posto; que também
olhou com carinho pros seus peitinhos durinhos como ovos cozidos. branquinhos
branquinhos. pronto! voltou e começou a recolher suas coisas ao lado dos meus
pés.., meu instinto de tarado entra em ação; retiro meus óculos escuros e, como
se o desdém fosse obra minha, mando: vai fazer o que com esta lata? Olho as
pernas dela no maior desbaratino e; vejo seus pelinhos clarinhos numa fieira
joelho acima e, as pernas tão lisinhas que dá vontade de chorar pôr não poder
meter a mãos; meu pau exige que eu faça um inquérito e, segure ela ali ao meu
lado. Ah. a lata de óleo; e que vou fazer? ou melhor tentar fazer uma
luminária, pra ver se pego uma nota com a Professora de Artes, que é um pé no
saco. e pediu que a gente use coisas do lixo. bom, meu pau exige que me
pronuncie: eu trabalho com lixo, sabe, é só olhar pra mim e vai perceber que
sou parte deste lixo humano que trafêga com a vida cheia de avessos e a merda
toda. Olha você pega a lata e, peguei a lata da mão dela sem nenhuma resistência
e, claro. toquei de leve na seda que é a pele dela; como é teu nome: Cláudia!. Humberto,
a disposição...meu pau exige que eu seja gentil, educado e canalha o suficiente
pra não deixar esta delicia cremosa ir embora sem mais nem menos...olha, você
pega um abri-dor de latas e retira esta tampa aqui e, ela roça aquele bracinho de
maravilhoso de ninfa; no meu braço gasto, fino e queimado do sol e; Aí você
pega um martelo e bate estas rebarbas que vão ficar aqui, e; tocamos pontinhas
de dedos e; aí coroa, sabe; quando você tá doidão beijando aquela putinha perto
da rodoviária e, depois.. descobre que não era putinha, era um quase ela..
porra: foi assim que olhei pra cara do Dimas; que chegou e viu a cena ali na cara
dele e não acreditou. Tá tudo certo?? perguntei. e pelo meu tom de voz sentiu
que tinha que ir me esperar na lancha. este moleque trabalha comigo, fui
falando e olhando nos olhos dela, enquanto o Dimas seguia triste e sem ação pra
lancha. cinco minutos e já vou Falo como se mandasse qualquer porra; ele olha
pra trás, pra confirmar a cena que vê na escadaria e diz querendo ser cúmplice:
Peguei cinquenta dubom! arremato para o nosso bom entendimento: Legal, vamos
arrebentar no caminho de volta. no mar. Ela ,olha pra minha cara e sei que
entende do que falo, ri cúmplice, e aguarda minha explicação; você mora onde
ela pergunta num repente; na Ilha Grande. é mesmo? é sim. nossa Que legal, eu
sou nova aqui em Angra e não conheço, ainda, a Ilha Grande. pronto tá feito a
mandinga; meu pau exige que eu seja educa-do, cortês, anfitrião e tarado. Olha,
Cláudia, sabe o que você pode fazer: Meus olhos vão direito pros seios
duríssimos dela sem sutiã. Ah! uniforme enlouquecedor. você pode pegar a balsa
na sexta de manhã. amanhã. e ir lá pra Ilha ,assim; eu te mostro(meu pau duro, meu
pau duro)meus trabalhos e te ensino você fazer esta luminária e; olha ( em que
anfitrião espetacular me transformo) na Casa que moro tem lugar pra ficar.. que
naturalidade. Canalha.. Ela fica encantada com meu exagero de desprendimento e solicitude.
Ah. eu vou sim; perco o sentido da razão e fico imaginado esta deliciosa em Trajes
sumários andando dentro de casa. Meus Deus! E, continuo minhas explanações
sobre como a lata deve ser aberta, furada e a porra toda e, tocando suavemente
naquele bracinho imaculado. ficamos em pé; antes dou aquela caidinha de cabeça
pra frente tão manjada que não pensei em nada, só vi: aquela fieirinha de
pelinhos clarinhos subindo de suas coxas carnudas seguindo pra sua (imagino)
bucetinha maravilhosa; e vejo o que realmente é aquela piveta: Capa de
Revista!! Volto ao normal tentando ser o mais casual possível, tá feito então; amanhã
fico lá no cais te esperando na balsa da manhã. Ela pega a lata de óleo de
minha mão com uma suave delicadeza que fico trêmulo e, me olha com aquele olhar
de demônio que sabe que acende um inferno por onde passa; meu olhar de triunfo
é o mesmo de César ao saber que vai tascar a Cleópatra.. você disse que Tem
lugar pra fica na sua casa? nem respondo, meneio a cabeça como se o elmo
estivesse meio apertado e, com o sorriso dos canalhas estampado na cara quando
sabe que todas as exigências do teu pau serão Cumpridas. Vou levar meu
namorado! Você não tá ligado, na dor que é um mastro virar no meio de um
sudoeste e pegar na sua testa; foi mais ou menos isto que senti. gaguejei, sorri,
e disse que sim e; que estava tudo certo. pode levar ele(que afogo este
filhodaputa no rasinho) que tem lugar. Ela vem assim como aquela rajada de
vento que muda tua direção, mesmo você segurando o leme com as duas mãos e os
joelhos e, manda um beijo na minha cara com o maior respeito. Judas De saia. toquei
de leve nas costas dela, inefável! E saiu olhando pra trás, antes de eu
desmoronar no chão com um ataque de pressão alta, e disse sorrindo
magnificamente: até amanhã Humberto. meu pau exigia retratação. que esculacho. saí
andando em direção a lancha e, senti aquela colinha grudando na bermuda; na
lancha o Dimas olhou pra minha cara de desgosto e ódio e disse: qual é coroa? não
respondi nada e fiz uma cara de: amanhã tem mais.. ,liga esta porra aí e
vaõbora. o mar e toda aquela paisagem de Angra pra Ilha Grande numa voadeira Fumando
uma bomba me deixa relaxado e Zen, mas meu pau exige retratação. Que gostosa
esta Claúdia. Clovis de Carvalho
Vagabundo que é vagabundo já vem de berço
Minha mãe deixava eu—dois anos—e meu irmão - um ano—dentro do
berço e, ia cuidar de sua vida que não era fácil; cuidar de dois pirralhos, cuidar
da casa e lavar roupa pra fora pra gente ter mais o que comer. Não demo-morava muito meu irmão estava abrindo a boca; minha mamadeira caia
pra fora do berço eu nem tentava em me preocupar em pegar, já metia a mão na
mamadeira do meu irmão, vacilou já era. Minha mãe que conta esta parada, como
poderia eu me recordar de uma coisa destas?. Mas, o vagabundo nato tem seu
estilo próprio e natural e, começa a desenvolver as suas habilidades nesta vida
de cada dia; o vagabundo que é vagabundo é o cara que não dorme no ponto, ele, pensa
e vê parada pronta na sua frente antes de agir, mas não é aproveitador da
fraqueza humana só se agiliza porque tem a raça de vagabundo. Quando eu tomava
a mamadeira do Rato, este é o apelido do meu irmão; não era por maldade ou porque
eu era um pouco maior, é que meu instinto de bebê vagabundo dizia-me: eu tomo a
dele e minha mãe ouve o cara berrando vem e pega a minha mamadeira que caiu
fora do berço eu não queria ficar me matando tentando pegar a minha mamadeira, enfiando
a mão nas grades do berço. Eu enfiei a mão várias vezes em outras grades. grandes
delitos: brigas, vadiagem e muitas bebedeiras. Então o tempo vai passando enquanto
você fica olhando a bunda da vizinha no tanque; e tudo vai se transformando com
velocidade de bala perdida e, se você não esta ligeiro: Paft! na testa...
Quando eu era um rapaz foi a fase de passar de vagabundo amador pra vagabundo
profissional; é uma fase difícil porque todo mundo já esta ligado no teu
movimento e, sabe que você anda na sombra pra não se queimar; a parada fica
entrucada. dividida e; é aí que se decide na vida o que vai querer ser; é só
escolher: seguir o que tua família te passou e seguir dentro de tantas regras e
normas que a sociedade exige que se você der um peido mais alto e fedorento tem
que explicar o que comeu; ou escolher o estilo das ruas. puta escola. Mas, ser
vagabundo original não é escolha tua, a porra nasce contigo e; tive as duas
oportunidades e fiz das duas uma; tenho família mas sou vagabundo. Aos poucos
você vai descobrindo como é o amadorismo e, quanto mais longe dele você fica, mas
você sente e vê a competição alucinada pra galgar os grandes sonhos que estão
prontos pra você e te empurram: ser isto ou aquilo e pra isto você tem que se
foder e suar sangue, literalmente, ainda mais quando você é da periferia , da
quebrada, da favela. Ouve até a exaustão que pra ser uma pessoa de bem tem que
se sujeitar a tudo e a todos que estão no topo; que uma pessoa de bem tem que crer
num Deus que nunca viu e nem sei como é. Você ouve estas coisas desde que chuta
a primeira bola. porra, pra mim não deu pra ser uma pessoa de bem. Mas, chega o
tempo de mostrar que se profissionalizou na tua opção maior e vai tocando de
prima e no chão. E não é pra qualquer otário, tem que se impor, e na agilidade
cerebral, no drible da vaca, e muitas vezes na porrada e, claro que um oitão na
mão facilita muita coisa.; porque sempre vai ter aquela torcida adversária que
atira pedras em você ou fica esperando você dar de canela, uma bola espirrada, uma
falta mais feia; o tempo continua passando como aquela bala perdida e, aí o
vagabundo profissional sente tua incompatibilidade com todo o sistema familiar,
social e o caralho à quatro. E comigo não foi diferente eu me lançava na roda e
ficava ali sambando de Mestre-Sala, na moralíssima, respeito é bom e conversa
os dentes e, você tem que dizer a que veio...Claro quando você se
profissionaliza tudo mais é incompatível na tua vida, mas, pra Todo este
sistema montado você tem que fazer tua parte, tem que ser feita, foda-se a minha
parte: eu tive vinte e três registros em carteira profissional em dez anos de trabalho,
entretanto: seguia por Vezes no fio da navalha entre ser vagabundo profissional
e cair de vez na malandragem; por que aí é outra estância e como a malandragem
demais engole o malandro; eu optei por ser vagabundo profissional e, dava meus
pulos aqui e ali pra ir vendo O sol nascer de minha janela. Eu era
universitário e centroavante do time da favela, freqüentava o Teatro Municipal
–que no meu tempo, as segundas-feiras era de graça—E, desfilava na Primeira do
Itaim Paulista ,e cheguei a ir numa –farra—posse do Governador Paulo Egydio
;namorei uma sobrinha de uma artista mais ou menos famosa e fodia muito com a
Lena que saia na minha querida Xurupita, era o apelido da Primeira do Itaim
Paulista, inúmeras vezes acordei sob marquises, no 69 ou na praça da Sé. Claro,
chega um tempo que teu estilo começa a incomodar, porque você Vai tocando de
prima ,toma uma entrada mais dura, cai levanta e parte pro teu jogo; você esta
administrando tua essência, evidente, que todo vagabundo profissional tem sua
original essência e não fere ninguém com ela; a torcida adversária sabe que
você joga pra valer e vai abrindo seu próprio caminho no rumo de ser um pouco
mais livre, isto, transforma você num num cara habilidoso; e gritam: pau nele! pau
nele! Aí tua essência de vagabundo profissional faz a diferença, você
administra sua natureza e faz dela sua aliada; nada é fácil. nada é de graça; porque
no mesmo time que você joga tem sempre aqueles que jogam uma bolinha assim ô e,
se acham o Pelê; mas, aí você pode mudar de time e jogar contra eles. No tempo
que a Bonnie e o Clayde governaram o Brasil e toda a Esfarrapeira era visível a milhas de distância; meu filho
nascia; sem trampo, sem amigos importantes nem galinhas no quintal—grande
Belchior—é aí que você tem que mostrar que Que se profissionalizou na
vagabundagem e seguir pelo atalho da humildade pra sobreviver sem dar arrego
pra filhodaputa nenhum.eu fui vender limões nas mesmas feirasLivres que minha
mãe trabalhou a vida inteira até se aposentar como feirante pra criar três filhos e um profissional na vagabundagem .Era um rolê nervoso, saco
de limões nas costas do Mercadão até a Sé, aí outro busão ate o Aeroporto de
Congonhas. pagava as contas, botava comida na mesa e que felicidade : não devia
favor pra puto nenhum. Mãe é mãe e Esta sempre ligada quando você desentoa do
resto da prole e, sente por este desgarrado uma certa predilação, meu irmão e
minhas duas irmãs sempre sacaram isto ,mas nunca deixaram De me ajudar sempre que a coisa ficava encardida pro meu lado. É
nestes interlúdios que o vagabundo profissional tem que ter atitude e não cair
do fio da navalha e; quando bicho pega pro teu lado tem que segurar o B.O. e,
sair no gás atrás do prejuízo; por que também é aquela bola perdida que você
corre atrás e sente que não vão vai dar pra pegar, mas você esta jogando pro
time e se mata por aquela bola que saiu... Mas, eu tinha dois atributos que
vários vagabundos profissionais não nascem com eles: o amor pela arte e pelos
livros e, minha alma pertence aos dois. Era uma coisa muito louca; eu saia do
Itaim Paulista, Jardim Camargo Novo e, quando eu passava em frente o boteco que frequentava com mais assiduidade, num domingo à tarde os caras me chamavam
pra tomar uma e perguntavam onde eu ia com aqueles livros na mão; vou numa
Vernissage lá no Masp. que porra é esta? era o que ouvia deles. Vou ver telas, quadros
e uma bucetaiada que cola por lá .Bom, aí era outra coisa, só a bucetaiada
valia a pena ,agora esta porra de
Vernissage ..E era sempre assim os caras perguntado o que eu fazia
com tantos livros. Você troca estes livros por birita? Eu tive que passar muita
parafina Pra não escorregar do fio...Tem que ser na maciota, não pode ofender o
cara que não tem opção de porra nenhuma nas quebradas; é tv. e boteco e a tarde
babando na frente dos filhos e da mulher diante desta porra ofuscante. E foi
assim que meu profissionalismo na vagabundagem cultural meu levou várias tardes
da minha quebrada pro centro da cidade Em viagens de leitura e sempre vendo a
paisagem urbana em mudança. Mas o tempo, continua sempre dilacerante e largando tudo para trás como a
primeira que você toma de manhã pra parar de tremer. Por vezes, o vagabundo
perde o senso e foge da realidade e, se transforma numa pintura de Chagall e viaja.
E, eu viajei num alcoolismo que durou quase vinte anos; mas, o que é do homem o
bicho não come e, sempre na minha e quando tive que mostrar a sola da chuteira:
mostrei com força e decisão e ninguém na minha quebrada embaçou na minha porque
sempre respeitei quem me respeitou.. Mas, chegou o dia de bater aquele pênalti.
viver ou morrer!! Viver meu chapa e; segurei com força nas mãos da mesma família
que viu brotar esta coisa que nasceu comigo e suportaram minha opção de se profissionalizar
na vagabundagem ,porque sabiam que a essência é uma coisa sua, nasce contigo e
nem o alcoolismo esmaga ela. A vagabundagem esta na alma de quem ama a vida dentro
de uma loucura sem dimensão e, com uma densidade pertubadora para as pessoas que
seguiram só as regras do caminho que interessa aos que dominam e, num momento
de redenção e reencontro todos nos saímos feridos deste jogo duro, mas com a
vida e o espírito fortalecido pelo placar vencedor da unidade entre eu e minha
família. Hoje, estou aos cinqüenta e dois do primeiro tempo foi um jogo
conturbado; quem diria, aquela torcida adversária que ficava na beira do campo
gritando ;que eu não passaria dos vinte e cinco minutos ficou desnorteada com
minha reação. Quem sabe eu não suporto mais uns vinte minutos do segundo tempo.... Clovis de Carvalho
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