segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Sutileza Mórbida da Convivência

O que existe dentro do cotidiano que não é digerido com o olhar perdido da rotina? Por vezes, Asdrúbal se questionava no caminho para o trabalho; sobre a possibilidade (cada vez mais próxima) de largar tudo e sair pelo mundo—pelo mundo como tanta gente faz! Mas, pensava: não é tanta gente assim e, seguia seu caminho para o trabalho; cumprimentava um e outro e vê que todos os bons-dias serão sonoros e acompanhados de sorrisos que poderão ser metafísicos e decorados como a tabuada:7x5=35! Bom dia! 4x3=12! Bom Dia! . Ninguém esquece, mas, temos o artifício dos dedos E assim são os bons-dias—os olhos denunciarão quando o bom-dia só cumpriu a  educação formal. E assim. Asdrúbal chegará ao seu trabalho: um prédio com tecnologia avançada e muitos tramites para entrar. Os porteiros, sim, isso mesmo, os porteiros ficarão ali todo santo e, Asdrúbal trabalhará no sexto andar no setor gráfico. E o operador de xérox a laser mais capacitado que a empresa tem até o momento—sempre virá alguém para substituir o melhor—entretanto, se por acaso, um destes acasos que acontecem nas manhãs de tédio ou de imensa alegria, aquela alegria inútil de olhar o sol pela janela e; acreditará que o dia será lindo. Ah! Metrô insuportável! .Assim, se Asdrúbal se esquecer do crachá, os porteiros, amigos de fim de expediente e confissões ao pé do balcão, no botequim que insiste em sobreviver no alvoroço da especulação imobiliária desta cidade. Ah! .estaria frito. Crachá eletrônico! .Catracas que liberam o funcionário ao trabalho que lhe foi” concedido” por concurso público.—crachá! Esqueci...Os olhos dos amigos após as dezoito horas serão de indignação. As câmeras denunciarão os afetos, os sorrisos afáveis.., esqueci....Você vai ter que preencher os formulários ,e o porteiro chefe será acionado: O que houve?—Esqueci o crachá! .A formalidade do amigo após as dezoito horas será notável e registrada pela câmera central—você sabe que só tem três tolerâncias por mês, esta é a última! Queira passar! Vem comigo. Enquanto o fluxo de funcionários observará Asdrúbal se submetido ao vexame de ser acompanhado pelo chefe dos porteiros—amigos após as dezoito horas—pelo corredor onde entrarão numa sala com câmeras e ali será lavrado um formulário de autorização ao seu local” concedido” para o trabalho de oito horas. Entre os dentes, o porteiro chefe sussurrará: porra coloca esta merda no pescoço, de cabeça baixa, é claro. Asdrúbal imaginará tudo naquela sala.. Olhará o formulário e irá colocando—assinalando—X nos quadrinhos. As câmeras são cascavéis dando botes sincronizados—nada escapará! .Na saída da sala, o porteiro chefe—amigo após as dezoito horas—comentará sobre o jogo de sábado e, Asdrúbal falará qualquer coisa e, seguirá para o seu andar, agora estará devidamente autorizado liberado a suar oito horas em suas máquinas de xérox de última a geração. Bom Dia!(6x3=18) será parceiro de trabalho, como na cadeia: parceiros! Bom Dia!(9x7=63).Já sei.. esqueceu o crachá, ligaram aqui pro Seu Lewis pra autorizar você.., É...dentro da sala com máquinas off-set e outras de xérox a laser Martinos e Asdrúbal,serão observados pelo Seu Lewis dentro do aquário com vidro claro e transparente, tendo uma tira de insulfilme fume de cinqüenta centímetros que divide o vidro branco e, porali Seu Lewis observará tudo. O que foi agora? Martinos é um operador prático e sistemático com seu trabalho e, tem uma admiração platônica por Asdrúbal. Esqueci! Só isto: esqueci. As máquinas serão acionadas e quase não farão ruídos; de costas pro aquário Asdrúbal e Martinos trabalharão e conversarão e irão se tolerar...você viu o jornal ontem Asdrúbal?—Não!—Você precisava ter visto. Em São Paulo estão comendo cachorros. E, as máquinas serão precisas com seu trabalho programado por micro-processadores e, enquanto as máquinas vomitam folhas e mais folhas, Asdrúbal ouvirá Martinos destrinchando teses sobre tudo: você viu a nova chuteira do Ronaldinho Gaúcho? Tem um chip no cravo e vai a imagem do pé dele via satélite; voce precisava ver a gostosa lá do Irã que fez um filme sobre a vida dos camêlos e...Asdrúbal olhará o parceiro e emitirá Uns grunhidos como se estivesse com cólicas. E, saberá que lá do aquário serão observados Pelo Seu Lewis. Meio-Dia! O mundo recomeçará para Asdrúbal que sairá para a rua e ,seus olhos necessitarão de óculos escuros, a luminosidade do sol será abrupta. Depois passará pela portaria e ouvirá um tudo bem do porteiro chefe—amigos após as dezoito horas—Irá jogar-se-á num banco de praça e ficará a deriva: quantos anos pra resolver o que não resolvo;  pergunta-se-á: Qual a segurança que tenho neste emprego? Aposentar e ficar num banco de praça jogando dominó? E assim, dentro do tempo que lhe restará para voltar para a sala das máquinas e, ouvirá Martinos com suas teses e conclusões. Asdrúbal permanecerá tão longe de tudo o que lhe é próximo que não notará que Seu Lewis e o Gerente de operações estarão lhe observando no sexto andar. Quando Asdrúbal entra com a mão no bolso par tirar o cartão eletrônico que lhe permitirá atravessar a catraca do metrô: Meu Deus! Cadê meu crachá?? Clovis de Carvalho


Merdinha

O quarto de hotel na cara da rodoviária denunciava em que situação esta quem ali hospeda-se. a mala era uma mochila azul. aquele azul de felicidade que quando você é um merdinha e, olha o céu azul da manhã e nada é mais lindo. praticar o pôr-do-sol e chorar ainda é um ato livre e solitário que me ensina ir vivendo com minha fudida alma.um dia destes li num livro que o céu do sertão do Guimarães Rosa é tão estrelado que parece uma casa sempre acesa pruma baita festa. mas o que é um pôr-de-sol? é uma beleza sem explicação que toma voce..encosto num pé de viaduto que é um lugar dos mais tranqüilos estas horas da tardezinha. ali. o sol vai afundando e cai de vez lá no fundo de prédios que não tem fim. A cidade fica tão linda esta hora. parece uma festa, sabe; gente pra cá gente pra lá e todos fora do compasso da dança. todos perdidos numa velocidade sem nexo. vidas que não deixam sombras nem num espelho. e quando se é um merdinha você vê aquele céu lindo. tudo é perfeito. depois; todo cara que não aceita as direções autoritárias da montagem de todas as cenas trágicas-cômicas cotidianas que chamamos de sociedade. então ele é um fracassado, um fudido.um zero.. A água do chuveiro é um bálsamo que abriga um ser que refestela-se na vida simples; do agrado do mato; da brisa das roças de milho e mandioca que plantei. da noite que ouve o sussurro do vento.. e da dor que remoi a memória como o nervo de um dente que dói numa chuvosa e fria noite. Por fim, calço aquelas gastas sandálias que parecem de índios dos distantes planaltos. na rua o olfato humano escorre em calhas dentro do vão que as pessoas criam no trajeto sobre as calçadas. uns vão com a tristeza da morte; outros em sentido contrário caminham com o peso dos afazeres; dos desmandos; dos acasos insondáveis desta vida e Deus para consolar à todos. o ar que canaliza-se entre estes vãos humanos criam uma zona de olfato muito diversificada e rica. caminho pelo vazio desta existência sem existir. não busco nada. existo. Por vezes, caminho sozinho pelas ruas da cidade que me segura como um filho no atravessar da rua. e sinto nas expressões futigadas de tanta gente uma desesperança, uma dor forte que nos arremessa pro mundo. assim: é minha solidão. e na noite que nutre nossos diabos que nos invadem como as de muitas almas num fogo dos infernos de Dante. Percebo seu olhar como se questionasse a imensidão do céu que alaranjazulou-se e confeccionou o painel mais lindo do dia. ele me mostra suas coisas, sua casa: coisas amontoadas de um lado coisas amontoadas de outro lado. o viaduto é o teto. carrinho estacionado na porta da pocilga entre três vira-latas que rosnam a quem chega perto. sem autorização é um perigo. digo-lhe que estou no hotel da frente. torce sua feição e diz que ali é melhor. chamo prum café.me diz se procuro trabalho. só no comércio e pros judeus. quando se é um merdinha daqueles em dias felizes com os irmãos e os pais num parque. não poderia entender o odor que saculeja todo meu olfato.. as morenas tem algo de diabólico. Cruzam roçando no meu corpo ,estão tão alucinadas de sonhos e pressa que não sentem meu olhar.de posse.de luxuria total. a voraz vida que se arrasta diante desta rotina caquética que nos ilude com um futuro que não virá, porque o que você vive é teu futuro. ele ouve e olha o ceú num novo alaranjazulou de arder a vista num fundo de mar .eu beberia formal pra comemorar. digo que preciso ir. e vou por onde sempre fui: a lugar nenhum sempre dando voltas como um cão que perdeu seu dono e agora só tem os becos ,as vielas ,as pontes e os viadutos e vez ou outra um hotel de quinta; quando você caminha nas ruas de qualquer grande metrópole é uniforme esta velocidade; gente com papéis numa das mãos e arrastando a outra mão como um rastelo nervoso pelos cabelos; gente que não olha as reentrâncias nos imensos edifícios onde os pardais e pombos ficam imóveis nos observando. as ruas desta cidade são grandes bocarras que masgam toda esta gente como se fosse um naco de fumo e, depois, as cospem fora suas almas negras como a baba do fumo escorrendo pela boca; as marcas de toda desesperança que vejo estão refletidas em mim como uma máscara num manequin destes que uma vitrine qualquer anuncia uma liquidação. a grande desurbanização que é esta cidade; inspira um olhar de grande instalação que afeta nossas mais primitivas aflições e emoções num grande redemoinho de imagens que nos desmontam como expectadores para uma grande arte que não afeta o nosso entendimento. caminho como um destes livros velhos que mesmo jogado na rua ninguém apanha. as pessoas estão realmente na era cibernética .quando volto pro hotel, vejo que o cara do pôr-de-sol esta nas ruas com seu carrinho e o séqüito de três vira-latas num trabalho relegado aos marginais, os excluídos de tudo. da janela do hotel visualizo o oceano de prédios que naufragam num cinza cor de pele de rato e, os únicos que tem um pouco de paz neste caos que se estabelece como premissa de viver num lugar destes; são os vadios e mendigos que estacionam suas dores em qualquer lugar e emergem para dentro de suas desgraçadas vidas. arrumo minha mochila cor de felicidade e desço para me despedir do cara do pôr-do-sol. falamos coisas do dia que passou tomamos um café numa espelunca e digo que já estou de partida. vai pra onde? ele me pergunta como se eu pudesse arrastá-lo dali mesmo se fosse a fórceps. fico mudo e ele compreende que seus vira-latas estão melhor que eu.de repente apanha um livro de sua tralha e me entrega sem dizer nada.um Olhai os Lírios do Campo com capa dura.adeus.adeus.... Clovis de Carvalho


Véinho

O Bom, eu estava convidado pra festa de mano, liberdade xará. Já largou uma dinamite na minha mão e, começou a destrinchar sua lábia ágil e cheia de requebros. aí veinho, fica a vontes poraí, se quiser tem pra cheirar? não. tou suave! vou só de beck.. .é pode crer! fica a vontes e, saiu pro meio do povo na frente de seu barraco. sua biqueira é na frente da vala que já foi um puta córrego que nadei na minha infância; que foi bem louca. aqui por onde escorre a vala ,existe agora uma favela de barracos pintados pelo Kassab, pra dar aquela impressão maravilhosa de felicidade com as cores que o Ruy Othake emprestou da mãe e, ficou aquele Naïf ao vivo de descaso e miséria colorida ao lado da vala fedorenta e, que; vai cuspir no Tiête toda esta carniça deslizando ao nosso lado. maluco, tá uma cheiração do caralho. Pivetas começam à chegar num frisson alucinante de noitada, agora: balada! O funk começa a explodir dentro da favela anunciando um terremoto de lascívia e desejos nos saculejos sexuais das pivetas. aí veinho, cola na banca. colei. então: como é que ta a festa? porra, muito louca maluco! Você ver uma festa funk na TV é uma parada, você dentro de uma festa funk numa biqueira é outra coisa, maluco o barato é louco!!comé aí veinho; uma mesa forrada de rango: batata frita, cachorro-quente e refri pra molecada e um churrasco com meia banda de boi pra ir comendo com pão.. então veinho, se joga, as minas aqui é tudo é nosso. e, me servi de refrigerante. Num bebe não veinho? não. e saiu pra receber uma galera de outra quebrada. convidados de honra. manos da outra quebrada que adiantou o lado do mano pra sair fora na fuga organizada com sua gente. envolvimentos ta ligado.. eu já estava doidão pra caralho, aquela cheiração, o funk comendo solto :uuiiuu levanta sua bucetinha e senta o cuzinho no meu caralho uiiuiuu.. e porái vai indo a coisa. como não conheço quase ninguém, fico de canto fumando meu torpedo; vendo e ouvindo coisas deste mundo que parece um filme daqueles que você usa aqueles óculos tridimensionais pra ver está realidade que nasce no descaso geral que existe em toda periferia do País.. volto pro funk e; olhando as pivetas estremecendo o ambiente do lugar num remelexo tão demoníaco que só não fica de pau duro quem não gosta, maluco tinha uma loirinha funkiando com um neguinho, mano. Kama Sutra é gibi do Tio Patinhas(lê aí minha gíria arcaica),maluco o neguinho ia pra cima da loirinha e numa gingada de seus descendentes que sofreram pra caralho na mãos dos religiosos brancos com sotaque estranho ..bom: o neguinho entrava dentro da loirinha e saia do outro lado numa fúria de planta carnívora, caralho. salve :sexo drogas e funk! Desculpa aí Marvin Gaye .. Meu ,inacreditável aquelas pivetas chacoalhando o rabo como um guiso de cascavel encurralada. meu torpedo naufragou.eu doidaço!. aí, veinho, cola aí na banca.colei.me apresentou pra rapaziada convidada de honra e disse na cara deles que eu era uma cara ponta, e que dei a maior força pra ele, sem que ele pedisse nada, aí maluco ,o veinho é sangue. cola cumnóis aqui na quebrada.vi que me olharam como um das antigas, é assim que definem qualquer cara que correu fora da grande engrenagem e ainda está por si e solto na vida.. vai.. .não só fumo! quando colei pela primeira vez nesta biqueira, meu camarada, patrono da festa, não me serviu. depois de ser apresentado por dois pivetes que fumam comigo numa praça, ele, meu camarada disse-me: aí veínho, pensei que fosse um verme da Civil. porra, qual que é meu? ..começamos a nós encontrar duas vezes por semana. duas. três.. quatro.. que bagulho bom meu chapa! Num dia destes que aqueles remorsos invadem sua alma na calada da madrugada caminhado com você e sua carga de dores fundas que marcam sua cara numa máscara derretida que vai soltando pedaços como os relógios de Dali, enquanto o fogo da memória vai avançando com sua língua mortal. Estava passando na margem da vala calçada pelo Kassab com aqueles tijolinhos de cimento de cores cinza, branco e terracota, super- faturados é claro, pra que todos possam correr nas manhãs ao lado da fedorenta vala. passei pela biqueira que estava vazia estas horas. aí veinho! ouvi sua voz que saia detrás de uma cerca tão fudida caindo os pedaços mesmo. cola aí.colei.me passou o beck e falou: com barba ou sem você tem o naipe dos vermes da Civil. vai fundo aí! Enchi a boca de fumaça e não respondi nada. Dei mais uma longa puxada e quando devolvi- lhe o beck perguntei: tão na tua aba? Porra.. tenho que acertar hoje até ás seis, senão fodeu! Falta quinhentos contos! me devolveu o beck. falou tossindo. traguei. prendi e ahh! Quanto falta? quinhentos! tenho dois e meio na goma. meus olhos dilatados cruzam suas retinas e senti que todo aquele ódio que vi porali era o suficiente pra expurgar todos os vermes da Civil de uma só vez. ficamos ali, enquanto eu estava engolindo minha dor com uma grande dose de drama e angústias. o cara do meu lado estava pra ir pra cadeia; senão acertasse sua dívida com os caras que são pagos com tua grana pra te proteger de toda malandragem patrocinado pelos grandes corruptos que deitam e rolam na sopa que é a Grande Parada da droga. Olhando o portão que poderia estar no MoMA se fosse criado por um destes artistas das classes dominantes eternamente deitados em berço esplêndido; explicando sua criação numa linguagem tão escabrosa e com uma mixórdia de pensamento burguês do caralho, ofilhodaputa nunca passou nem perto de uma favela e quer exibir sua genialidade sobre conceitos de arte sociológica... .Meu Deus! aí veinho, era meu camarada me devolvendo a grangrena desta realidade social que pra quem domina é necessário saber que tudo continua lá como sempre foi, segregação total e agora, tudo pintado! vou nesta e; segui meu passo lento e arrastado. comecei: olhando a vala e me vi com aquela molecada nadando ali, e, nem imaginava que aquela farra na água do riozinho era felicidade! meus demônios estavam todos loucos como eu e estavam dando uma festa. Continuei errando pela margem da vala subi numa viela e segurando minha balinha prateada de papel alumínio. meu tesouro! bom ,se o ratos da Lei te pegam com uma porrinha destas armam um script de horror e, eles são Fred Grugger e a caricatura que um porra dos Estados Unidos transformou uma imagem alucinante de Munch. meu predileto dele e uma figura vestida de negro sentada na beira de uma praia de pescadores com aquele olhar tão vazio e perdido, um olhar sem esperança como o meu.eu já tinha fumado com meu camarada dentro da goma dele, conhecia seus três pivetes e sua esposa. Tinha tomado café e mandado bolo de fubá e nesta foi uns quatro beck numa conversa aberta e franca sobre a merda da vida de todos nós ..tudo ali na frente da vala, das crianças e de Deus que se diverte com tudo isto. só pode meu! todos tem sonhos e ninguém quer ficar nesta porra de beira de vala; quando chove legal. enchente geral. putaquiupariu! mas, vai pra onde? vai ficando e tentando se resolver pelo outro lado que não adianta nada só atrasa ;enquanto todos da ordem e dos bons costumes; e que cheiram pra dedel vão mantendo a Parada do Narco-Tráfico com tentáculos de vício e morte em benefício de seus carros importados, mansões holywoodianas, castelos e a porra toda de luxo; que o poder de sua nomenclatura vai anunciando uma imunidade diante de suas pegadas de corrupção alastrando-se em todo o processo desta Justiça que só existe pra pobre, negro e outros fudidos. Já pensou se o Nelson Dantas resolve falar a verdade sobre sua grande rabiola de amigos e quem são cada um dos fiapinhos de plástico que lhe sustenta no ar ..maluco! umas três da tarde, desci pra beira da vala e trombei meu camarada. Aí véinho. aí meu.me arrastou até seu barraco e foi dizendo que estava tudo em cima .a grana estava na mão era só esperar aqueles vermes da Civil colar e acertar a treta. vou ter que sair do ar por uns tempos ,senão os caras só vem morder, mas os meninos vão ficar servindo poraqui. fumamos um olhando a agitação da favela. molecada chegando da escola e, numa rapidez assustadora entram em seus barracos e saem só de bermudas e nas mãos uma lata de linha e um pipa na outra ,a vida começa agora pra eles.as meninas ficam brincado de amarelinha, pulam cordas; as adolescentes jogam futebol e falam de outras paradas num gestual cibernético com muitos palavrões.. e, todas com seus inseparáveis celulares tocando aquele funk do caralho. umas cinco vazei. Saio no meu role matinal pelas ruas de minha infância e desço pra biqueira .ae tiozão! Era o sobrinho do Beto adiantando os fatos.. os vermes fizeram o acerto e depois ,lá pelas oito da noite outros vermes chegaram e já enquadram o Beto e levaram pra outra quebrada. porra, que filhosdaputa. é foda xará, os caras são a lei! cheguei no barraco do Beto ,falei com a Nice, sua esposa ,e tudo foi confirmado. Peguei um dois por hum com o moleque que estava no lugar do Beto, bolei e ascendi e saí fumando na beira da vala; olhando toda aquela gente que vive porali; são gente que tem aquela fé num Deus que não sabe deles. Os vermes do acharque pegaram a grana da extorsão e, já armaram pra outros vermes da Civil de outro Munícipio colar e levar o Beto sem acordo. quando fazem este tipo de acordo entre eles ,pode ter certeza que os vermes da extorsão já estão na mira da Corregedoria, que esta investigando e, enquanto não chegam mais perto do povo as Instituição ficam capengas na vista de todos. O cara fica lá guardado enquanto seus Patrões transitam em grandes festas em palácios e outras porras. a lama podre vai deixando caras como Beto que é um mero traficante sem antecedentes s criminais ..no grande primeiro estágio da parada doida da cadeia, ali só temoutros também que começaram como o Beto. só um adianto e aí vai e num sai mais e depois que rodou uma vez, uma só vez; você é um gado marcado pro abate social mais fudido que existe neste país de uma democracia pra quem tem grana; agente da arquibancada não tem nem tomate podre pra mandar na cara desta corja que desfila na cara da gente tantas patifarias e, assim toda a sociedade vai patrocinando os mais furiosos pistoleiros com sua própria lei. a Justiça pega um cara deste e se existisse interesse o Beto poderia ter outra oportunidade se ficasse por lá estudando e aprendo um profissão. por ex: poderia ser soldador pra quando saísse montasse um quadrilha de arrombar cofre com maçarico, justiça pensa assim; e joga o cara no meio da fúria, meio de tudo o que já esta podre podre. .Um 12 na cara. fugiu! agora já era! Caralho! este dois por um é foda. estava doidaço e fui caminhado olhando a grande serpente negra espalhando seu fedorento hálito em público em direção ao Tiête. tudo bem pintadinho. soube pela Nice; que ele agradecia as cestas básicas que descolei levei pra sua espôsa, depois fiquei fudido, mas estava sempre sabendo o que acontecia e aproveitava e ia ver as crianças e brincar com elas na beira da vala. e depois partia com meu dois por hum. agora, ali na frente eu era testemunha de grandes pactos; de grandes paradas; de grandes tretas numa dimensão inimaginável e o funk arrebentando nos tímpanos pra fuder. aí veinho, ele já estava bem pra lá de Marraquesh. Eu em Plutão. aaí tá vendo aquela ali de saia azul ,e apontou pra gostosinha ela sorriu largamente com seu melhor sorriso, gostou de você. porra aí ficou fácil. você não sabe o que uma trepada magistral com uma mina dançando funk em cima do seu cacete, eu também não sabia. uui uui aaee aaee fica de quatro que o cuzinho eu vou foder, eu seguia todas a letras com dedicação digna de condecoração disciplinar.. como fode estas pivetas. umas três da manhã meu pau, e eu, estavam sem fôlego. deixei ela porali meia zonza de tanto cheirar e fumar e foder .aí da um tempo que vou falar com o Beto. ja volto. e ela lá largando aquele nariznho que enchi de porra. aaí Beto descola um azulzinho.na moral. aí veinho, qué morre é! ela fode demais nenão?.demais. dois minutos ele estava de volta com o poderoso: eu morro mas morro feliz!, tomei metade com Fanta. e voltei pra aquele rabinho..uuuii põe gostoso põe gostoso põe paizinho. obedeçono sol a pino! Sei que o Beto anda no corre poraí, saiu fora da quebrada, soube por seus substitutos; que ele esta no Progresso. é o que falam. pego meu dois por hum e vazo. vou plantar umas sementes da bichinha quem sabe vai.. Clóvis de carvalho 

ANJINHO DE PROCISSÃO

Nasci bem na divisa do Estado de São Paulo com o Mato Grosso e fui sendo criado na Fazenda de Seu Antão; onde minha mãe morreu de tuberculose e de um desgosto dos infernos; Meu pai tinha fincado pé no mundo e depois que nasci minha mãe morreu, dizem que só estava esperando eu nascer pra partir, é o que dizem as pessoas mais próximas de mim. A irmã de Seu Antão, uma destas beatas que não casou-se nem tão pouco, teve filhos; me adotou e tanto era sua fissura por um filho, dizem que até no peito dela eu mamei; ela me pegou no parto fúnebre de minha mãe. O sonho de D.Maria Ladiva, era este o nome dela; era que eu fosse padre e, muito cedo começou com esta história de me empetecar de goma no cabelo e enfiar uma bata branca com asinhas também brancas e, aquelas sandálias de tiras que sobem até dois dedos abaixo dos joelhos, e claro, aquela auréola de penas de galinha.. tive uma infância solta e cheia de mimos e de segredos; ainda menino senti várias vezes o olhar de Seu Antão sobre mim; enquanto brincava com brinquedos que, por vezes, chegavam de outros países, trazidos nas bagagens de amigos da família. A cada véspera de qualquer dia santo eu penava na preparação para ser o Anjinho de Procissão. Era aquele esmero exagerado das beatas em cuidar de mim como se eu fosse um bibelô sagrado. Mas, fora esta encheção de saco; tudo era maravilhoso. Estudava muito. Aos treze anos, estava livre do Francês e do Inglês, mas ainda tinha aquelas tardes em Frente Ao piano com D.Esther tentando fazer meus dedos tirar notas perfeitas de tudo quanto era música de concerto, que era moda na Europa.. Meu Deus ,que inferno! Como foi ficando cada vez menos provável que eu seria religioso; várias vezes, no decorrer de minha infância pré- senciei discussões de Seu Antão com D.M.Ladiva sobre minha formação. Seu Antão, não alisava e dizia: Você pensa que este menino nasceu pra falar estas línguas enroladas e tocar piano nos seus chazinhos da tarde?; .graças a Deus ele tem o gosto pelo mato, pelos animais e pelo tudo que você diz ser nada e; você não viu o olhar tinhoso dele quando tem gente querendo me enrolar: você é louco Antão, falar uma coisa destas do inocente, você desviou ele do caminho que foi traçado por Deus e você vai pagar por isto, se já não esta pagando. Nem nas procissões ele não quer ir mais, ontem, aos suspiros disse ela : que a festa de São João deste ano vai ser a última e desabou num choro tão sentido e profundo que até me remexi no meu esconderijo, que era atrás de uma cristaleira.. E, depois de outras acusações mais fortes que entrava do lado de Seu Antão: o padre Silas, as beatas e a formalidade de tentar me transformar num almofadinha destes que não valem merda nenhuma; do lado de D.M.Ladiva ouvia-se: por que não fez isto com teu filho? Por que não fica no “teu mundo” sozinho? E.. cada um saia para o seu lado. E sempre na hora do jantar era tudo passado os dois tinham um certo pacto, Que na hora das refeições estas conversas eram proibidas, mesmo que às vezes, a situação Exigisse umas farpinhas para serem servidas com a sobremesa. e; também era raro o dia que não tinha aqueles comensais que de tanto estarem ali na hora do jantar nem eram mais convidados. Na noite da véspera da Festa de São João, sorrateiramente, Seu Antão com Uma conversa macia encantou a todos com o presente que desejei ganhar desde que era um pirralho destes que sentam pelos cantos das casas e, que por vezes; conversam com passarinhos.., e Seu Antão disse com galardia e uma propência à ser aplaudido pela sua honradez e visão de futuro e, fui ouvindo que tudo estava pronto para a minha partida para São Paulo para estudar a ciência que sabia do aprendizado na lida espontânea do campo vendo como Seu Antão sabia quando chovia; quando era coisa braba, daqueles ventões de levar nossa alma pra tão longe que não se acharia mais e, sabia tanto que por vezes seus olhos se banhavam no emaranhado do capim que cresce dentro da gente em manhãs tão vistosas aos olhos que sonham com aquilo que nunca pensaram ter e ,,,perdido dentro da audição dos aplausos finais de seu discurso Seu Antão esforçava-se para agradecer á todos. Eu fiquei nos braços de D.M.Ladiva por uma eternidade revendo paisagens de nossas tardes na varanda e sem voz dentro da gente. fui uma comunhão. E ,depois de toda espécie de hipocrisias que existe ser cortejada como entrada; minha vida seria outra;. esta era uma coisa que sabia que existia e não sabia como era ;mas, era uma sensação de leveza que se eu pulasse neste dia pra longe de tudo tudo ;eu seria livre! Eu já estava em São Paulo havia dois anos ,quando numa tardes destas que você esta poraí Andando e pensando num monte de coisas que não se resolvem na vida, na minha vida, e; Olha tanto o horizonte que teus olhos mentem uma luminosidade d”água que fica como uma aquarela no punho da camisa; então acontece: a velocidade de nosso tempo é tão efêmera que recordaríamos este instante com uma falsa precisão de gestos e tatos em noites de segredos e ajustes. E, eu sentido o aroma daquela esperança dos que sonham com um cotidiano menos abrupto, mas, tudo que vivi foi o vazio da relações de tatos olhares armados de uma loucura tão usual que tudo era para mim; só mais um grande ensaio da sala de jantar de Seu Antão. Aqui nesta cidade, tudo é tão moderno e esplendoroso que quem tinha o pôr-do-sol invadindo portas e janelas e, sentia a fina língua da pétala macia da neblina que cobre toda nossa vida de meninos correndo na poça d”água. chapinando. senti o frisson das mulheres que caminham com olhos fortes num olhar de reconhecimento que seu tempo é de colheitas e partilhas e isto é só delas e sentem Que só elas possuem; senti a anestesia dos costumes e por vezes era para chorar mas muitas eram pra rir, e ria de tanta coisa que sabia e que aprendi com outro nome e executado de outra maneira—Seu Antão era uma presença na minha vida! Eu sentia falta de D.M.Ladiva que em tardes que corria pelas varandas sentindo os aromas que investigam os nossos paladares com sua magia de nos dar o gosto do bolo de fubá que mais gostamos sem tê-lo que provar e no revoar dos pássaros ela dirigia sua voz forte e Berrava meu nome com tanta candura que por vezes eu imaginava que isto era uma mãe; e me perdia em divagações de relembrar cenas cotidianas que passaram por mim por olhos de uma beata que sob a égide do pecado e da Mão de Deus pesando sob sua sombra na culpa que o perdão da cunhada não chegou e foi se alongar nas capoeiras intrincáveis do emaranhado das relaçoes e; desistiu de mim: ao ver eu enfiando um punhal num porco gordo que Seu Antão acabará de dar com o nó do machado na testa; eu tinha nove anos. E foi neste mundo solto e recebendo os melindres de uma educação tão Européia que tudo é diferente de dar aquela mijada no formigueiro e não dar tempo de correr e algumas lava-pés Alcançam por de dentro seu pé do pequeno sapato fino que usava pra correr pelas tardes na varanda... E por vezes, caminho nas mesmas tardes de estampas e memórias que se ajuntam como os brinquedos do meu quarto e não tinha com quem brincar. E toda minha vida que se constrói e se consome num silêncio de manhãs no artifício de surpreender o sol e buscar qual máscara usarei enquanto estiver nesta cidade tão moderna e esplendorosa.. No Mato, lá enfiado eram minhas tardes que não tinha piano e que de tão errantes minh”alma; era do vento que me tomava todo e a volúpia desta desfiguração pelo vento fortíssimo de fins de tardes de Janeiro eu era uma parte daquela paisagem devastada pela fúria do vento.. Aquela ocupação de todas suas coisas ; é que toma seu tempo e, muitas destas cartas longas de D.M.Ladiva eu relia como uma primeira emoção inaudita. E sentia a mão forte e sua sombra sempre esteve ao meu lado mesmo eu não querendo pertencer ao que pertenço...depois, tudo a nossa volta começou a ficar pequeno e oval e toda maneira de sonhar era sempre um pequeno vislumbre do nada que existiu entre eu ela. livre como cheguei voltei pra ser de novo tudo o que sempre fui ...enfiado no mato sentindo o filtro do fachos do sol que recebem meus olhos ávidos de tudo. E incerto como toda a existência que não é prova de nada. Amar suas entranhas acostumando com o tamanho fedor dos avessos e desencontros de toda minha vida Voltar ao passado é só aquele medo do escuro que se foi e toda a frescura da manhã manhosa do despertar é sempre o futuro que acaba de chegar e que por outros caminhos; exige no mínimo encanto! E, hoje metido com todas as coisas que Seu Antão deixou pra que eu cuidasse; depois do derramar do rio houve um sol tão forte que nossas coisas amarelaram e ficaram turvas nossas vistas de tanto não querer ver que é o cotidiano que ramifica a hera que cresce dentro da gente...Encontro os mistérios nos mesmos lugares da casa e olhares são de reencontro e paz; sinto aquele aroma dos varais que são velas içadas dentro de nossa memória em dia de navegação tranqüila, de tantas peripércias Que ficaram presas nas teias de aranha daquele quarto onde o padre se enforcou e; depois de morta D.M.Ladiva sobrevoava uns vastos calipais que secam nossa seiva e nos endurece os laços que circulam a nossa volta num incessante cercear de sobrevôos e vôos e; tudo Sob o sol do resignado cotidiano; minha existência e o todo que restava dela era um apelo de reencontrar com o entendimento de ser como se sente diante do que se foi e; vivendo a mercê do pôr-de-sol que ensina que a beleza é simplicidade de reconhecer que existe algo acima de explicações pra tanta beleza que arraiga nossa alma tão nervosa por coisas fantásticas e tão necessárias. diante desta absurda razão que permeia a vasta imensidão de olhares perdidos presos neste vício que esqueci...consumo! E, no meio de cada ano sento diante dos olhares que sabem de minhas sombras e ventanias Cumprimentam-me com o olhar sereno que desponta em dores mesmas e; perdido no meio de vozes e brindes; reconheço minha memória e oferto afagos aos que enxergam minha brevidade feliz em olhar o facho de luz que cobre o menino que passa vestido de Anjinho de Procissão. Clovis de Carvalho


Camisa de linho branco

Deverás! Foi meu último instante de correr o olhar sem esperança pela vidraça sempre embaçada do meu mundo. só meu. todos a minha volta percebem meu cenho preocupado com as montanhas de nuvens que vão, em mim, movendo-se numa lenta mutação de imagens azuis e brancas. mas, eu não sentia a presença de mais ninguém no trem ,com a cara enfiada na janela sentindo minha alma vazia e infeliz. ... .hoje, estava decido ontem: levantei fumando. Depois de camisa de linho branco estava aprumado e pronto. era sábado; embarco no trem da Luz até o Brás; portas são abertas e o trem exibe seu aspecto de ordem e asseio :tudo mentira! depois de rever a boiada estourar, mas se tivesse dois passageiros, eles iriam brigar, um pra sair e outro pra entrar. embarco: Itaim Paulista, em pé, meto a cara no acrílico da porta do trem que avança e, minhas retinas vão engolindo a paisagem urbana crescendo sempre em eterna desconstrução ;os varais são obras-primas ! continuo doidaço e olhando como a sociedade estabelecida na hipocrisia..; não interessa a classe social esta porra já vem embutida na educação que recebemos de todos os lados.. e rejeitam minhas pupilas que nem cartão de crédito passa.. .o trem avança suave e revejo a paisagem desta cidade veloz que cresce apontando seus dedos imensos em concreto armado sob um perturbado céu sem cor... quando você fica guardado sem fim perde a referência de tempo e espaço; agarrado na memória que lhe apresenta flashs de tudo que foi destruído, subtraído em nome do progresso e tudo que vejo é um emaranhado de botecos; igrejas cada uma com seu Deus levando esta gente pro oco da ignorância; bairros inteiros onde era um pântano imenso com gente vivendo a mercê de caras que usam esta mesma fé em Deus pra prometer dias menos terríveis, que filhosdaputa! A voz metálica anuncia que a próxima parada é Itaim Paulista ,num sobressalto saio de minha letargia e me preparo como se fosse encontrar um velho amigo; mas ,o que encontro é uma estação brincando de Jetsons com espaços pra exposições e outras porras, mas não existe nem uma foto das primeiras estações que morreram pra dar lugar pra esta; que diz que o progresso chegou no bairro. mas, faltou grana pra botarem escadas rolantes iguais das estações dos bairros dos bacanas; capricharam mesmo nas escadas, inclusive nas caracóis ordinariamente estreitas; pra quem não quiser usar a passarela legal que também é acesso ás bilheterias.. ,os caras que projetaram toda esta grandiosidade nunca estiveram presentes num horário de pico pra saber como é foda... saí fora da estação e caminhei um pouco pelas imediações; não sobrou um puteiro dos meus tempos. O XM era a boate de gatas inacreditáveis pra um cara de quinze anos. mas, Lago Azul era na calçada e não tinha segurança era demais aquelas mulheres loucaças dançando na rua; o Olgadora era meu preferido.. mais intimista, aquela luz tingindo tudo de vermelho: putas, malandros e moleques de quinze ..dezesseis.. dançar com aquelas gostosas de sainha coladinha, maluco! transar com uma destas gostosas com uma caranga muito louca; roubada lá pelos lados da Augusta, porra! era legal demais; quando estava num carros destes.. construiria-se uma escola com sua grana.. os mesmos olhos que sempre me olharam como a parte da sarjeta que sou; me olhavam agora como um filho-de-papai de algum homem caucasiano metido na sarjeta da política. agora tudo são lojas de magazine, bancos e gente voando de um lado pro outro pra bater o cartão .. triste pra caralho. contornei por uma ruazinha que era linda e agora só tem gente, desci a rua lateral rumo a estação. e ascendo mais um. trouxe maconha como se fosse pra algum lugar que não existisse a danadinha... nada existe pra mim aqui e voltei pra estação maravilhosa de escadas rolantes pra sacanear. embarquei no trem, agora sentado; a paisagem me tomou por inteiro e fiquei ali olhando o mar de tijolos baianos, zinco e madeira e aquelas telhas com cor de pele de rato que cobre a periferia que estende-se ate onde o céu acaba pro meus olhos cansados e tristes. Elas, que se prepararam pra dar aquele role e, são a minoria entre as que vão dar um trampo nos Shoppings; que deveriam ser casas de arte-natureza pro povo aprender a viver em harmonia com a Sua Mãe...viajei pra caralho. Meu Deus! Tantas gostosas e muitas ostentam aquele celular do caralho no bolso detrás da calça apertada mesmo, dando a impressão de animal rastreado em pesquisa biológica com aquelas coleiras incomodas pra cacete ;que estes caras da biologia botam nos bichos pra fazer um trabalho muito louco de preservação... Vou olhando alguns vagões antigos jogados pela beirada da ferrovia ao lado de grandes construções que ficam para o tempo corroer, por que será que não usam estes espaços pra arte e trabalhos sociais; paredes de tijolos imensos caiados sem nenhuma imaginação; imensos galpões à mercê do tempo, desabando e anulando a primeira memória dos bairros que montam esta cidade que esta ocupada sem conhecimento da urbanização.. Já pensou um Grafite organizado e patrocinado entre cptm e as centenas de fabricas de tintas desta cidade; os muros desta Ferrovia poderiam contar a memória de cada quebrada em frente e verso reunindo gente de cada bairro pra contar sua historia.de novo, viajei pra caralho. ..Tenho mais um aqui no bolso de minha camisa de linho branco, isqueiro no bolso da bermuda caqui e curta no joelhos, e sandálias de petróleo cinzas; faz um mês que usei esta roupa. Ando sempre assim toda vez que saio pra me matar. Brás. embarco pra Luz desembarco. Na rua comecei recitando Augusto dos Anjos: Toma um fósforo! Ascende teu cigarro. E ascendi na calçada da Estação da Luz e, fui direto na direção delas, agora, não conheço nenhuma; percebo uma bunda passando no meio de plantas tão lindamente cuidadas, voltei e fui atrás. tinha uma cara gasta do infernos ,mas o corpo só podia estar no formol pra estar daquele jeito.oi.oi.” Os que estão morrendo, amor. precisam de tão pouco.” .e sorri dizendo: quanto é? vinte? o que você faz por vinte? se o seu pau não tiver nada de machucadinho, chupo sem camisinha, e você gozar rápido demais, agente vai outra vez.. .se eu não gozar rápido demais? fico no prejú? Ri. e disse que tudo bem, ainda dei mais um trago no baseado e saímos pro hotel. lembrança daquela Estação da Luz dos anos setenta. o lugar é outro; tudo ficou mais forte e visível no descuido total da cidade que em sua mutação ficou como um velho no asilo que não tem parentes só a memória roendo lentamente sua solitária espera do fim. quando fumo muito fico assim deste jeito: critico e feliz como se outra realidade me absorvesse me abduzisse deste esgoto que conheço desde ... .totalmente chapado tenho uma saudades do meu tempo; poraqui tudo que já era gasto e mal cuidado ficou assim tão desfigurado; a cidade continua sempre maquiada às pressas pra festas suspeitas que acabam em grandes palácios, numa bandalheira com a grana desta gente que corre por suas entranhas gastas e sujas.. mas; tinha sempre paredes de reboco irregular caiadas num cal pálido e com aquelas florzinhas pintadas na lateral das janelas e suas portas coloniais; altas e estreitas de gradil pintados de azuis ou verdes dos hotéis vagabundos nas imediações da Rodoviária Marechal Deodoro da Fonseca xará.; aqui era demais pra vagabundear tomar todas e sair com elas. E claro descolar uma grana preta dos otários chegando em Sampa, admirados da cobertura colorida da Rodoviária como guarda-sóis numa praia linda e todos chegavam para serem felizes, como eu.um covarde que não tem coragem de tomar chumbinho e; vai olhando toda esta gente como sombras bruxuleantes num velório de uma cidade que morre a cada dia com os desmandos da corja que deixa sempre os que necessitam à mercê do descaso. porra, tou doidaço; o cinema pornô ascendia forte e a Boca Lixo era minha quebrada. muita mulher maluco! sei que nada mais disto existe. Estação da Luz meu eterno ponto de embarque e desembarque ,é ali que descolo uma grana legal tem muito otário na parada. Muito otário. enquanto caminho na rua ao lado de minha parceira por vinte contos, olho de soslaio sua bunda empinadinha num vestido cinza semi- colado no corpo e, com a mão na sua bunda vou olhando uma arquitetura caindo como os dentes podres da boca daquele velho que arrastando sandálias de chumbo e ,morre largado um corredor de hospital público da quebrada; sem receber os primeiros- socorros dos caras, que tratam a cidade assim com governos medíocres e suspeitos pra caralho...fiquei no prejuízo, mas foi divertido ficar ali com a Rute, foi o nome que me deu junto com a mesma história de Hollywood: menina pobre do Interior vem tentar a vida em São Paulo e cai na prostituição. e, você o que faz?—“Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo, eu.. ”estou na rua outra vez.19 anos é tempo pra caralho.. foi neste quarto que comemoramos ontem um mês de convivência. ela saia pra trabalhar do outro lado da rua onde aluga sua boceta por vinte mangos. eu fiquei escrevendo esta porra e lendo coisas que não consegui ler na cadeia, foi lá que comecei ler poesia. eram os livros mais finos e comecei poraí, gostei tanto que não parei de ler e li tantos caras fudidos nesta vida; depois deste impacto da poesia em mim senti que alguns poetas escreveram coisas pra mim e pra todo cara que vazou pelo próprio rumo depois de levar porrada do pai até os oito anos; viver na rua não pra qualquer um não, tem que ser da raça dos vira-latas bem magrelos e fedidos com os eternos olhos remelentos e vazios de qualquer esperança, senão morre logo. Quando saio pra me matar relembro coisas de minha vida e penso nas poesias de caras que falando coisas deles, que também são minhas. beck maravilhoso! Há um mês freqüento o Centro Cultural do antigo Doi-Codi ...vi muita Verâneio Vascaina entrar e sair rasgando lá da boca do predio. tudo mundo sabia o que acontecia ali dentro: era a parada da política. outro ramo e, eles não se misturam com gente de minha espécie.. .gosto de dar meu trampo, no Rush.. .os otários estão imersos em seu horários de escravos; que ira determinar seu futuro de grande consumidor ,e, não se ligam que um senhor elegante, baixo e, sempre com um livro nas mãos trabalha; como velhos tempos, desculpe jovem! E o que tiver no bolso arrasto; e assim vou olhando minha cara de covarde diante de tanta vida que vivi sempre fracassando em tudo que fiz. comecei roubando na igreja; adorava comer aquelas taças de hóstia com groselha, que delícia. Agora, sinto-me detido nesta urbanidade que não vi ficar desfigurada. viajo em vagões que me levam a grandes concentrações de gente; que circulam com aquela velocidade estúpida pra ter grana no fim do mês pra pagar contas. porra que triste! Se você pode ficar alheio e chapado no meio da Estação da Luz olhando tudo aquilo vai se ligar que tudo é como uma grande senzala social; é uma aula que nenhuma universidade pode dar. Oi querida, como foi seu dia hoje? meu ,catei um cara que tinha uma rola deste tamanho, e abre suas mãos numa distância de um palmo. porra me arrombou. ouço suas queixas e faço uma massagem no seu corpo cansado do uso coletivo.na moral. depois me passa uma grana pro meu passeio ali na Cracolândia onde busco uma maconha borracha. é muito louco você ouvir dizer em bocas da ordem e do progresso, que você é o patrocinador de toda esta escória humana infantil-adolescente que trombo enquanto vasculho o traficante que conheço...os caras que abastecem esta porra toda estão em coberturas e com ternos Dior com seus cabelos besuntados de gel; sorrindo em corredores onde o Lobby da Máquina da Droga é ultra-facetado como esta realidade jogada aos meus pés; pivetes de nove anos morrendo empunhando saquinhos de cola e cachimbos de crack, são seus estandartes e ,que já tomaram tanta porrada na vida que tanto faz eles estarem vivos ou mortos, eu me sentia assim.. aí.aí quanto? Trinta! Valeu... nasci tão longe daqui que a única lembrança que tenho com clareza de minha infância: é ver na minha frente aquela estrada sem fim que iria acabar onde estavam construindo uma cidade inteira de uma só vez. era o que falavam todos naquele caminhão com um pano grande igual ao da jangada que ficou parada lá na praia de areia branquíssima ,onde eu meus seis irmão corríamos livres... A cidade nasceu e cresceu e também eu .rodei num 551 nervoso. quando saí; sumi daquela cidade que revelou-se cinza e fria como o concreto de suas formas que Galango nenhum entendia ;depois de dois anos em São Paulo, rodei num 12 forte hein?. Foi um longo tempo olhando a vida por detrás de grades e leis que junta iniciantes com grandes macacos velhos ,aí xará, é a lei do cão e pra não morrer matei; como você mata faz a diferença, eu sei. ele partiu pra cima com seu estilete em punho; com um movimento rápido ergui meu braço direto e recebi o estilete que abriu uma perfuração fina e ardida ,dei-lhe um chute tão foda no saco, que ele ajoelhou-se e soltou o estilete ;agarrei-lhe a cabeça como se agarra a vida que você sente estar por um fio; e, bati violentamente na lateral do vaso, que partiu-se em cacos; numa tesoura prendi-lhe os braços e, com minha mão esquerda agarrei-lhe o pescoço numa gravata para trás e, com a minha mão direta que sangrava; munido de um grande caco de cerâmica do vaso partido, fui-lhe abrindo a face, e o tórax, abri lentamente enquanto ele urrando numa dor descomunal cedia ,e ficava frouxo na minha teia ..ele gritava tanto que nem parecia aquele cara que tentou me estuprar e, fui abrindo-lhe lateralmente também ,abri –lhe numa curva do estômago ate sua virilha direita; ainda vi sua cara de terror quando lhe cravei o teco de louca pontiaguada vazando-lhe o olho esquerdo, seu sangue lavou o canto do boi sob os olhares antônitos de uma meia dúzia de caras.; depois de corta-lhe as bolas e sua rola, enfiei tudo em sua boca aberta de lado a lado, soltei-o. fiquei em pé com as tripas dele nas minhas mãos; todos olhavam como eu devolvia tudo que passei em instituições e outras porras cheias de padres querendo fazer a mesma coisa; tudo sob o aval de seu Deus. filhosdeumaputa! Sentia seu sangue esvair-se num desenho surreal.. vermelho vivo sobre piso cinza-cimento gasto; quando chegou a cavalaria, ele estava aberto como um porco. Então, depois do tratamento especial que lhe dão. Aí, me jogaram naquela escuridão gelada da solitária; perdi a noção de tempo; mesmo ouvindo os caras falando pelo vaso pra que aguentasse mais ,pra que eu ficasse me exercitando pra cansar e tentar dormir naquele miséro colchonte de papelão frio e peçonhento. .foram noites, que jamais me abandonam. jamais! . sai dela com uma pneumonia que deixou meus pulmões fudidos ate agora. Quando saí vivo daquela porra de solitária.eu era olhado com ódio medo e respeito, o tempo passa lento e eu me enfiava neste mundo dos livros fininhos; o Capelão vendo meu interesse por livros me levou pra trabalhar com ele na organização de livros que comporiam a primeira biblioteca numa cadeia pra presos perigosos como eu. começamos organizando prateleiras e depois abrindo cada caixa doada e catalogando cada livro um por códigos e uma numeração e todos pra sua prateleiras: religião, história, matemática, bíblia pra caralho! Revistas de religião Católica Apostólica Romana E toda a literatura de outras religiões. depois eram aquele livros fininhos que eu pegava pra ler pra acabar rápido; o gosto pela poesia foi crescendo a cada descoberta de novos poetas ,por vezes, sentia minha alma aquecida como as manhãs de banho de sol, crescia.. .hoje é outra realidade: tudo é máquina cibernética! Com muito celular, fácil demais pra abraçar. levo vários prum chinês .todo mundo sabe.. ficam neste faz de conta.. então ;resolvi de vez acabar com esta covarde e medíocre vida que arrasto perdido nesta sociedade que não passa de um grande labirinto com a imensa maioria morrendo ali sem ver a luz da saída, da existência. mas, hoje acabo com tudo e quero me matar como antigamente. Saltei do metrô na Praça da Sé e, subi escadas falando sozinho “Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas, os soldados que perderam a batalha, parei pra tragar e continuei, as mães bem mães, as fêmeas bem fêmeas ;os doidos bem doidos” sai na Praça do Patriarca do jeito que entrei no Viaduto do Chá, dei uma pequena corrida apoiei minha mão direita na mureta e saltei na cara da boca aberta do Túnel do Ademar .clovis de carvalho

CLAÚDIA

Putaquiupariu! Três da tarde e eu aqui sentado esperando meu tempo se esgotar. tempo de olhar a vida como as velas destes barcos à minha frente; estacionados, vazios e com fedor de peixe. cadê o Dimas? três e quinze. três e dezessete! chega!! Minha paciência não pode vazão aos ensinamentos de Confúcio. fodase Confúncio! começo a caminhar no Sentido Centro Comercial de Angra dos Reis; cidade com história legal, não vou contar não; vai ler para saber! As ruas são estreitas e de paralelepípedos frios como meu sangue que desfila suave nas minhas veias finas e cansadas. tomar café num boteco é outra parada. volto Pra escadaria da Igreja. cadê o filhodaputa do Dimas? bom, vamos es-perar. minha vida toda é uma fila que não anda. por que não posso esperar mais uns quinze minutos? três e meia.. filhodaputa. três e meia. num repente começo a olhar a rua que desce da lateral esquerda da Igreja; Tem um colégio ali; mas com cara de convento. que porra é esta? começo a olhar e ver a paisagem exuberante que escorre do Portão do colégio; pivetas grandes, bem grandes mesmo naquele uniforme de saias azul-marinho de dobrinhas, meias brancas e camisas brancas. caralho, uma mais gostosa que a outra. dane-se o Dimas. levanto e dou uma ajeitada na bermuda multicor revejo meus pés imundos igual a minha vida e; saio na direção da porta do colégio. vou contra o fluxo e, passando pelas colegiais meu pau começa a ficar meio duro; será que é esta roupa que instiga meu subconsciente de adolescente de punheteiro com os catecismos do Zéfiro. paro no boteco. café.. e fico como aqueles urubus velhos que perderam o comando do grupo e; ficam ali pairando no ar sobre a carniça; enquanto, os mais jovens e fortes despedaçam o cadáver e o devoram. começo caminhar de volta pra escadaria e, vou passando por elas no meio da rua; esbarro aqui; desculpe meu bem. esbarro ali; perdão, minha linda.na escadaria fico sentado de costas pra casa de Deus, quem sabe ele assim não vê o que estou fazendo. olhando o emaranhado de barcos à minha frente todos naquela dança que vem coisa poraí; ou é só barcos grandes desembarcando ou embarcando Criando aqueles saculejos e, os barcos ancorados ao lado uns dos outros, se tocam como um ranger de dentes.. . oi moço, esta voz aveludada que jamais vou esquecer tirou-me do meu devaneio e, Continuou falando; ..você pode olhar isto—e mostrou seus dois livros e um caderno e uma mochila—aqui pra mim, que vou ali do outro lado da pista pegar uma lata de óleo no posto? Rapaz! Deus existe. ah. se existe. depois, fiquei sabendo que tinha quase vinte; me vendo sentado ali com cara de pastel; veio me inquirir se poderia deixar suas coisas—dois livros e um caderno e sua mochila—sobre meus olhares, enquanto iria buscar uma lata de óleo vazia no posto pra fazer seu trabalho de artes...e, pode deixar que olho e, olhei mesmo quando ela curvou-se pra colocar seus pertences ao lado de meus pés descalços e imundos e, vi aqueles peitinhos durinhos de biquinhos foscos igual vidro leitoso; depositou tudo aos meus pés e começou à atravessar a pista; Meu Deus! .senti o balanço daquelas nádegas duríssimas no mesmo ritmo dos barcos ancorados a minha frente. que coisa enlouquecedora!. devia ser proibido mulheres perfeitas de sainhas atravessar as ruas e pistas correndo: que espetáculo revelador; a sincronia da beleza; o ápice do tesão é uma deliciosa atravessando a rua dando aquela corridinha. Aqueles pulinhos... Meu Deus! fiquei ali, estático, olhando ela pedir a lata de óleo pro cara do posto; que também olhou com carinho pros seus peitinhos durinhos como ovos cozidos. branquinhos branquinhos. pronto! voltou e começou a recolher suas coisas ao lado dos meus pés.., meu instinto de tarado entra em ação; retiro meus óculos escuros e, como se o desdém fosse obra minha, mando: vai fazer o que com esta lata? Olho as pernas dela no maior desbaratino e; vejo seus pelinhos clarinhos numa fieira joelho acima e, as pernas tão lisinhas que dá vontade de chorar pôr não poder meter a mãos; meu pau exige que eu faça um inquérito e, segure ela ali ao meu lado. Ah. a lata de óleo; e que vou fazer? ou melhor tentar fazer uma luminária, pra ver se pego uma nota com a Professora de Artes, que é um pé no saco. e pediu que a gente use coisas do lixo. bom, meu pau exige que me pronuncie: eu trabalho com lixo, sabe, é só olhar pra mim e vai perceber que sou parte deste lixo humano que trafêga com a vida cheia de avessos e a merda toda. Olha você pega a lata e, peguei a lata da mão dela sem nenhuma resistência e, claro. toquei de leve na seda que é a pele dela; como é teu nome: Cláudia!. Humberto, a disposição...meu pau exige que eu seja gentil, educado e canalha o suficiente pra não deixar esta delicia cremosa ir embora sem mais nem menos...olha, você pega um abri-dor de latas e retira esta tampa aqui e, ela roça aquele bracinho de maravilhoso de ninfa; no meu braço gasto, fino e queimado do sol e; Aí você pega um martelo e bate estas rebarbas que vão ficar aqui, e; tocamos pontinhas de dedos e; aí coroa, sabe; quando você tá doidão beijando aquela putinha perto da rodoviária e, depois.. descobre que não era putinha, era um quase ela.. porra: foi assim que olhei pra cara do Dimas; que chegou e viu a cena ali na cara dele e não acreditou. Tá tudo certo?? perguntei. e pelo meu tom de voz sentiu que tinha que ir me esperar na lancha. este moleque trabalha comigo, fui falando e olhando nos olhos dela, enquanto o Dimas seguia triste e sem ação pra lancha. cinco minutos e já vou Falo como se mandasse qualquer porra; ele olha pra trás, pra confirmar a cena que vê na escadaria e diz querendo ser cúmplice: Peguei cinquenta dubom! arremato para o nosso bom entendimento: Legal, vamos arrebentar no caminho de volta. no mar. Ela ,olha pra minha cara e sei que entende do que falo, ri cúmplice, e aguarda minha explicação; você mora onde ela pergunta num repente; na Ilha Grande. é mesmo? é sim. nossa Que legal, eu sou nova aqui em Angra e não conheço, ainda, a Ilha Grande. pronto tá feito a mandinga; meu pau exige que eu seja educa-do, cortês, anfitrião e tarado. Olha, Cláudia, sabe o que você pode fazer: Meus olhos vão direito pros seios duríssimos dela sem sutiã. Ah! uniforme enlouquecedor. você pode pegar a balsa na sexta de manhã. amanhã. e ir lá pra Ilha ,assim; eu te mostro(meu pau duro, meu pau duro)meus trabalhos e te ensino você fazer esta luminária e; olha ( em que anfitrião espetacular me transformo) na Casa que moro tem lugar pra ficar.. que naturalidade. Canalha.. Ela fica encantada com meu exagero de desprendimento e solicitude. Ah. eu vou sim; perco o sentido da razão e fico imaginado esta deliciosa em Trajes sumários andando dentro de casa. Meus Deus! E, continuo minhas explanações sobre como a lata deve ser aberta, furada e a porra toda e, tocando suavemente naquele bracinho imaculado. ficamos em pé; antes dou aquela caidinha de cabeça pra frente tão manjada que não pensei em nada, só vi: aquela fieirinha de pelinhos clarinhos subindo de suas coxas carnudas seguindo pra sua (imagino) bucetinha maravilhosa; e vejo o que realmente é aquela piveta: Capa de Revista!! Volto ao normal tentando ser o mais casual possível, tá feito então; amanhã fico lá no cais te esperando na balsa da manhã. Ela pega a lata de óleo de minha mão com uma suave delicadeza que fico trêmulo e, me olha com aquele olhar de demônio que sabe que acende um inferno por onde passa; meu olhar de triunfo é o mesmo de César ao saber que vai tascar a Cleópatra.. você disse que Tem lugar pra fica na sua casa? nem respondo, meneio a cabeça como se o elmo estivesse meio apertado e, com o sorriso dos canalhas estampado na cara quando sabe que todas as exigências do teu pau serão Cumpridas. Vou levar meu namorado! Você não tá ligado, na dor que é um mastro virar no meio de um sudoeste e pegar na sua testa; foi mais ou menos isto que senti. gaguejei, sorri, e disse que sim e; que estava tudo certo. pode levar ele(que afogo este filhodaputa no rasinho) que tem lugar. Ela vem assim como aquela rajada de vento que muda tua direção, mesmo você segurando o leme com as duas mãos e os joelhos e, manda um beijo na minha cara com o maior respeito. Judas De saia. toquei de leve nas costas dela, inefável! E saiu olhando pra trás, antes de eu desmoronar no chão com um ataque de pressão alta, e disse sorrindo magnificamente: até amanhã Humberto. meu pau exigia retratação. que esculacho. saí andando em direção a lancha e, senti aquela colinha grudando na bermuda; na lancha o Dimas olhou pra minha cara de desgosto e ódio e disse: qual é coroa? não respondi nada e fiz uma cara de: amanhã tem mais.. ,liga esta porra aí e vaõbora. o mar e toda aquela paisagem de Angra pra Ilha Grande numa voadeira Fumando uma bomba me deixa relaxado e Zen, mas meu pau exige retratação. Que gostosa esta Claúdia. Clovis de Carvalho

Vagabundo que é vagabundo já vem de berço

Minha mãe deixava eu—dois anos—e meu irmão - um ano—dentro do berço e, ia cuidar de sua vida que não era fácil; cuidar de dois pirralhos, cuidar da casa e lavar roupa pra fora pra gente ter mais o que comer. Não demo-morava muito meu irmão estava abrindo a boca; minha mamadeira caia pra fora do berço eu nem tentava em me preocupar em pegar, já metia a mão na mamadeira do meu irmão, vacilou já era. Minha mãe que conta esta parada, como poderia eu me recordar de uma coisa destas?. Mas, o vagabundo nato tem seu estilo próprio e natural e, começa a desenvolver as suas habilidades nesta vida de cada dia; o vagabundo que é vagabundo é o cara que não dorme no ponto, ele, pensa e vê parada pronta na sua frente antes de agir, mas não é aproveitador da fraqueza humana só se agiliza porque tem a raça de vagabundo. Quando eu tomava a mamadeira do Rato, este é o apelido do meu irmão; não era por maldade ou porque eu era um pouco maior, é que meu instinto de bebê vagabundo dizia-me: eu tomo a dele e minha mãe ouve o cara berrando vem e pega a minha mamadeira que caiu fora do berço eu não queria ficar me matando tentando pegar a minha mamadeira, enfiando a mão nas grades do berço. Eu enfiei a mão várias vezes em outras grades. grandes delitos: brigas, vadiagem e muitas bebedeiras. Então o tempo vai passando enquanto você fica olhando a bunda da vizinha no tanque; e tudo vai se transformando com velocidade de bala perdida e, se você não esta ligeiro: Paft! na testa... Quando eu era um rapaz foi a fase de passar de vagabundo amador pra vagabundo profissional; é uma fase difícil porque todo mundo já esta ligado no teu movimento e, sabe que você anda na sombra pra não se queimar; a parada fica entrucada. dividida e; é aí que se decide na vida o que vai querer ser; é só escolher: seguir o que tua família te passou e seguir dentro de tantas regras e normas que a sociedade exige que se você der um peido mais alto e fedorento tem que explicar o que comeu; ou escolher o estilo das ruas. puta escola. Mas, ser vagabundo original não é escolha tua, a porra nasce contigo e; tive as duas oportunidades e fiz das duas uma; tenho família mas sou vagabundo. Aos poucos você vai descobrindo como é o amadorismo e, quanto mais longe dele você fica, mas você sente e vê a competição alucinada pra galgar os grandes sonhos que estão prontos pra você e te empurram: ser isto ou aquilo e pra isto você tem que se foder e suar sangue, literalmente, ainda mais quando você é da periferia , da quebrada, da favela. Ouve até a exaustão que pra ser uma pessoa de bem tem que se sujeitar a tudo e a todos que estão no topo; que uma pessoa de bem tem que crer num Deus que nunca viu e nem sei como é. Você ouve estas coisas desde que chuta a primeira bola. porra, pra mim não deu pra ser uma pessoa de bem. Mas, chega o tempo de mostrar que se profissionalizou na tua opção maior e vai tocando de prima e no chão. E não é pra qualquer otário, tem que se impor, e na agilidade cerebral, no drible da vaca, e muitas vezes na porrada e, claro que um oitão na mão facilita muita coisa.; porque sempre vai ter aquela torcida adversária que atira pedras em você ou fica esperando você dar de canela, uma bola espirrada, uma falta mais feia; o tempo continua passando como aquela bala perdida e, aí o vagabundo profissional sente tua incompatibilidade com todo o sistema familiar, social e o caralho à quatro. E comigo não foi diferente eu me lançava na roda e ficava ali sambando de Mestre-Sala, na moralíssima, respeito é bom e conversa os dentes e, você tem que dizer a que veio...Claro quando você se profissionaliza tudo mais é incompatível na tua vida, mas, pra Todo este sistema montado você tem que fazer tua parte, tem que ser feita, foda-se a minha parte: eu tive vinte e três registros em carteira profissional em dez anos de trabalho, entretanto: seguia por Vezes no fio da navalha entre ser vagabundo profissional e cair de vez na malandragem; por que aí é outra estância e como a malandragem demais engole o malandro; eu optei por ser vagabundo profissional e, dava meus pulos aqui e ali pra ir vendo O sol nascer de minha janela. Eu era universitário e centroavante do time da favela, freqüentava o Teatro Municipal –que no meu tempo, as segundas-feiras era de graça—E, desfilava na Primeira do Itaim Paulista ,e cheguei a ir numa –farra—posse do Governador Paulo Egydio ;namorei uma sobrinha de uma artista mais ou menos famosa e fodia muito com a Lena que saia na minha querida Xurupita, era o apelido da Primeira do Itaim Paulista, inúmeras vezes acordei sob marquises, no 69 ou na praça da Sé. Claro, chega um tempo que teu estilo começa a incomodar, porque você Vai tocando de prima ,toma uma entrada mais dura, cai levanta e parte pro teu jogo; você esta administrando tua essência, evidente, que todo vagabundo profissional tem sua original essência e não fere ninguém com ela; a torcida adversária sabe que você joga pra valer e vai abrindo seu próprio caminho no rumo de ser um pouco mais livre, isto, transforma você num num cara habilidoso; e gritam: pau nele! pau nele! Aí tua essência de vagabundo profissional faz a diferença, você administra sua natureza e faz dela sua aliada; nada é fácil. nada é de graça; porque no mesmo time que você joga tem sempre aqueles que jogam uma bolinha assim ô e, se acham o Pelê; mas, aí você pode mudar de time e jogar contra eles. No tempo que a Bonnie e o Clayde governaram o Brasil e toda a Esfarrapeira era visível a milhas de distância; meu filho nascia; sem trampo, sem amigos importantes nem galinhas no quintal—grande Belchior—é aí que você tem que mostrar que Que se profissionalizou na vagabundagem e seguir pelo atalho da humildade pra sobreviver sem dar arrego pra filhodaputa nenhum.eu fui vender limões nas mesmas feirasLivres que minha mãe trabalhou a vida inteira até se aposentar como feirante pra criar três filhos e um profissional na vagabundagem .Era um rolê nervoso, saco de limões nas costas do Mercadão até a Sé, aí outro busão ate o Aeroporto de Congonhas. pagava as contas, botava comida na mesa e que felicidade : não devia favor pra puto nenhum. Mãe é mãe e Esta sempre ligada quando você desentoa do resto da prole e, sente por este desgarrado uma certa predilação, meu irmão e minhas duas irmãs sempre sacaram isto ,mas nunca deixaram De me ajudar sempre que a coisa ficava encardida pro meu lado. É nestes interlúdios que o vagabundo profissional tem que ter atitude e não cair do fio da navalha e; quando bicho pega pro teu lado tem que segurar o B.O. e, sair no gás atrás do prejuízo; por que também é aquela bola perdida que você corre atrás e sente que não vão vai dar pra pegar, mas você esta jogando pro time e se mata por aquela bola que saiu... Mas, eu tinha dois atributos que vários vagabundos profissionais não nascem com eles: o amor pela arte e pelos livros e, minha alma pertence aos dois. Era uma coisa muito louca; eu saia do Itaim Paulista, Jardim Camargo Novo e, quando eu passava em frente o boteco que frequentava com mais assiduidade, num domingo à tarde os caras me chamavam pra tomar uma e perguntavam onde eu ia com aqueles livros na mão; vou numa Vernissage lá no Masp. que porra é esta? era o que ouvia deles. Vou ver telas, quadros e uma bucetaiada que cola por lá .Bom, aí era outra coisa, só a bucetaiada valia a pena ,agora esta porra de
Vernissage ..E era sempre assim os caras perguntado o que eu fazia com tantos livros. Você troca estes livros por birita? Eu tive que passar muita parafina Pra não escorregar do fio...Tem que ser na maciota, não pode ofender o cara que não tem opção de porra nenhuma nas quebradas; é tv. e boteco e a tarde babando na frente dos filhos e da mulher diante desta porra ofuscante. E foi assim que meu profissionalismo na vagabundagem cultural meu levou várias tardes da minha quebrada pro centro da cidade Em viagens de leitura e sempre vendo a paisagem urbana em mudança. Mas o tempo, continua sempre dilacerante e largando tudo para trás como a primeira que você toma de manhã pra parar de tremer. Por vezes, o vagabundo perde o senso e foge da realidade e, se transforma numa pintura de Chagall e viaja. E, eu viajei num alcoolismo que durou quase vinte anos; mas, o que é do homem o bicho não come e, sempre na minha e quando tive que mostrar a sola da chuteira: mostrei com força e decisão e ninguém na minha quebrada embaçou na minha porque sempre respeitei quem me respeitou.. Mas, chegou o dia de bater aquele pênalti. viver ou morrer!! Viver meu chapa e; segurei com força nas mãos da mesma família que viu brotar esta coisa que nasceu comigo e suportaram minha opção de se profissionalizar na vagabundagem ,porque sabiam que a essência é uma coisa sua, nasce contigo e nem o alcoolismo esmaga ela. A vagabundagem esta na alma de quem ama a vida dentro de uma loucura sem dimensão e, com uma densidade pertubadora para as pessoas que seguiram só as regras do caminho que interessa aos que dominam e, num momento de redenção e reencontro todos nos saímos feridos deste jogo duro, mas com a vida e o espírito fortalecido pelo placar vencedor da unidade entre eu e minha família. Hoje, estou aos cinqüenta e dois do primeiro tempo foi um jogo conturbado; quem diria, aquela torcida adversária que ficava na beira do campo gritando ;que eu não passaria dos vinte e cinco minutos ficou desnorteada com minha reação. Quem sabe eu não suporto mais uns vinte minutos do segundo tempo.... Clovis de Carvalho

Quatro da manhã

Pulo da cama e lavo a minha cara sonolenta e escovo meus dentes dentro do tanque que tem seu fundo rachado e, a baba branca escorre pelo ralinho enferrujado. minha mãe vai na frente com sacolas em punho cheias de mato; ervas, casca-de-pau, ungüentos e pimentas. ônibus lotado pra cacete, um safado encosta na minha mãe, ela olha pro cara com cara de morte e o puto sai fora.ah..filhodaputa uma hora dessas...uma hora e vinte até o mercadão do Parque D.Pedro II. Aí mais mato, mais casca-de-pau, mais pimenta... outro ônibus e, agora pro Brooklin; feira de bacana com gringos desfilando com suas sacolas com tapeçaria Marajoara. Minha mãe num improviso ajeita uma banca com caixotes e monta sua quitanda com aromas e remédios de mato; eu fico ali por perto olhando ela numa agilidade de serelepe atendendo gringos e gringas com uma fala estranha e uma cara branca igual neve. já vi neve num desenho do pica-pau. Muitas das minhas madrugadas e manhãs foram dentro de ônibus lotado a caminho do Parque D.PedroII; minha mãe sempre procurando me ajeitar num lugar menos ruim, menos lotado; as sacolas com mato e tudo mais iam embaixo do banco de passageiros e, seguíamos pra feiras-livres lá na casa do cacete e; sentido o olhar de gente tão pobre quanto nós nos olhando com aquele desdém de estorvos, ciganos. os ônibus sempre lotados, olhares de insatisfação pra mãe e filho com umas cinco sacolas de coisas e mato. Na feira: chuva, sol, vento e frio, mas a D.Cida estava lá: olha o cheiro-verde, olha o coentro, olha ... e, eu porali sentado comendo um pão e olhando a raça dominante num desfile de roupas e estampas finas; mulheres com seus filhos branquinhos e tão limpos que pareciam pequenos manequins de vitrines.. .Paravam na frente da banca de minha mãe e ficavam numa algaravia dos infernos e tiravam ate fotografia daquela mataiada e, falavam com minha mãe que iriam mandar aquelas fotos pro país deles e, saiam com vários embrulhos de jornal cheios de alecrim, hortelã, guiné, guaco e a porra toda .Todas estas gringas e outras não gringas destas feiras de bacanas não carregavam sacolas, nem tão pouco seus filhos branquinhos e limpinhos, quem fazia este serviço pesado e explorador eram moleques tão pequenos quanto eu, alguns tão esfarrapados e com cara de fome que ate eu ficava chateado olhando pra eles. Numa destas feiras lá pro lados do Morumbi, conheci um neguinho chamado Luizinho, a mãe dele vendia cebolas e alhos e limões e, ficava ao lado da banca de minha mãe e, uma sempre estava dando uma força pra outra e todo mundo chamava ela de Baiana. O Luzinho neguinho magrinho da minha idade carregava sacolas; um dia ele olhou pra mim e disse; porque não faz carregadô? Tou ajudando minha mãe. Ta nada, você só fica sentado aí do lado dela vendo estes jornais que as madames traz pra tua mãe. eram jornais da Espanha, da Alemanha, dos Estados Unidos.. as freguesas de minha mãe traziam estas sobras e davam pra ela embrulhar suas vendas. Eu ficava ali vendo aquelas fotos, aquelas letras e me perdia em divagações.. Pedi pra minha mãe deixar eu carregar sacolas, depois de relutar e pensar um Século, pra minha alegria e do Luizinho ela deixou. Saímos pra feira; o Luizinho na frente me mostrando como era a abordagem das madames, assim ô: carregadô Senhora? É só isto? Só. aí carrego ate a casa ou ate o carro. Aaí elas te pagam o que foi combinado antes. fica olhando como faço: se aproximou de uma branquela que comprava tomate; Bom Dia Senhora. carrega-Dô? A branquela olhou pra ele e viu seu sorriso e entregou-lhe as sacolas e começaram a combinar a merreca. ele olhou pra mim e de canto de olho me indicou uma loira na banca do lado; lição apreendida lá fui eu: Bom Dia Senhora, Carregado? ela olhou bem pra mim e disse: não obrigado. fiquei furioso, com certeza, achou que eu não iria suportar o peso de suas sacolas. e continuei ate que na quinta tentativa peguei três sacolas de uma mulher que falava pelo nariz. Meu Deus! Banca de laranja, banca de legumes, banca de batatas.. as sacolas eram pro Atlas carregar e não eu. e vai pra lá e vai pra cá e o peso aumentado, quando passei na frente da banca de minha mãe; senti que ela olhava o Cristo indo pro Calvário, carreguei estas sacolas até um prédio quatro esquinas acima da rua da feira.na portaria, o porteiro ,ficou olhando pra mim com aquele olhar de vai ficando aí seu ladrãozinho de merda; a mulher enfiou a mão na carteira e me deu dois cruzeiros. meus braços pareciam que tinham sido esticados nos brinquedinhos do Doi-Codi, mas eu tinha ganho dois cruzeiros pra dar pra minha mãe. foi assim meu batizado de carregado; eu era um moleque de doze anos, que saia da feira pra escola e a noite tomava um banho de bacião de zinco pra dormir e começar tudo de novo na próxima madrugada. quando dei os dois cruzeiros pra minha mãe nunca esqueço o brilho nos olhos da D.Cida. aí fui liberado pra ser explorado pela Burguesia. Quase no fim da feira encontrei o Luizinho, aí Alemão, foi assim que me chamou desde o dia que nos conhecemos. Vi você fazendo vários carregado Alemão deu sorte hein? fiquei olhando na cara dele e sorri peguei no braço dele e disse: vamos ali tomar um barato? entrei no boteco do Portugûes e pedi: ô Seu Joaquim, o cara do tomate ta pedindo um pinga e um guaraná. paguei peguei o copo de pinga e o guaraná e saímos para trás de uma banca que estava sendo desmontada, rapidamente despejei o guaraná dentro do copo americano com três dedos de cachaça e dei logo uma beiçada, o Luizinho ficou olhando pra minha cara e disse: você bebe pinga, Alemão? Eu bebo não quer não? tomou o copo da minha mão e largou metade do copo goela abaixo. Nossa irmandade começou neste dia atrás daquela banca. Quatro da manhã. estou lavando a mesma cara sonolenta e escovando os dentes no mesmo tanque e, vejo minha mãe despejando meia garrafa de pinga com carqueja que ela encontrou no meio da minhas coisas muquiadas no guarda-roupas meu e de meu irmão. Enquanto a pinga verdinha misturada com minha baba branca escorria pelo mesmo ralo enferrujado uma náusea enchia meus olhos de lágrimas. minha mãe furiosa me dava uns cascudos e falava que onde já se viu uma coisa destas; um moleque que não saiu nem dos cueiros já ta bebendo pinga. Meu Deus! Era o inferno que se anunciava. Ônibus lotado, saco-las cheias de mato, gente pobre como eu olhando feio pra mim e pra minha mãe, marreteiros, estorvos, eu as encarava como um cachorro encara o outro quando quer tomar seu osso ,aí elas abaixavam o olhar e foi assim durante um bom tempo. Um dia nesta mesma feira abordei uma senhora alta, loira, e bem arrumada, é lógico. Carregado, Senhora. ela olhou nos meus olhos e passou a mão no meu rosto com uma leveza até então pra mim desconhecida e, sem falar nada passou suas sacolas pra minha mão: vi seus olhos brilharem com uma expressão tão triste e depois ouvi sua voz calma e quase inteligível para meus tímpanos .come sichaama? Clóvis. que bôonitun. Caminhamos pela feira e quando as sacolas começaram a pesar pra caralho, ela mesma carregou as mais pesadas; entrou comigo no prédio e o porteiro ficou mudo. No apartamento dela, depois de ajeitar as sacolas num canto disse; esperre um porrquinhô. e sumiu pelo corredor do ap. voltou com camisetas e mais um monte de roupa e alguns livros; colocou tudo numa sacola e enfiou na minha mão cinco cruzeiros. passou outra vez a mão no meu rosto com a mesma suavidade e disse que na próxima semana ela estaria na feira na mesma hora. sai voando do ap. dela e, na portaria dei um ate logo pro porteiro que ficou olhando a sacola na minha mão. N a ponta da feira dei de cara com o Luizinho; já fui falando; olha só Luizinho, o que aquela mulher me deu. Caramba Meu quanta coisa. tem ate livros? mostrei tudo pra minha mãe. e começamos a olhar o que era tudo aquilo: calças cumpridas, camisas, roupas de meninas pequenas; eu disse pra ela que tinha duas irmãs pequenas. os livros eram de língua francesa com muitas figuras. Carreguei sacolas pra esta senhora que sempre que eu ia ate seu apartamento eu voltava com mais roupas e livros. Ela comprava coisas com minha mãe e sempre falava com minha mãe. tudo que soube dela: era que nunca teve um filho. depois; eu e o Luizinho fomos pra outra feira.na rua Santo Antônio no Bexiga. Claro, depois de convencer minha mãe que não teria problema nenhum e, que eu estaria mais perto do Parque D.Pedro II ;o que facilitaria minha volta mais rápida pra não perder nenhuma aula; tudo armação minha e do Luizinho pra ficar solto e longe da proteção de nossas mães. Então começávamos a semana na terça no Bixiga o resto da semana acompanhavámos nossas mães nas outras feiras. Sabíamos que a grana era bem menor no Bexiga, mas o que valia era estarmos longe do olhar protetor de nossas mães que faziam marcação de zagueiros em final de campeonato em cima da gente. Estávamos fazendo esta feira mais de um mês e ali era escravidão infantil; ladeiras pra caralho e, muita gente unha de fome querendo Arrancar a pele dos pivetes que carregavam sacolas. Mas, era a liberdade de não ter ninguém te vigiando que valia. Eu tinha várias freguesas nesta feira e, ficava na boca da feira só esperando os meus algozes com suas sacolas de naylon e lona. Bom Dia, e já ia segurando as sacolas. Uma terças desta estou no meio da feira andando descontraído procurando carga; ouço aquela gritaria do Caramba: pega ladrão! pega ladrão! Parei e fiquei de longe ali só olhando o mo-vimento. passou o fuá continuo andando na feira e, e me oferecendo pra fazer o Serviço sujo, pesado e barato. Carregado? não obrigado. Por vezes, era um não obrigado com tanta indiferença que eu tinha vontade de latir, grasnar e morder aquela gente. não obrigado. Não tinha feito nenhum carregado ainda; quando chego perto da banca de bolacha vejo o cara da banca olhando pra mim e falando com dois gambés. Porra, não deu outra: para aí! parei e gelei e, os gambés já foram pegando meu braço com aquela delicadeza peculiar dos ho-mens da lei; cadê seu amiguinho? Cadê?? que amiguinho respondi com o braço sendo torcido pelo animal fardado, aquele ladrãozinho de merda que sumiu porali ,e me mostrou uma rua transversal e, foi me arrastando pra rádio patrulha o único fusquinha feio do mundo. Entra aí, e a sapaiada olhando como se eu fosse o mais terrível dos facínoras. Eu já chorava de medo e, ficava pensando o que poderiam fazer comigo; eu vi várias vezes como os homens da Lei agem com os mais fracos na minha quebrada. Senta aí. Sentei no banco de trás e tentei dizer que era só carregadô que não era ladrão, que tinha pai e mãe... Cala a boca pivete, ordenou o filhodaputa de farda. Calei. Então; o outro gambé Foi buscar a mulher que havia tomado um bote e ficou sem a carteira; um dos moleques que me conhecia e era da minha vila; aproximou-se da rádio patrulha E disse pro gambé: Seu guarda, eu conheço este moleque aí e, apontava pra mim. E daí? Ele mora na minha vila e não é ladrão e trabalhamos nesta feira faz um tempão. Espera aí, disse o gambé pro pivete meu chapa. mexeu no rádio da rádio patrulha rss rsrs falou umas coisa que não ouvi direito e saiu pra fora. Nisto vem o outro filhodaputa fardado com a mulher que vacilou e levaram a grana dela; era uma senhora gorda e estava furiosa, olhou bem pra minha cara pelo vidro da rádio patrulha, olhou de novo e, fez sinal negativo com a cabeça pro gambé chefe. não é ele, ouvi ela murmurando entre os dentes. mas o cara da banca de bolacha disse que já viu os dois na porta do boteco da esquina tomando cerveja, ouvi o gambé argumentando. Ei Seu guarda. Ei Seu guarda era o pivete da minha vila. Que por uma sorte muito grande viu uma das minhas freguesas e, foi ter com ela sobre o que acontecia comigo; minha freguesa chegou e olhou pra minha cara de medo dentro daquela rádio patrulha e, E vi sua expressão de indignação. Ela se apresentou aos gambés e foi logo dizendo que me conhecia, que eu era o garoto que carregava suas sacolas todas as terças-feiras e, isto já fazia tempo e, disse também que havia mandado eu levar as sacolas dela pro ap. e nunca sumiu nada e, pra arrematar disse que se eu fosse pra delegacia ela iria junto. Enquanto tudo isto acontecia do lado da Rádio Patrulha, eu ali dentro ficava imaginado o que estes dois gambés do caralho poderiam fazer comigo. Eu não parava de pensar aquele monte de merda, que se pensa quando se esta numa fria, mesmo sendo inocente, porque eu já sabia que pra polícia não existe inocente. Ia ficar pensando que o Brasil era tricampeão do mundo. Que massacre! De repente o gambé chefe mete a cara dentro da Rádio Patrulha e diz: sai daí pivete! Nunca ouvi frase mais linda na minha vida; Sai daí pivete! A senhora gorda e lesada saiu fora e o túmulto começou a diminuir. Sai, e minha freguesa passou a mão na minha cabeça e disse que estava tudo bem. Os gambés não falaram porra nenhuma Entraram na Rádio Patrulha e foram embora foi o que me aliviou quando vi o fusquinha descendo a rua que caia na Nove de Julho. filhosdaputa. falei. Depois da onça morta qualquer vira-latas sobe em cima. Minha freguesa depois de ouvir minha história foi comigo na banca de bolacha falar com o cara de safado e alcaguete. Ela era a educação em pessoa; Bom Dia, como vai? O cara Me olhou e baixou o olhar e mandou: olha senhora, eu falei pros policias que as vezes vejo ele ,e apontou pra mim, com o outro moleque que roubou a carteira daquela senhora na porta do bar do Turco tomando cerveja juntos.. não deixei ninguém falar e fui me explicando: sim, as vezes estou no bar e ele me oferece um copo de cerveja aí bebo; mas isto não quer dizer que sou amigo dele. Se São Pedro negou Cristo três vezes ,eu não poderia negar o Luizinho uma vez e ainda sobrou duas vezes pra negar ele. Minha freguesa olhou na minha cara e bem incrédula e disse: você já bebe cerveja? Meio sem graça, respondi que as vezes bebo um copo quando me oferecem, mas isto é bem de vez em quando.se eles soubessem que tomavámos um café de manhã com bagaceira eu e o Luizinho? porra.. Mas, olha senhor, ele pode até tomar um copo de cerveja, mas não é ladrão já mandei ele varias vezes pro meu ap. com as chaves e depois ele me entrega a chaves no meu trabalho. O cara de safado e alcagüete me olhou com aquele olhar de depois você vai ver seu ladrãozinho e, se desculpou pra minha freguesa e pra mim. Foi a glória xará! Enquanto fazíamos a feira minha freguesa conversou comigo e disse muitas coisas sérias num tão brando que eu prestei atenção. Minha freguesa morava ao lado da G.V. .Ficou uma meia hora falando comigo me serviu um sanduba tão gostoso com coisas que eu nem sabia o que era e uma coca. olhava pra minha cara com tanta ternura que fiquei sem graça. Depois me deu dois livros :um de história e um de geografia Que eram ilustrados e tão novinhos que tremi de emoção e, me deu a grana que era sempre mais.. me beijou a testa e disse: semana que vem me espera na entrada da feira agradeci tudo que ela fez por mim ,pelos livros, pelo sanduba, pela coca.. seus olhos brilhavam e os meus também, desci e vi o olhar do porteiro olhando pra mim indgnado por ter usado o elevador social. o raça do caralho. quando eu sentia este tipo de olhar sobre mim, minha defesa era coçar o saco com tanta fúria que o cara pensava que eu iria arrancar meu saco e jogar na cara dele. filhodaputa. De volta pra feira, na rua Itapeva, estava o Luizinho me esperando, ele sabia que eu sempre voltava porali depois de sair da casa desta Santa. Porra meu, caralho. você quer me foder seu neguinho do caralho? Ele riu e, me contou a parada. Aquela gorda maldita um dia combinou com ele um preço e depois de gastar toda a grana, disse-lhe que iria paga-lo na próxima feira ,e isto já ia um mês, aí o Luizinho se juntou com dois ladrãozinhos de merda que tomavam cerveja com a gente e, roubaram a vaca gorda. Entramos no boteco que fica em frente a Vai-Vai; o moço o cara da mecânica ta pedindo meio copo de pinga e um guaraná. O cara serviu o Luizinho pagou saímos e sentamos perto do posto gasolina no meio dos carros estacionados e rimos rimos e ficamos bêbados. De volta pra feira encontro meus camaradas da minha vila, ptuz, foi a maior alopração: aí chorão, aí presidiário, aí do pavilhão nove...descemos todos pro Parque D.Pedro II fazendo uma arruaça do caramba. O cara da banca de bolachas quando me viu de novo com o Luizinho e outros pivetes,simplesmente amarelou e vi ele engolindo seco sua ira.O que agente roubou de bolacha na banca deste filhodaputa..Toda terça- feira voltava pra casa com bolachas pras minhas irmãs.. Todos olharam meus livros e gostaram. Eu e meus camaradas íamos pro Itaim Paulista e o Luizinho pra favela da V. Prudente, então nos despedíamos porali tomando mais uma.. moço o cara Que vende abacaxi ali quer uma pinga e um guaraná....só eu e o Luzinho que bebia daquele copo.. Do Parque D.PedroII até O Itaim Paulista era uma viagem de uma hora e meia; com meus livros e sentado no cantinho no fundo do ônibus e, bem embriagado abri meu livro de geografia e Acabei dormindo numa ilha do Pacífico.  Clóvis de Carvalho

MOMENTO NUM CAFÉ. MANUEL BANDEIRA.

Quando o enterro passou Os homens que se achavam no café Tiraram o chapéu maquinalmente Saudavam os mortos distraídos Estavam todos volt...