quinta-feira, 18 de setembro de 2014

roda gigante

Ah! Sim. era pra valer que a roda gigante girava. rodava. e todos nós comíamos aquelas coisas espetadas em palitos. porra. aquela molecada do caralho, ali correndo pra lá e pra cá no meio daquelas cerquinhas de ferro pintadas de verde-escuro. porra era uma farra dos infernos todos correndo porali como se a vida não fosse passar...todos. nós sabíamos que nada tinha mais sentido na vida que ficar olhando a roda gigante. meu, quando a Dalila, aquela mulher que cobrava os ingressos pra embarcar na roda gigante, vacilava; íamos de dois em dois pelo vão da roleta e da cerquinha, rápidos como só moleques sabem ser numa dessas. subíamos na roda-gigante. nossa que felicidade. era a gloria olhar tudo lá de cima. não acreditávamos no que víamos: nosso campinho lá embaixo com suas traves de galhos de eucalipitos, e suas redes com sacos de farinha(ainda não existia a merda de sacos de plásticos)e, olhávamos o riozinho que nadávamos junto com os peixinhos, engolíamos guaruzinhos pra apreender a nadar. Era uma felicidade tão indescritível olhar tudo lá de cima que nunca notamos a brevidade da felicidade, tão rápida como a subida e descida da roda gigante.. que estampava na cara nossa uma estampa que se foi de todos nós. depois desta fúria emocional partíamos pra outra rodada de doidices. sempre tínhamos um dinheirinho das porcarias que vendíamos no ferro-velho. durante o dia saíamos catando toda espécie de tralha que encontrávamos nas ruas. juntávamos tudo. levávamos tudo num carrinho de mão e ficávamos olhando aquele filhodaputa do ferro-velho pesar nossas tranqueiras. que ladrão. Mas era demais. repartíamos a grana e corríamos cada um pra sua casa. tomava aquele banho no bacião de zinco. roupa limpa e tão gasta como aquela conversa de que o Brasil é o pais do futuro.. que merda. nos encontrávamos na esquina. éramos seis ou sete moleques. O mais velho tinha nove anos. e não era o chefe. era o mais velho. meu irmão saia na porrada com ele toda hora. eram amigos e brigavam por qualquer merda. nem ligávamos mais. porra uma tarde no parquinho era tudo pra gente. sabíamos que existia televisão, mas isto era coisa da cidade. sabíamos que existia boceta.. mas também não tínhamos visto...era demais. uma tarde daquelas estávamos olhando a Dalila, esperando ela dar aquele vacilo fundamental, caralho, a roda gigante foi parando os ferros rangendo as engrenagens ate pareciam que estavam moendo cana. rangendo muito. a Dalila vacilou legal. foi vupt! passamos os seis ou sete de uma tacada só. e fomos nos amontoando junto com os pagantes.um bando de otários. e quando o Zé Mané ligou a roda gigante começamos a gritar todos juntos e a tacar papéis uns nos outros Era uma algazarra tão demoníaca que o cara lá embaixo gritou: os seus filhosdaputa para com esta zona.um de nós. não sei quem arrancou a rola pra fora e começou a mijar. aí foi foda. seis ou sete pintinhos desaguando. o filhodaputa do Zé Mané parou a roda gigante e começou a xingar todos nós de vários nomes daqueles.. e foi rodando a roda gigante bem devagar a arrancando cada um de nós no tapa. cada um ganhou o seu. saímos correndo e claro pegamos vários tecos de tijolos e mandamos no barraco de zinco que o filhodaputa morava. e saímos correndo pra beira do riozinho onde tínhamos nossa cabaninha de se esconder. era um buraco que cavocamos no barranco e tapamos com plantas e outras merdas. e, ali ficamos um tempo rindo e comendo aquelas coisas espetadas em palitos. cara .quando chegamos em nossas casas.. não teve perdão. Nossas mães lá estavam com aquelas cintas nas mãos. por isto fizemos um pacto: vamos descobrir que deu a letra. acabamos descobrindo que a Dona Amélia estava na roda gigante e foi respingada pelo nosso mijo. porra. alguém disse: vamos destruir o jardim dela. idéia nem discutida vamos pra cabaninha bolar nossa vingança. esperamos uns dias e numa noite daquelas partimos pra destruir o jardim daquela arrombada. demos um osso pro Lord e, passamos por baixo da cerca ,direto pro canteiro de rosas, o xodó da dona Amélia, não ficou uma rosa no pé. que judiação. seis ou sete moleques furiosos é demais. arrasamos e, fomos pra casa dormir. Dona Amélia chorava e dizia pra minha mãe que apoiada no portão de bambus; que tinha visto meu irmão e outro de nós se atracando no jardim. caralho! meu irmão e o mais velho, começaram a brigar do outro lado da gente para ver quem fodia mais o jardim da Dona Amélia e, como estávamos do outro lado fodendo a lateral do jardim, não vimos os dois filhosdaputa saindo na porrada do outro lado do canteiro. a Dona Amélia viu.. malandro. Tivemos trabalho pra uma semana replantando tudo que destruímos e claro no que não tocamos; tivemos que tocar. que piaba xará. todos nos tínhamos vergões, uns mais outros menos, mas todos tinham. depois deste episódio separávamos meu irmão e o mais velho de toda doidice que íamos praticar.. mas não tinha jeito.. os filhos da puta continuavam brigando. era foda.. era demais... Clovis de carvalho.


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