segunda-feira, 29 de setembro de 2014

ANJINHO DE PROCISSÃO

Nasci bem na divisa do Estado de São Paulo com o Mato Grosso e fui sendo criado na Fazenda de Seu Antão; onde minha mãe morreu de tuberculose e de um desgosto dos infernos; Meu pai tinha fincado pé no mundo e depois que nasci minha mãe morreu, dizem que só estava esperando eu nascer pra partir, é o que dizem as pessoas mais próximas de mim. A irmã de Seu Antão, uma destas beatas que não casou-se nem tão pouco, teve filhos; me adotou e tanto era sua fissura por um filho, dizem que até no peito dela eu mamei; ela me pegou no parto fúnebre de minha mãe. O sonho de D.Maria Ladiva, era este o nome dela; era que eu fosse padre e, muito cedo começou com esta história de me empetecar de goma no cabelo e enfiar uma bata branca com asinhas também brancas e, aquelas sandálias de tiras que sobem até dois dedos abaixo dos joelhos, e claro, aquela auréola de penas de galinha.. tive uma infância solta e cheia de mimos e de segredos; ainda menino senti várias vezes o olhar de Seu Antão sobre mim; enquanto brincava com brinquedos que, por vezes, chegavam de outros países, trazidos nas bagagens de amigos da família. A cada véspera de qualquer dia santo eu penava na preparação para ser o Anjinho de Procissão. Era aquele esmero exagerado das beatas em cuidar de mim como se eu fosse um bibelô sagrado. Mas, fora esta encheção de saco; tudo era maravilhoso. Estudava muito. Aos treze anos, estava livre do Francês e do Inglês, mas ainda tinha aquelas tardes em Frente Ao piano com D.Esther tentando fazer meus dedos tirar notas perfeitas de tudo quanto era música de concerto, que era moda na Europa.. Meu Deus ,que inferno! Como foi ficando cada vez menos provável que eu seria religioso; várias vezes, no decorrer de minha infância pré- senciei discussões de Seu Antão com D.M.Ladiva sobre minha formação. Seu Antão, não alisava e dizia: Você pensa que este menino nasceu pra falar estas línguas enroladas e tocar piano nos seus chazinhos da tarde?; .graças a Deus ele tem o gosto pelo mato, pelos animais e pelo tudo que você diz ser nada e; você não viu o olhar tinhoso dele quando tem gente querendo me enrolar: você é louco Antão, falar uma coisa destas do inocente, você desviou ele do caminho que foi traçado por Deus e você vai pagar por isto, se já não esta pagando. Nem nas procissões ele não quer ir mais, ontem, aos suspiros disse ela : que a festa de São João deste ano vai ser a última e desabou num choro tão sentido e profundo que até me remexi no meu esconderijo, que era atrás de uma cristaleira.. E, depois de outras acusações mais fortes que entrava do lado de Seu Antão: o padre Silas, as beatas e a formalidade de tentar me transformar num almofadinha destes que não valem merda nenhuma; do lado de D.M.Ladiva ouvia-se: por que não fez isto com teu filho? Por que não fica no “teu mundo” sozinho? E.. cada um saia para o seu lado. E sempre na hora do jantar era tudo passado os dois tinham um certo pacto, Que na hora das refeições estas conversas eram proibidas, mesmo que às vezes, a situação Exigisse umas farpinhas para serem servidas com a sobremesa. e; também era raro o dia que não tinha aqueles comensais que de tanto estarem ali na hora do jantar nem eram mais convidados. Na noite da véspera da Festa de São João, sorrateiramente, Seu Antão com Uma conversa macia encantou a todos com o presente que desejei ganhar desde que era um pirralho destes que sentam pelos cantos das casas e, que por vezes; conversam com passarinhos.., e Seu Antão disse com galardia e uma propência à ser aplaudido pela sua honradez e visão de futuro e, fui ouvindo que tudo estava pronto para a minha partida para São Paulo para estudar a ciência que sabia do aprendizado na lida espontânea do campo vendo como Seu Antão sabia quando chovia; quando era coisa braba, daqueles ventões de levar nossa alma pra tão longe que não se acharia mais e, sabia tanto que por vezes seus olhos se banhavam no emaranhado do capim que cresce dentro da gente em manhãs tão vistosas aos olhos que sonham com aquilo que nunca pensaram ter e ,,,perdido dentro da audição dos aplausos finais de seu discurso Seu Antão esforçava-se para agradecer á todos. Eu fiquei nos braços de D.M.Ladiva por uma eternidade revendo paisagens de nossas tardes na varanda e sem voz dentro da gente. fui uma comunhão. E ,depois de toda espécie de hipocrisias que existe ser cortejada como entrada; minha vida seria outra;. esta era uma coisa que sabia que existia e não sabia como era ;mas, era uma sensação de leveza que se eu pulasse neste dia pra longe de tudo tudo ;eu seria livre! Eu já estava em São Paulo havia dois anos ,quando numa tardes destas que você esta poraí Andando e pensando num monte de coisas que não se resolvem na vida, na minha vida, e; Olha tanto o horizonte que teus olhos mentem uma luminosidade d”água que fica como uma aquarela no punho da camisa; então acontece: a velocidade de nosso tempo é tão efêmera que recordaríamos este instante com uma falsa precisão de gestos e tatos em noites de segredos e ajustes. E, eu sentido o aroma daquela esperança dos que sonham com um cotidiano menos abrupto, mas, tudo que vivi foi o vazio da relações de tatos olhares armados de uma loucura tão usual que tudo era para mim; só mais um grande ensaio da sala de jantar de Seu Antão. Aqui nesta cidade, tudo é tão moderno e esplendoroso que quem tinha o pôr-do-sol invadindo portas e janelas e, sentia a fina língua da pétala macia da neblina que cobre toda nossa vida de meninos correndo na poça d”água. chapinando. senti o frisson das mulheres que caminham com olhos fortes num olhar de reconhecimento que seu tempo é de colheitas e partilhas e isto é só delas e sentem Que só elas possuem; senti a anestesia dos costumes e por vezes era para chorar mas muitas eram pra rir, e ria de tanta coisa que sabia e que aprendi com outro nome e executado de outra maneira—Seu Antão era uma presença na minha vida! Eu sentia falta de D.M.Ladiva que em tardes que corria pelas varandas sentindo os aromas que investigam os nossos paladares com sua magia de nos dar o gosto do bolo de fubá que mais gostamos sem tê-lo que provar e no revoar dos pássaros ela dirigia sua voz forte e Berrava meu nome com tanta candura que por vezes eu imaginava que isto era uma mãe; e me perdia em divagações de relembrar cenas cotidianas que passaram por mim por olhos de uma beata que sob a égide do pecado e da Mão de Deus pesando sob sua sombra na culpa que o perdão da cunhada não chegou e foi se alongar nas capoeiras intrincáveis do emaranhado das relaçoes e; desistiu de mim: ao ver eu enfiando um punhal num porco gordo que Seu Antão acabará de dar com o nó do machado na testa; eu tinha nove anos. E foi neste mundo solto e recebendo os melindres de uma educação tão Européia que tudo é diferente de dar aquela mijada no formigueiro e não dar tempo de correr e algumas lava-pés Alcançam por de dentro seu pé do pequeno sapato fino que usava pra correr pelas tardes na varanda... E por vezes, caminho nas mesmas tardes de estampas e memórias que se ajuntam como os brinquedos do meu quarto e não tinha com quem brincar. E toda minha vida que se constrói e se consome num silêncio de manhãs no artifício de surpreender o sol e buscar qual máscara usarei enquanto estiver nesta cidade tão moderna e esplendorosa.. No Mato, lá enfiado eram minhas tardes que não tinha piano e que de tão errantes minh”alma; era do vento que me tomava todo e a volúpia desta desfiguração pelo vento fortíssimo de fins de tardes de Janeiro eu era uma parte daquela paisagem devastada pela fúria do vento.. Aquela ocupação de todas suas coisas ; é que toma seu tempo e, muitas destas cartas longas de D.M.Ladiva eu relia como uma primeira emoção inaudita. E sentia a mão forte e sua sombra sempre esteve ao meu lado mesmo eu não querendo pertencer ao que pertenço...depois, tudo a nossa volta começou a ficar pequeno e oval e toda maneira de sonhar era sempre um pequeno vislumbre do nada que existiu entre eu ela. livre como cheguei voltei pra ser de novo tudo o que sempre fui ...enfiado no mato sentindo o filtro do fachos do sol que recebem meus olhos ávidos de tudo. E incerto como toda a existência que não é prova de nada. Amar suas entranhas acostumando com o tamanho fedor dos avessos e desencontros de toda minha vida Voltar ao passado é só aquele medo do escuro que se foi e toda a frescura da manhã manhosa do despertar é sempre o futuro que acaba de chegar e que por outros caminhos; exige no mínimo encanto! E, hoje metido com todas as coisas que Seu Antão deixou pra que eu cuidasse; depois do derramar do rio houve um sol tão forte que nossas coisas amarelaram e ficaram turvas nossas vistas de tanto não querer ver que é o cotidiano que ramifica a hera que cresce dentro da gente...Encontro os mistérios nos mesmos lugares da casa e olhares são de reencontro e paz; sinto aquele aroma dos varais que são velas içadas dentro de nossa memória em dia de navegação tranqüila, de tantas peripércias Que ficaram presas nas teias de aranha daquele quarto onde o padre se enforcou e; depois de morta D.M.Ladiva sobrevoava uns vastos calipais que secam nossa seiva e nos endurece os laços que circulam a nossa volta num incessante cercear de sobrevôos e vôos e; tudo Sob o sol do resignado cotidiano; minha existência e o todo que restava dela era um apelo de reencontrar com o entendimento de ser como se sente diante do que se foi e; vivendo a mercê do pôr-de-sol que ensina que a beleza é simplicidade de reconhecer que existe algo acima de explicações pra tanta beleza que arraiga nossa alma tão nervosa por coisas fantásticas e tão necessárias. diante desta absurda razão que permeia a vasta imensidão de olhares perdidos presos neste vício que esqueci...consumo! E, no meio de cada ano sento diante dos olhares que sabem de minhas sombras e ventanias Cumprimentam-me com o olhar sereno que desponta em dores mesmas e; perdido no meio de vozes e brindes; reconheço minha memória e oferto afagos aos que enxergam minha brevidade feliz em olhar o facho de luz que cobre o menino que passa vestido de Anjinho de Procissão. Clovis de Carvalho


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