Querido Filho, Oh. sim. tudo é grandioso. tudo tem que ser
grandioso. seja grandioso! Vá e sejas sempre grandioso! .então; é o que dizem
antes de você sair pra fora da pança da querida mamãe: vai ser um menino muito
louco querem so anjinhos e príncipes na estirpe moralista!. aí. você nasce..
vai crescendo e vendo tanta merda num cotidiano de quebrada, de vila, lugar de
esquecimento perene e total e, sente e aprende que o mundo : é só poder que
determina a vida nesta porra. E sente na carne a total disparidade sempre com
muito preconceito por onde você tenta buscar uma vida limpa; outros continuam,
ali, comendo seu arroz com feijão e um ovo frito quando tem; como viver vendo
esta imensa hipocrisia e ficar quieto? Nunca meu...não dá não. Então; você tem
dois caminhos: estudar na Rede Pública que não pode ser pior do que já é, mas,
significa suar sangue por muitos anos e lá na frente tudo pode ficar nublado
como tempo; ou; cair na vida desgraçada que os putos chamam de fácil; um ou
outro vai pela adrenalina, mas a maioria avassaladora foram rejeitados por
todos os lados e não querem mais rastejar nesta porra de vida. e de saco bem
cheio de tudo; segregados por se negar a pertencer à Tudo e ir pelo caminho do
meio sempre aproveitando o vento.... . Os sem-saídas tem uma vida triste e
rápida, meu...na quebrada; o pandeiro é quem dá o ritmo:. no tapa! Tudo aí na
frente do teu dia-a-dia vendo e vivendo sem compreende que coisas diferentes
valem tanto pra uns e outros nem ligam .então. no meio de tudo isto; sobra a
vida pra viver como lhe apraz...bom, vai chegar um tempo na tua vida, que você
não vai ter muita escolha. então ande sempre em frente; vida vale a pena....
que falem.. o passado? Oras bolas.. já foi meu.. .vai se afunda na Europa e
fodase tua mamãe querida.. vai viver como quiser. entende qual é? se joga na
vida meu chapa. vai por você e tudo que precisará é do pôr- do- sol. dizem que
tem um pote de ouro no fim do Arco-Ìris, eu continuo procurando.. Ate.. .
Beijos, teu pai e broder.. Depois de escrever esta carta pro meu Filho. comecei
a pensar numas paradas. bom, não vou mandar porra nenhuma e, sai andando com a
carta na mão. entrei numa rua .entrei em outra e fui subindo e descendo por
vielas e becos e, me enfiando por praças sujas e suspeitas como eu .dei de cara
com um boteco que tomava todas as uns vinte e tantos anos. o boteco continua
lá.. mesma coisa,. igual um monte de gente que conheço. sempre a mesma merda. entrei.
como vai seu filho da puta! .é assim que meus amigos me saúdam. Sumiu ué? foi
enfiando um café nas minhas mãos e sentamos no mesmo lugar que vomitei inúmeras
vezes. o mesmo muro pintado de cal ordinário que vai descascando com o tempo e forma
imagens alucinantes de coisas, bichos, pássaros, bailarinas, duendes e gigantes
e, todo sujo nas laterais de neguinho pôr os pés e dar aquelas catarradas
amareladas. é.. eu soube de você meu chapa .olhamos um na cara do outro e
resmunguei qualquer coisa sobre o café. trinta e tantos anos fazendo café. uma
hora tem que sair bom.. rimos. e você ta legal? Vou bem.. esta ágil para os
seus cinqüenta e seis, levantou-se da mesa e foi cuidar de servir os caras no
pé do balcão. fiquei olhando aquelas caras que nunca vi na minha vida. Repetindo
o que fiz durante uns vinte anos de birita. mesmo gesto. mesma cuspida. e
aquele olhar perdidaço de que a vida acaba dentro daquele copo. o primeiro do
dia. uns me notaram. outros me olharam mas todos são refém da angústia de
deixar o pé do balcão e tentar ver a vida que passa numa velocidade fulgás. comecei
a pensar.. de repente.na minha fuça. cinqüenta anos de vida. e a vida continua
a espreita pelas frestas da memória. porra que coisa. trouxe pra você, sei que
gosta. sorrimos os três. legaal. pão com ovo. não esqueceu hein. enquanto como
o ovo estralado molhando o pão francês na gema cor-de-rosa. Ele começa a
desfilar sua conversa. sempre querendo saber...leio a carta que escrevi pro meu
filho. ele me fala de sua família. ninguém quis tocar o boteco. cinco filhos. dois
vazaram e três continuam morando no quintal nas casa ordinárias que
construíram. sua esposa sempre na lida da casa. lida que não acaba nunca.me
fala de sua vida que não viveu e diz que o tempo passou tão rápido que não viu
nada e poraí vai...conversa vai conversa vem. outro café.de supetão diz: que
nunca entendeu muitas coisas que eu fiz e disse dentro do teu boteco; diz que
sempre soube que eu não era só um bêbado destes e, aponta os caras no pé do
balcão. olho na cara dele e digo que bêbado é bêbado e fodase. tomei mais um café.
pergunta?. tantos anos se passaram, mas nunca esqueci o dia de natal que
você...ficou chorando aí onde está sentado agora. bebeu o dia inteiro e fez
discursos alucinantes a todos que estavam dentro do bar. .olho na cara dele. olho
de novo e vejo como a vida pegou forte com ele. estamos acabados... então; vou
dizer pra você porque não gosto de natal. mais café. claro. A chuva não era de brincadeira.
o asfalto brilhava tal qual uma lâmina daquelas que vai arrastando seu brilho enquanto
o golpe é desfechado. porra, eu corria na chuva igual um vira-latas destes que
não tem casa e, correm da chuva se abrigando em qualquer lugar.eu corria e
chorava. alguém me pegou pela minha mão e me levou pra sua casa. depois da
chuva e recomposto.um cara de cinco anos não sabe bem o que fazer quando vê sua
mãe bêbada chorando e gritando: cadê meus filhos! porra cara. era natal aquela
festa para saudar o nascimento de Cristo. Minha tinha tia e minha mãe que não
bebiam nada, tomaram umas e outras no afã da festa e chaparam de birita. começaram
a chorar e dar vexame. armou aquele temporal. cadê os meninos? porra. ficaram
em desespero de mães bêbadas. quando entrei no quintal e ouvi aquela choradeira
..,saí correndo pra rua. pensei que fossem meus tios brigando. Toda festa deles
depois de várias biritas na mente brigavam. saí vazado pra rua e começou à chover.
forte tempestade. raio. relâmpagos e ventos fortes. comecei a correr sem rumo
na doida.um cara que me viu correndo e chorando me pegou pela mão e me levou
pra casa dele; tinha uma festa pra Cristo lá também. depois de saber onde eu
morava, me levou ate lá. aí não sei quem me recolheu e agradeceu ate umas horas
por ele ter me encontrado. Entra toma uma coisinha comigo?ofereceram.eu corri
pra perto de minha mãe que dormia como um anjinho.eu me acomodei perto do meu
irmão que também dormia e ficamos os três porali. enquanto meu pai e meus tios
se cagavam de tanto beber e falar mal da vida de todo mundo, por que isto; eles
fazem sem festa mesmo. porra, imagine tudo isto no dia de Natal. porque não
gosto de Natal. significa doideira. acidentes de transito, mortes por todo tipo
de farra. esbórnia total em nome de Cristo. O cara nasce numa manjedoura, vive
uma vida alucinada entre as coisas da terra e do céu. sua mulher é muito louca
e sua mãe nunca se pronuncia. seu padrasto é um grande cara que vive de
carpintaria. mas o pai dele é outro e que foi levado por este pai para ter
aquela morte fudida na cruz. Cristo era muito louco. então fazem esta confusão
do e chamam isto de festa. Festa de Cristo. e no dia do teu aniversário o mundo
religioso, comemora com suas mesas abarrotadas de delícias se matam e dormem
felizes. enquanto aí do lado. tem gente sem porra nenhuma pra comer.. tudo
errado meu chapa. dia do nascimento do Cristo era pra ser um dia suave e dado
as reflexões sobre a existência deste cara. querem festa. oh o consumo!.. .eu
não gosto de natal.. eu faço meu natal do jeito que gosto. vou pro mato, fico fumando
um belo baseado e falo com Cristo sobre a possibilidade de eu entender certas coisas
que não entendo. como por exemplo : por que sofremos tanto de saudades? Ficamos
olhando um pro outro por uns instantes. tomei mais café e saí depois de uma
despedida com a promessa de voltar depois.. saí dali em direção ao correio.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
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