segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Camisa de linho branco

Deverás! Foi meu último instante de correr o olhar sem esperança pela vidraça sempre embaçada do meu mundo. só meu. todos a minha volta percebem meu cenho preocupado com as montanhas de nuvens que vão, em mim, movendo-se numa lenta mutação de imagens azuis e brancas. mas, eu não sentia a presença de mais ninguém no trem ,com a cara enfiada na janela sentindo minha alma vazia e infeliz. ... .hoje, estava decido ontem: levantei fumando. Depois de camisa de linho branco estava aprumado e pronto. era sábado; embarco no trem da Luz até o Brás; portas são abertas e o trem exibe seu aspecto de ordem e asseio :tudo mentira! depois de rever a boiada estourar, mas se tivesse dois passageiros, eles iriam brigar, um pra sair e outro pra entrar. embarco: Itaim Paulista, em pé, meto a cara no acrílico da porta do trem que avança e, minhas retinas vão engolindo a paisagem urbana crescendo sempre em eterna desconstrução ;os varais são obras-primas ! continuo doidaço e olhando como a sociedade estabelecida na hipocrisia..; não interessa a classe social esta porra já vem embutida na educação que recebemos de todos os lados.. e rejeitam minhas pupilas que nem cartão de crédito passa.. .o trem avança suave e revejo a paisagem desta cidade veloz que cresce apontando seus dedos imensos em concreto armado sob um perturbado céu sem cor... quando você fica guardado sem fim perde a referência de tempo e espaço; agarrado na memória que lhe apresenta flashs de tudo que foi destruído, subtraído em nome do progresso e tudo que vejo é um emaranhado de botecos; igrejas cada uma com seu Deus levando esta gente pro oco da ignorância; bairros inteiros onde era um pântano imenso com gente vivendo a mercê de caras que usam esta mesma fé em Deus pra prometer dias menos terríveis, que filhosdaputa! A voz metálica anuncia que a próxima parada é Itaim Paulista ,num sobressalto saio de minha letargia e me preparo como se fosse encontrar um velho amigo; mas ,o que encontro é uma estação brincando de Jetsons com espaços pra exposições e outras porras, mas não existe nem uma foto das primeiras estações que morreram pra dar lugar pra esta; que diz que o progresso chegou no bairro. mas, faltou grana pra botarem escadas rolantes iguais das estações dos bairros dos bacanas; capricharam mesmo nas escadas, inclusive nas caracóis ordinariamente estreitas; pra quem não quiser usar a passarela legal que também é acesso ás bilheterias.. ,os caras que projetaram toda esta grandiosidade nunca estiveram presentes num horário de pico pra saber como é foda... saí fora da estação e caminhei um pouco pelas imediações; não sobrou um puteiro dos meus tempos. O XM era a boate de gatas inacreditáveis pra um cara de quinze anos. mas, Lago Azul era na calçada e não tinha segurança era demais aquelas mulheres loucaças dançando na rua; o Olgadora era meu preferido.. mais intimista, aquela luz tingindo tudo de vermelho: putas, malandros e moleques de quinze ..dezesseis.. dançar com aquelas gostosas de sainha coladinha, maluco! transar com uma destas gostosas com uma caranga muito louca; roubada lá pelos lados da Augusta, porra! era legal demais; quando estava num carros destes.. construiria-se uma escola com sua grana.. os mesmos olhos que sempre me olharam como a parte da sarjeta que sou; me olhavam agora como um filho-de-papai de algum homem caucasiano metido na sarjeta da política. agora tudo são lojas de magazine, bancos e gente voando de um lado pro outro pra bater o cartão .. triste pra caralho. contornei por uma ruazinha que era linda e agora só tem gente, desci a rua lateral rumo a estação. e ascendo mais um. trouxe maconha como se fosse pra algum lugar que não existisse a danadinha... nada existe pra mim aqui e voltei pra estação maravilhosa de escadas rolantes pra sacanear. embarquei no trem, agora sentado; a paisagem me tomou por inteiro e fiquei ali olhando o mar de tijolos baianos, zinco e madeira e aquelas telhas com cor de pele de rato que cobre a periferia que estende-se ate onde o céu acaba pro meus olhos cansados e tristes. Elas, que se prepararam pra dar aquele role e, são a minoria entre as que vão dar um trampo nos Shoppings; que deveriam ser casas de arte-natureza pro povo aprender a viver em harmonia com a Sua Mãe...viajei pra caralho. Meu Deus! Tantas gostosas e muitas ostentam aquele celular do caralho no bolso detrás da calça apertada mesmo, dando a impressão de animal rastreado em pesquisa biológica com aquelas coleiras incomodas pra cacete ;que estes caras da biologia botam nos bichos pra fazer um trabalho muito louco de preservação... Vou olhando alguns vagões antigos jogados pela beirada da ferrovia ao lado de grandes construções que ficam para o tempo corroer, por que será que não usam estes espaços pra arte e trabalhos sociais; paredes de tijolos imensos caiados sem nenhuma imaginação; imensos galpões à mercê do tempo, desabando e anulando a primeira memória dos bairros que montam esta cidade que esta ocupada sem conhecimento da urbanização.. Já pensou um Grafite organizado e patrocinado entre cptm e as centenas de fabricas de tintas desta cidade; os muros desta Ferrovia poderiam contar a memória de cada quebrada em frente e verso reunindo gente de cada bairro pra contar sua historia.de novo, viajei pra caralho. ..Tenho mais um aqui no bolso de minha camisa de linho branco, isqueiro no bolso da bermuda caqui e curta no joelhos, e sandálias de petróleo cinzas; faz um mês que usei esta roupa. Ando sempre assim toda vez que saio pra me matar. Brás. embarco pra Luz desembarco. Na rua comecei recitando Augusto dos Anjos: Toma um fósforo! Ascende teu cigarro. E ascendi na calçada da Estação da Luz e, fui direto na direção delas, agora, não conheço nenhuma; percebo uma bunda passando no meio de plantas tão lindamente cuidadas, voltei e fui atrás. tinha uma cara gasta do infernos ,mas o corpo só podia estar no formol pra estar daquele jeito.oi.oi.” Os que estão morrendo, amor. precisam de tão pouco.” .e sorri dizendo: quanto é? vinte? o que você faz por vinte? se o seu pau não tiver nada de machucadinho, chupo sem camisinha, e você gozar rápido demais, agente vai outra vez.. .se eu não gozar rápido demais? fico no prejú? Ri. e disse que tudo bem, ainda dei mais um trago no baseado e saímos pro hotel. lembrança daquela Estação da Luz dos anos setenta. o lugar é outro; tudo ficou mais forte e visível no descuido total da cidade que em sua mutação ficou como um velho no asilo que não tem parentes só a memória roendo lentamente sua solitária espera do fim. quando fumo muito fico assim deste jeito: critico e feliz como se outra realidade me absorvesse me abduzisse deste esgoto que conheço desde ... .totalmente chapado tenho uma saudades do meu tempo; poraqui tudo que já era gasto e mal cuidado ficou assim tão desfigurado; a cidade continua sempre maquiada às pressas pra festas suspeitas que acabam em grandes palácios, numa bandalheira com a grana desta gente que corre por suas entranhas gastas e sujas.. mas; tinha sempre paredes de reboco irregular caiadas num cal pálido e com aquelas florzinhas pintadas na lateral das janelas e suas portas coloniais; altas e estreitas de gradil pintados de azuis ou verdes dos hotéis vagabundos nas imediações da Rodoviária Marechal Deodoro da Fonseca xará.; aqui era demais pra vagabundear tomar todas e sair com elas. E claro descolar uma grana preta dos otários chegando em Sampa, admirados da cobertura colorida da Rodoviária como guarda-sóis numa praia linda e todos chegavam para serem felizes, como eu.um covarde que não tem coragem de tomar chumbinho e; vai olhando toda esta gente como sombras bruxuleantes num velório de uma cidade que morre a cada dia com os desmandos da corja que deixa sempre os que necessitam à mercê do descaso. porra, tou doidaço; o cinema pornô ascendia forte e a Boca Lixo era minha quebrada. muita mulher maluco! sei que nada mais disto existe. Estação da Luz meu eterno ponto de embarque e desembarque ,é ali que descolo uma grana legal tem muito otário na parada. Muito otário. enquanto caminho na rua ao lado de minha parceira por vinte contos, olho de soslaio sua bunda empinadinha num vestido cinza semi- colado no corpo e, com a mão na sua bunda vou olhando uma arquitetura caindo como os dentes podres da boca daquele velho que arrastando sandálias de chumbo e ,morre largado um corredor de hospital público da quebrada; sem receber os primeiros- socorros dos caras, que tratam a cidade assim com governos medíocres e suspeitos pra caralho...fiquei no prejuízo, mas foi divertido ficar ali com a Rute, foi o nome que me deu junto com a mesma história de Hollywood: menina pobre do Interior vem tentar a vida em São Paulo e cai na prostituição. e, você o que faz?—“Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo, eu.. ”estou na rua outra vez.19 anos é tempo pra caralho.. foi neste quarto que comemoramos ontem um mês de convivência. ela saia pra trabalhar do outro lado da rua onde aluga sua boceta por vinte mangos. eu fiquei escrevendo esta porra e lendo coisas que não consegui ler na cadeia, foi lá que comecei ler poesia. eram os livros mais finos e comecei poraí, gostei tanto que não parei de ler e li tantos caras fudidos nesta vida; depois deste impacto da poesia em mim senti que alguns poetas escreveram coisas pra mim e pra todo cara que vazou pelo próprio rumo depois de levar porrada do pai até os oito anos; viver na rua não pra qualquer um não, tem que ser da raça dos vira-latas bem magrelos e fedidos com os eternos olhos remelentos e vazios de qualquer esperança, senão morre logo. Quando saio pra me matar relembro coisas de minha vida e penso nas poesias de caras que falando coisas deles, que também são minhas. beck maravilhoso! Há um mês freqüento o Centro Cultural do antigo Doi-Codi ...vi muita Verâneio Vascaina entrar e sair rasgando lá da boca do predio. tudo mundo sabia o que acontecia ali dentro: era a parada da política. outro ramo e, eles não se misturam com gente de minha espécie.. .gosto de dar meu trampo, no Rush.. .os otários estão imersos em seu horários de escravos; que ira determinar seu futuro de grande consumidor ,e, não se ligam que um senhor elegante, baixo e, sempre com um livro nas mãos trabalha; como velhos tempos, desculpe jovem! E o que tiver no bolso arrasto; e assim vou olhando minha cara de covarde diante de tanta vida que vivi sempre fracassando em tudo que fiz. comecei roubando na igreja; adorava comer aquelas taças de hóstia com groselha, que delícia. Agora, sinto-me detido nesta urbanidade que não vi ficar desfigurada. viajo em vagões que me levam a grandes concentrações de gente; que circulam com aquela velocidade estúpida pra ter grana no fim do mês pra pagar contas. porra que triste! Se você pode ficar alheio e chapado no meio da Estação da Luz olhando tudo aquilo vai se ligar que tudo é como uma grande senzala social; é uma aula que nenhuma universidade pode dar. Oi querida, como foi seu dia hoje? meu ,catei um cara que tinha uma rola deste tamanho, e abre suas mãos numa distância de um palmo. porra me arrombou. ouço suas queixas e faço uma massagem no seu corpo cansado do uso coletivo.na moral. depois me passa uma grana pro meu passeio ali na Cracolândia onde busco uma maconha borracha. é muito louco você ouvir dizer em bocas da ordem e do progresso, que você é o patrocinador de toda esta escória humana infantil-adolescente que trombo enquanto vasculho o traficante que conheço...os caras que abastecem esta porra toda estão em coberturas e com ternos Dior com seus cabelos besuntados de gel; sorrindo em corredores onde o Lobby da Máquina da Droga é ultra-facetado como esta realidade jogada aos meus pés; pivetes de nove anos morrendo empunhando saquinhos de cola e cachimbos de crack, são seus estandartes e ,que já tomaram tanta porrada na vida que tanto faz eles estarem vivos ou mortos, eu me sentia assim.. aí.aí quanto? Trinta! Valeu... nasci tão longe daqui que a única lembrança que tenho com clareza de minha infância: é ver na minha frente aquela estrada sem fim que iria acabar onde estavam construindo uma cidade inteira de uma só vez. era o que falavam todos naquele caminhão com um pano grande igual ao da jangada que ficou parada lá na praia de areia branquíssima ,onde eu meus seis irmão corríamos livres... A cidade nasceu e cresceu e também eu .rodei num 551 nervoso. quando saí; sumi daquela cidade que revelou-se cinza e fria como o concreto de suas formas que Galango nenhum entendia ;depois de dois anos em São Paulo, rodei num 12 forte hein?. Foi um longo tempo olhando a vida por detrás de grades e leis que junta iniciantes com grandes macacos velhos ,aí xará, é a lei do cão e pra não morrer matei; como você mata faz a diferença, eu sei. ele partiu pra cima com seu estilete em punho; com um movimento rápido ergui meu braço direto e recebi o estilete que abriu uma perfuração fina e ardida ,dei-lhe um chute tão foda no saco, que ele ajoelhou-se e soltou o estilete ;agarrei-lhe a cabeça como se agarra a vida que você sente estar por um fio; e, bati violentamente na lateral do vaso, que partiu-se em cacos; numa tesoura prendi-lhe os braços e, com minha mão esquerda agarrei-lhe o pescoço numa gravata para trás e, com a minha mão direta que sangrava; munido de um grande caco de cerâmica do vaso partido, fui-lhe abrindo a face, e o tórax, abri lentamente enquanto ele urrando numa dor descomunal cedia ,e ficava frouxo na minha teia ..ele gritava tanto que nem parecia aquele cara que tentou me estuprar e, fui abrindo-lhe lateralmente também ,abri –lhe numa curva do estômago ate sua virilha direita; ainda vi sua cara de terror quando lhe cravei o teco de louca pontiaguada vazando-lhe o olho esquerdo, seu sangue lavou o canto do boi sob os olhares antônitos de uma meia dúzia de caras.; depois de corta-lhe as bolas e sua rola, enfiei tudo em sua boca aberta de lado a lado, soltei-o. fiquei em pé com as tripas dele nas minhas mãos; todos olhavam como eu devolvia tudo que passei em instituições e outras porras cheias de padres querendo fazer a mesma coisa; tudo sob o aval de seu Deus. filhosdeumaputa! Sentia seu sangue esvair-se num desenho surreal.. vermelho vivo sobre piso cinza-cimento gasto; quando chegou a cavalaria, ele estava aberto como um porco. Então, depois do tratamento especial que lhe dão. Aí, me jogaram naquela escuridão gelada da solitária; perdi a noção de tempo; mesmo ouvindo os caras falando pelo vaso pra que aguentasse mais ,pra que eu ficasse me exercitando pra cansar e tentar dormir naquele miséro colchonte de papelão frio e peçonhento. .foram noites, que jamais me abandonam. jamais! . sai dela com uma pneumonia que deixou meus pulmões fudidos ate agora. Quando saí vivo daquela porra de solitária.eu era olhado com ódio medo e respeito, o tempo passa lento e eu me enfiava neste mundo dos livros fininhos; o Capelão vendo meu interesse por livros me levou pra trabalhar com ele na organização de livros que comporiam a primeira biblioteca numa cadeia pra presos perigosos como eu. começamos organizando prateleiras e depois abrindo cada caixa doada e catalogando cada livro um por códigos e uma numeração e todos pra sua prateleiras: religião, história, matemática, bíblia pra caralho! Revistas de religião Católica Apostólica Romana E toda a literatura de outras religiões. depois eram aquele livros fininhos que eu pegava pra ler pra acabar rápido; o gosto pela poesia foi crescendo a cada descoberta de novos poetas ,por vezes, sentia minha alma aquecida como as manhãs de banho de sol, crescia.. .hoje é outra realidade: tudo é máquina cibernética! Com muito celular, fácil demais pra abraçar. levo vários prum chinês .todo mundo sabe.. ficam neste faz de conta.. então ;resolvi de vez acabar com esta covarde e medíocre vida que arrasto perdido nesta sociedade que não passa de um grande labirinto com a imensa maioria morrendo ali sem ver a luz da saída, da existência. mas, hoje acabo com tudo e quero me matar como antigamente. Saltei do metrô na Praça da Sé e, subi escadas falando sozinho “Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas, os soldados que perderam a batalha, parei pra tragar e continuei, as mães bem mães, as fêmeas bem fêmeas ;os doidos bem doidos” sai na Praça do Patriarca do jeito que entrei no Viaduto do Chá, dei uma pequena corrida apoiei minha mão direita na mureta e saltei na cara da boca aberta do Túnel do Ademar .clovis de carvalho

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