Deverás! Foi meu último instante de correr o olhar sem esperança
pela vidraça sempre embaçada do meu mundo. só meu. todos a minha volta percebem
meu cenho preocupado com as montanhas de nuvens que vão, em mim, movendo-se
numa lenta mutação de imagens azuis e brancas. mas, eu não sentia a presença de
mais ninguém no trem ,com a cara enfiada na janela sentindo minha alma vazia e
infeliz. ... .hoje, estava decido ontem: levantei fumando. Depois de camisa de
linho branco estava aprumado e pronto. era sábado; embarco no trem da Luz até o
Brás; portas são abertas e o trem exibe seu aspecto de ordem e asseio :tudo mentira!
depois de rever a boiada estourar, mas se tivesse dois passageiros, eles iriam
brigar, um pra sair e outro pra entrar. embarco: Itaim Paulista, em pé, meto a
cara no acrílico da porta do trem que avança e, minhas retinas vão engolindo a
paisagem urbana crescendo sempre em eterna desconstrução ;os varais são
obras-primas ! continuo doidaço e olhando como a sociedade estabelecida na hipocrisia..;
não interessa a classe social esta porra já vem embutida na educação que
recebemos de todos os lados.. e rejeitam minhas pupilas que nem cartão de
crédito passa.. .o trem avança suave e revejo a paisagem desta cidade veloz que
cresce apontando seus dedos imensos em concreto armado sob um perturbado céu
sem cor... quando você fica guardado sem fim perde a referência de tempo e
espaço; agarrado na memória que lhe apresenta flashs de tudo que foi destruído,
subtraído em nome do progresso e tudo que vejo é um emaranhado de botecos; igrejas
cada uma com seu Deus levando esta gente pro oco da ignorância; bairros
inteiros onde era um pântano imenso com gente vivendo a mercê de caras que usam
esta mesma fé em Deus pra prometer dias menos terríveis, que filhosdaputa! A
voz metálica anuncia que a próxima parada é Itaim Paulista ,num sobressalto
saio de minha letargia e me preparo como se fosse encontrar um velho amigo; mas
,o que encontro é uma estação brincando de Jetsons com espaços pra exposições e
outras porras, mas não existe nem uma foto das primeiras estações que morreram
pra dar lugar pra esta; que diz que o progresso chegou no bairro. mas, faltou
grana pra botarem escadas rolantes iguais das estações dos bairros dos bacanas;
capricharam mesmo nas escadas, inclusive nas caracóis ordinariamente estreitas;
pra quem não quiser usar a passarela legal que também é acesso ás bilheterias..
,os caras que projetaram toda esta grandiosidade nunca estiveram presentes num
horário de pico pra saber como é foda... saí fora da estação e caminhei um
pouco pelas imediações; não sobrou um puteiro dos meus tempos. O XM era a boate
de gatas inacreditáveis pra um cara de quinze anos. mas, Lago Azul era na
calçada e não tinha segurança era demais aquelas mulheres loucaças dançando na
rua; o Olgadora era meu preferido.. mais intimista, aquela luz tingindo tudo de
vermelho: putas, malandros e moleques de quinze ..dezesseis.. dançar com
aquelas gostosas de sainha coladinha, maluco! transar com uma destas gostosas com
uma caranga muito louca; roubada lá pelos lados da Augusta, porra! era legal
demais; quando estava num carros destes.. construiria-se uma escola com sua
grana.. os mesmos olhos que sempre me olharam como a parte da sarjeta que sou;
me olhavam agora como um filho-de-papai de algum homem caucasiano metido na
sarjeta da política. agora tudo são lojas de magazine, bancos e gente voando de
um lado pro outro pra bater o cartão .. triste pra caralho. contornei por uma
ruazinha que era linda e agora só tem gente, desci a rua lateral rumo a
estação. e ascendo mais um. trouxe maconha como se fosse pra algum lugar que
não existisse a danadinha... nada existe pra mim aqui e voltei pra estação
maravilhosa de escadas rolantes pra sacanear. embarquei no trem, agora sentado;
a paisagem me tomou por inteiro e fiquei ali olhando o mar de tijolos baianos, zinco
e madeira e aquelas telhas com cor de pele de rato que cobre a periferia que
estende-se ate onde o céu acaba pro meus olhos cansados e tristes. Elas, que se
prepararam pra dar aquele role e, são a minoria entre as que vão dar um trampo
nos Shoppings; que deveriam ser casas de arte-natureza pro povo aprender a
viver em harmonia com a Sua Mãe...viajei pra caralho. Meu Deus! Tantas gostosas
e muitas ostentam aquele celular do caralho no bolso detrás da calça apertada mesmo,
dando a impressão de animal rastreado em pesquisa biológica com aquelas
coleiras incomodas pra cacete ;que estes caras da biologia botam nos bichos pra
fazer um trabalho muito louco de preservação... Vou olhando alguns vagões
antigos jogados pela beirada da ferrovia ao lado de grandes construções que
ficam para o tempo corroer, por que será que não usam estes espaços pra arte e
trabalhos sociais; paredes de tijolos imensos caiados sem nenhuma imaginação;
imensos galpões à mercê do tempo, desabando e anulando a primeira memória dos
bairros que montam esta cidade que esta ocupada sem conhecimento da urbanização..
Já pensou um Grafite organizado e patrocinado entre cptm e as centenas de
fabricas de tintas desta cidade; os muros desta Ferrovia poderiam contar a
memória de cada quebrada em frente e verso reunindo gente de cada bairro pra
contar sua historia.de novo, viajei pra caralho. ..Tenho mais um aqui no bolso
de minha camisa de linho branco, isqueiro no bolso da bermuda caqui e curta no
joelhos, e sandálias de petróleo cinzas; faz um mês que usei esta roupa. Ando sempre
assim toda vez que saio pra me matar. Brás. embarco pra Luz desembarco. Na rua
comecei recitando Augusto dos Anjos: Toma um fósforo! Ascende teu cigarro. E
ascendi na calçada da Estação da Luz e, fui direto na direção delas, agora, não
conheço nenhuma; percebo uma bunda passando no meio de plantas tão lindamente
cuidadas, voltei e fui atrás. tinha uma cara gasta do infernos ,mas o corpo só
podia estar no formol pra estar daquele jeito.oi.oi.” Os que estão morrendo, amor.
precisam de tão pouco.” .e sorri dizendo: quanto é? vinte? o que você faz por
vinte? se o seu pau não tiver nada de machucadinho, chupo sem camisinha, e você
gozar rápido demais, agente vai outra vez.. .se eu não gozar rápido demais?
fico no prejú? Ri. e disse que tudo bem, ainda dei mais um trago no baseado e
saímos pro hotel. lembrança daquela Estação da Luz dos anos setenta. o lugar é
outro; tudo ficou mais forte e visível no descuido total da cidade que em sua
mutação ficou como um velho no asilo que não tem parentes só a memória roendo
lentamente sua solitária espera do fim. quando fumo muito fico assim deste
jeito: critico e feliz como se outra realidade me absorvesse me abduzisse deste
esgoto que conheço desde ... .totalmente chapado tenho uma saudades do meu
tempo; poraqui tudo que já era gasto e mal cuidado ficou assim tão desfigurado;
a cidade continua sempre maquiada às pressas pra festas suspeitas que acabam em
grandes palácios, numa bandalheira com a grana desta gente que corre por suas
entranhas gastas e sujas.. mas; tinha sempre paredes de reboco irregular
caiadas num cal pálido e com aquelas florzinhas pintadas na lateral das janelas
e suas portas coloniais; altas e estreitas de gradil pintados de azuis ou
verdes dos hotéis vagabundos nas imediações da Rodoviária Marechal Deodoro da
Fonseca xará.; aqui era demais pra vagabundear tomar todas e sair com elas. E
claro descolar uma grana preta dos otários chegando em Sampa, admirados da
cobertura colorida da Rodoviária como guarda-sóis numa praia linda e todos
chegavam para serem felizes, como eu.um covarde que não tem coragem de tomar
chumbinho e; vai olhando toda esta gente como sombras bruxuleantes num velório
de uma cidade que morre a cada dia com os desmandos da corja que deixa sempre
os que necessitam à mercê do descaso. porra, tou doidaço; o cinema pornô ascendia
forte e a Boca Lixo era minha quebrada. muita mulher maluco! sei que nada mais
disto existe. Estação da Luz meu eterno ponto de embarque e desembarque ,é ali
que descolo uma grana legal tem muito otário na parada. Muito otário. enquanto
caminho na rua ao lado de minha parceira por vinte contos, olho de soslaio sua
bunda empinadinha num vestido cinza semi- colado no corpo e, com a mão na sua
bunda vou olhando uma arquitetura caindo como os dentes podres da boca daquele
velho que arrastando sandálias de chumbo e ,morre largado um corredor de
hospital público da quebrada; sem receber os primeiros- socorros dos caras, que
tratam a cidade assim com governos medíocres e suspeitos pra caralho...fiquei
no prejuízo, mas foi divertido ficar ali com a Rute, foi o nome que me deu
junto com a mesma história de Hollywood: menina pobre do Interior vem tentar a
vida em São Paulo e cai na prostituição. e, você o que faz?—“Todos os meus
conhecidos têm sido campeões em tudo, eu.. ”estou na rua outra vez.19 anos é
tempo pra caralho.. foi neste quarto que comemoramos ontem um mês de convivência.
ela saia pra trabalhar do outro lado da rua onde aluga sua boceta por vinte
mangos. eu fiquei escrevendo esta porra e lendo coisas que não consegui ler na
cadeia, foi lá que comecei ler poesia. eram os livros mais finos e comecei
poraí, gostei tanto que não parei de ler e li tantos caras fudidos nesta vida; depois
deste impacto da poesia em mim senti que alguns poetas escreveram coisas pra
mim e pra todo cara que vazou pelo próprio rumo depois de levar porrada do pai
até os oito anos; viver na rua não pra qualquer um não, tem que ser da raça dos
vira-latas bem magrelos e fedidos com os eternos olhos remelentos e vazios de qualquer
esperança, senão morre logo. Quando saio pra me matar relembro coisas de minha
vida e penso nas poesias de caras que falando coisas deles, que também são
minhas. beck maravilhoso! Há um mês freqüento o Centro Cultural do antigo
Doi-Codi ...vi muita Verâneio Vascaina entrar e sair rasgando lá da boca do
predio. tudo mundo sabia o que acontecia ali dentro: era a parada da política. outro
ramo e, eles não se misturam com gente de minha espécie.. .gosto de dar meu
trampo, no Rush.. .os otários estão imersos em seu horários de escravos; que
ira determinar seu futuro de grande consumidor ,e, não se ligam que um senhor
elegante, baixo e, sempre com um livro nas mãos trabalha; como velhos tempos, desculpe
jovem! E o que tiver no bolso arrasto; e assim vou olhando minha cara de
covarde diante de tanta vida que vivi sempre fracassando em tudo que fiz.
comecei roubando na igreja; adorava comer aquelas taças de hóstia com groselha,
que delícia. Agora, sinto-me detido nesta urbanidade que não vi ficar
desfigurada. viajo em vagões que me levam a grandes concentrações de gente; que
circulam com aquela velocidade estúpida pra ter grana no fim do mês pra pagar contas.
porra que triste! Se você pode ficar alheio e chapado no meio da Estação da Luz
olhando tudo aquilo vai se ligar que tudo é como uma grande senzala social; é
uma aula que nenhuma universidade pode dar. Oi querida, como foi seu dia hoje? meu
,catei um cara que tinha uma rola deste tamanho, e abre suas mãos numa
distância de um palmo. porra me arrombou. ouço suas queixas e faço uma massagem
no seu corpo cansado do uso coletivo.na moral. depois me passa uma grana pro
meu passeio ali na Cracolândia onde busco uma maconha borracha. é muito louco
você ouvir dizer em bocas da ordem e do progresso, que você é o patrocinador de
toda esta escória humana infantil-adolescente que trombo enquanto vasculho o
traficante que conheço...os caras que abastecem esta porra toda estão em
coberturas e com ternos Dior com seus cabelos besuntados de gel; sorrindo em
corredores onde o Lobby da Máquina da Droga é ultra-facetado como esta
realidade jogada aos meus pés; pivetes de nove anos morrendo empunhando
saquinhos de cola e cachimbos de crack, são seus estandartes e ,que já tomaram
tanta porrada na vida que tanto faz eles estarem vivos ou mortos, eu me sentia
assim.. aí.aí quanto? Trinta! Valeu... nasci tão longe daqui que a única
lembrança que tenho com clareza de minha infância: é ver na minha frente aquela
estrada sem fim que iria acabar onde estavam construindo uma cidade inteira de uma
só vez. era o que falavam todos naquele caminhão com um pano grande igual ao da
jangada que ficou parada lá na praia de areia branquíssima ,onde eu meus seis
irmão corríamos livres... A cidade nasceu e cresceu e também eu .rodei num 551
nervoso. quando saí; sumi daquela cidade que revelou-se cinza e fria como o
concreto de suas formas que Galango nenhum entendia ;depois de dois anos em São
Paulo, rodei num 12 forte hein?. Foi um longo tempo olhando a vida por detrás de
grades e leis que junta iniciantes com grandes macacos velhos ,aí xará, é a lei
do cão e pra não morrer matei; como você mata faz a diferença, eu sei. ele
partiu pra cima com seu estilete em punho; com um movimento rápido ergui meu
braço direto e recebi o estilete que abriu uma perfuração fina e ardida
,dei-lhe um chute tão foda no saco, que ele ajoelhou-se e soltou o estilete
;agarrei-lhe a cabeça como se agarra a vida que você sente estar por um fio; e,
bati violentamente na lateral do vaso, que partiu-se em cacos; numa tesoura
prendi-lhe os braços e, com minha mão esquerda agarrei-lhe o pescoço numa
gravata para trás e, com a minha mão direta que sangrava; munido de um grande
caco de cerâmica do vaso partido, fui-lhe abrindo a face, e o tórax, abri lentamente
enquanto ele urrando numa dor descomunal cedia ,e ficava frouxo na minha teia ..ele gritava tanto que nem parecia aquele
cara que tentou me estuprar e, fui abrindo-lhe lateralmente também ,abri –lhe numa
curva do estômago ate sua virilha direita; ainda vi sua cara de terror quando
lhe cravei o teco de louca pontiaguada vazando-lhe o olho esquerdo, seu sangue
lavou o canto do boi sob os olhares antônitos de uma meia dúzia de caras.; depois
de corta-lhe as bolas e sua rola, enfiei tudo em sua boca aberta de lado a
lado, soltei-o. fiquei em pé com as tripas dele nas minhas mãos; todos olhavam
como eu devolvia tudo que passei em instituições e outras porras cheias de
padres querendo fazer a mesma coisa; tudo sob o aval de seu Deus. filhosdeumaputa!
Sentia seu sangue esvair-se num desenho surreal.. vermelho vivo sobre piso
cinza-cimento gasto; quando chegou a cavalaria, ele estava aberto como um
porco. Então, depois do tratamento especial que lhe dão. Aí, me jogaram naquela
escuridão gelada da solitária; perdi a noção de tempo; mesmo ouvindo os caras
falando pelo vaso pra que aguentasse mais ,pra que eu ficasse me exercitando
pra cansar e tentar dormir naquele miséro colchonte de papelão frio e
peçonhento. .foram noites, que jamais me abandonam. jamais! . sai dela com uma
pneumonia que deixou meus pulmões fudidos ate agora. Quando saí vivo daquela
porra de solitária.eu era olhado com ódio medo e respeito, o tempo passa lento e
eu me enfiava neste mundo dos livros fininhos; o Capelão vendo meu interesse
por livros me levou pra trabalhar com ele na organização de livros que
comporiam a primeira biblioteca numa cadeia pra presos perigosos como eu. começamos
organizando prateleiras e depois abrindo cada caixa doada e catalogando cada
livro um por códigos e uma numeração e todos pra sua prateleiras: religião, história,
matemática, bíblia pra caralho! Revistas de religião Católica Apostólica Romana
E toda a literatura de outras religiões. depois eram aquele livros fininhos que
eu pegava pra ler pra acabar rápido; o gosto pela poesia foi crescendo a cada
descoberta de novos poetas ,por vezes, sentia minha alma aquecida como as
manhãs de banho de sol, crescia.. .hoje é outra realidade: tudo é máquina
cibernética! Com muito celular, fácil demais pra abraçar. levo vários prum
chinês .todo mundo sabe.. ficam neste faz de conta.. então ;resolvi de vez
acabar com esta covarde e medíocre vida que arrasto perdido nesta sociedade que
não passa de um grande labirinto com a imensa maioria morrendo ali sem ver a
luz da saída, da existência. mas, hoje acabo com tudo e quero me matar como
antigamente. Saltei do metrô na Praça da Sé e, subi escadas falando sozinho
“Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas, os soldados que
perderam a batalha, parei pra tragar e continuei, as mães bem mães, as fêmeas
bem fêmeas ;os doidos bem doidos” sai na Praça do Patriarca do jeito que entrei
no Viaduto do Chá, dei uma pequena corrida apoiei minha mão direita na mureta e
saltei na cara da boca aberta do Túnel do Ademar .clovis de carvalho
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