Não. você não tá ligado na parada que rola. era uma terça-feira
daquelas.eu ali naquela porra de ponto de ônibus. 23:45 e, ainda nem sinal da
cara do filhodaputa do burrão. Olho o pessoal que cola pra pegar o buzão estas
horas e, vejo a agônia dos que tem casa e pra quem voltar. todos nós nos
percebemos porali mas ninguém fala com ninguém.me instalo de ipod e começo
ouvindo um Tim Maia daqueles com a Vitória Régia mandando bala, ta ligado? que
arregaço e você volta lá atrás e fica vendo ele ali na frente da banda pondo
pra fuder... la vem o burrão; dentro do busão tá quentinho e vou me ajeitando. olha
meu irmão de cor: Jorge Bem xará.. ́não consigo chamar este cara de Benjor. fico
olhando aquela gostosinha que pega dois pontos antes do meu e desce dois antes;
é maravilhosa! sozinha ali, com olhos sigo sua silhueta de fazer velório virar
batucada e ela sambando em cima do meu caixão.. já vi o cara que fica no ponto
esperando ela. o som do ipod me leva num daqueles bailes do Palmeiras que ele
foi ..tchururu.. tchuruuuruurruuu, porra. próximo desço. mãos na cabeça, caralho!
é um assalto caralho! eu bem que vi este cara muito na muída; o busão parou na
curva escura e começou o saque: ei ei não guarda o ipod não coroa. daqui.. e
meteu o oitão na minha fuça bem na horinha do Melôdia .. pegue algum sangue
escreva..,ta meu! leva aí. e com uma dor muito menor que o meu medo de levar
umas petelecas daquelas que eu olhava por dentro do tambor do oitão tão perto
que podia sentir que tudo pode acabar tão rápido...já catou o barato da minha
mão e foi metendo um fone naquele orelhão do caralho. ergueu o beiço balançou
pra cá pra lá e, virando a porra da arma como um pará-brisa destes bem rápidos criando
o maior pânico dentro do busão. então; você não vai descer coroa? desce. e
meteu o cano na minha cara. e berrou :vaza motorista! Ele fica à uns dois
metros de mim com oitão dando aquele mole pra ver se você acredita: e com meu
ipod na aba olhou pra mim e disse: eu também curto este som do meu novo ipod. meu
ipod, retruquei com uma convicção antônita e ouvi sua voz calma e serena: aí
coroa, ninguém mais curte isso, olha este Tim Maia! E ia ajeitando o fone num
ouvido. Aí coroa, vamos ali toma uma? num bebo xará? mas se tiver um..., porra
se tenho e guardou o oitão como camisa que fica fora das calças e foi entrando comigo
na quebrada como se eu fosse um político que estaria sendo esperado num destes jantares
beneficientes onde toda farsa e hipocresias são seladas numa grande boca livre via
mídia. e depois de enfrentar um labirinto de curvas e vielas e quando você
pensa que chegou? ainda tem uma subidinha daquelas.de repente do nada: o
boteco. dono do pedaço e sob a luz fraca vi tua cara; ele era do meu tempo vi
pelos sulcos que deslizam pela sua cara de tantas dores e sei lá mais o que. sofrimento;
todos tem, até bandidos. o cara do boteco já colou com duas brejas. seda. isqueiro
e uma paranga das nervosas. daquelas verdinhas, ta ligado? aquela que tem
aquele cheiro de uma infância que foi muito louca mas já ficou perdida lá
atrás. faz o que coroa? perguntou o filhodaputa com meu ipod na mão e um fone num
ouvido.. venho lhe dizer que sou réu confesso.. e, eu ouvindo do outro fone que
estava na mesa.. já tinha umas doze garrafas em cima da mesinha do boteco e eu
já havia fumado várias bombas tão verdinhas que já tava dando asas a minha
imaginação que ascendia o lado prático da vida...lá vem o homem eee com sua
gravata florida...a morena era a mais gostosa, mas a mulatinha que ele jogou na
minha mão, digo, no meu colo era muito gostosa... com aquela gravata qualquer
homem feio virá príncipe. puta som dos infernos de bom. Ate euuu.. bom, neste
ínterim de doze brejas e várias bombas e meia.. por este monte de conversa que
rolou; tínhamos feito uma amizade de muitos anos. éramos irmãos em desgraça, em
dor, em desesperança. tínhamos a mesma sina em caminhos tortuosos e avessos e
com opções diferentes de ir correndo sempre atrás daquilo que não conhecemos: a
felicidade! Esse Tim Maia...como é que vai compadre...como vai você em
casa...tchuru ruuruu. Aí firmamos que ele assaltaria a emprêsa que trabalho; eu
e a mulatinha numa roçação do Caralho na cozinha do barraco e o filhodaputa lá
na cama no quarto.eu ali em pé ao lado de um fogão tão velho e fudido quanto
eu, começo ouvir aquele som e voz inconfundível: mas que nada Sai da minha
frente que eu quero passar! que gostosa esta mulatinha; foi arrancando minha rola
e engolindo como se fosse um destes churros que vendem nestas quermesses de igrejas.
e um som saindo do quarto numa torrente de iluminar minha memória e de me deixar
louco: Coroné Antônio Bento no dia casamento de sua Filha Juliana.. olé olá
...depois de me ajeitar por cima da lateral do fogão e sentir que o que vale é
o tesão tudo mais é suporte. lá pela oitava breja o filhodaputa me convidou pra
ir no teu barraco disse que tinha umas coisas pra me mostrar. porra, aquele
baile no Palmeiras que o Tim Maia cantou Primavera e, dizem que chorou de
verdade. doidão pra caralho! Ele tinha uma foto ao lado do Tim Maia neste
baile; como que a gente não se encontrou neste tempo hein coroa? e, tinha foto
com Luis Melodia e incrível, uma com o Jorge Ben e, várias outras fotos coladas
na parede do quarto do barraco de gente bonita e umas gostosas.. depois de
deixar a lateral do fogão como uma escultura pós-moderna. lindíssima! ficamos
ali falando e olhando nossa arte. o filhodaputa tinha um som naquele barraco
dos infernos que muito disquei joquei nunca viu na vida...maluco, ele enfiou o
ipod na minha mão lá pela quinta breja; a mulatinha se ajeitando na cama que
agora estava a nossa disposição; as paredes do quarto do barraco era um
memorial de sua vida de boêmia ao lado dos caras que sempre curti; tinha foto
com Luis Melôdia numa quebrada do Estácio numa roda de samba pra chegados; tinha
uma com o Jorge Bem autografando a Tábua de Esmeraldas num camarim. caralho. e
do Tim Maia tinha várias fotos no meio dos caras da Vitória Régia e uma foto
dele e o Tim Maia bem loucaços.. a mulatinha ali me esperando...eu ali vendo
tudo aquilo na minha frente e mexendo nas duas estantes destas de ferro, repletas
de vinil com muita gente que não se ouve mais poraí. minha raiva passou, agora
eu estava com uma inveja de me matar de pena. vou pra mulatinha descontar minha
fúria ao som de um J.Bem: criola.. uma linda dama negra..criola... depois de da
fúria ,ficamos ali ouvindo um som e falando coisas. ouvi sua voz falando alguma
coisa sobre o fogão e, meteu a cara dentro do quarto do barraco que tinha um
lençol como porta: aí coroa, dei um pulo e sai pra cozinha. A Erenilde, era
este o nome da mulatinha deliciosa, ficou lá na cama num prenúncio de sono
pesado.me passou o baseado e disse que tinha saído pra resolver umas paradas e
iria sair de novo e, viu minha cara de espanto e inveja sobre seu memorial e, disse
sorrindo: e você coroa tem alguma coisa deste nosso tempo? Olhei na cara dele
que criara um véu pela tragada no beck e ,disse-lhe que tinha uma saudades
destes tempos como a porra ..e começamos falar dos bailes no Palmeiras e outras
casas que estes caras passaram. falamos de nossa fissura pelo som do Tim Maia; das
Letras e o som impossível do Jorge Bem e, chegamos ao consenso que o Luis
Melôdia é um poeta com uma voz mágica. e falamos de outros tantos que
descansavam nas suas estantes de ferro; com os olhos perdidos nos aros da
fumaça do beck que já ia pelo meio ele sussurrou algo sobre esta gente que te
desconhece e te deixam de lado depois da primeira ou segunda cabeçada ele viveu
um tempo no meio destes caras e num momento de loucura; esta vida atual entrou
como um furacão no seu caminho e nunca mais saiu. As fotos ali nas paredes do
quarto do barraco eram seu álibi.disse que iria sair de novo e disse que tudo
era nosso. Lá pela nona breja o filhodaputa me disse que tem umas paradas Com
uns malucos aqui da área dele. carga xará! roubo de carga e tem uns meganhas na
parada pra que tudo seja oficial e, ri como se tudo fosse a normalidade destes
tempos. Fiquei sentado Ali ouvindo o som que flutuava dentro desta pocilga que
é igual a minha vida e; me vi lá no Baile do Palmeiras com meus sapatos de sola
de couro dançando ao som do mesmo Tim Maia que ouvia agora e, senti que a
felicidade passou naquela esquina hoje, e não me viu como sempre estou porali; um
espectro, uma sombra úmida de avessos. não a felicidade esta aqui dentro no
momento nesta pocilga que não me pertence mas é um pouco do sonho que se foi de
mim. no quarto do barraco Erenilde dormia de babar e fiquei olhando aquela
bunda Maciça que com sua cor linda e pertubadora e acendia.. Juremmma.. ohhereeuuu.
Aumentei um pouco o som e ,ela despertou. sabe dançar um samba-rock? Dando uma
ajeitada de leve foi levantando-se e disse: claro que sei. Fuço no som e lá vem
Cristina ..uma estrela amiga me ensina.. lá vem Cristina.. marcas do meu peito
sangrando....dançamos e começamos aquela ralação; caímos na cama do filhodaputa.
Enquanto tudo acontece fico olhando as estantes repletas de muitos vinis; ela sentiu
que eu não estava ali e, foi deixando meu pau como aquelas meninas que querem brincar
com a boneca mas tem que devolver pra dona. e, se ajeitou na cama. olhei pra
ela como aqueles meninos que também querem brincar com o cavalinho- de- pau que
viu com outro moleque, mas sabe como é tão difícil que o outro deixe você dar
uma voltinha nele que você acaba perdendo a graça.. e, fica pra depois.. e, nos
atracamos com desejo e um tesão que se imaginava novo. Acho que era um
meio-dia. porra, o som estava lá: eu sou canário do reino e canto em qualquer
lugar...a Erenilde tinha vazado, minhas coisas e a cama estavam todas arrumadas
e meus pertences-- ipod, jaqueta, bombeta e um livro-- ali num cantinho em cima
de uma caixa de feira. criado-mudo. Ela me contou que trabalha num puteiro ali
na Dutra, perto de onde o filhodaputa assaltou o busão e; me disse sorrindo que
o filhodaputa era sangue bom E que tinha gostado de mim. ele foi com tua cara. e,
bateu um fio pra mim dizendo pra colar com a Loira, que é a figura dele. por
que é proibido pisar na grama?.. acordei com uma vontade de saber como ia.. eu
só ouvia o que queria.. demais...como a gente tinha combinado lá pela sétima
breja e nos arinhos de fumaça do meu beck; que eu ficaria porali Até a volta do
filhodaputa ouvindo o que quisesse e poderia se servir no boteco de qualquer porra
que me desse na telha. era tudo dominado...tente apagar este seu desengano .. Querendo
meu livro te empresto...porra. estou ali na maior revival e, começo ouvir
aquela Agressão: uuh vira a bundinha uuh vira a bundinha. não dei tempo e subi
o volume do som Que o barraco parecia que ia desabar ,era o cara do boteco
ouvindo aquela merda e como o som dele era uma bostinha de rádio, o som que
berrava no barraco venceu: this ...songs and play. Auauaaah. auuahhh this
also...caralho é demais... ouvi vozes e quando dei por mim vi sua cara
enxergando minha felicidade e,num de repente disse entra aí: e entram os dois
caras com sacolas de feira e foram tirando o que tinha dentro: duas escopetas, umas
quatro quadradas, duas calibres 12 e uns três oitão daquele que o filhodaputa
enfiou na minha cara no assalto ao busão. aí coroa, foi dizendo o filhodaputa,o
atestado ta na mão.me disse que os dois caras ali na nossa frente eram os
pilotos da fuga e, que daqui uma meia hora chegaria o resto da rapaziada. fuçou
no som e disse conhece isto aqui Bié, era um dos pilotos de fuga que parecia
uma alucinação de cabelos oxigenados; Charles Anjo 45..um homem de muita
coragem....só porque marcou bobeira...o tal Bié só balançou a cabeça e saiu pra
fora com seu amiguinho, que nem vi direto como era. Alô, falava o filhodaputa
no celular, pode vir querida que ele ta louquinho pra te ver, olhou pra mim e
riu. ri também.. ascendemos mais um e ficamos ali olhando um pro outro ouvindo
aquela batucada...vai ter feijoada e outras coisinhas mais..ahhaha.. ahah. estes
moleques do caralho não sabem de porra nenhuma e passou o beck pra mim apontado
a porta. tou ligado..e ficamos fumando e ouvindo outras paradas.. baby please..
o amor.. olha estes violinos.. que voz do caralho deste cara...depois que o
filhodaaputa saiu fiquei pensando que tem vezes na vida da gente, que você ta
ligado que a merda que você se enfiou é tão fedorenta que você fica assustado
com o fedor, mas já se lambuzou tanto que nem liga mais; que o medo de se foder
acaba te levando a pensar que vida triste que você tem é tudo um lixo.eu
vivendo como segurança de uma bosta de empresa que vai te sugar enquanto você
bater aquela porra de cartão...a porta foi empurrada com delicadeza e ouvi
aquela voz mínina de mulher: cheguei! ela entrou e seus olhos encontram os meus
pousados ali em cima daquela mesa. vai pra guerra!.. disse rindo e com uma das
mãos foi ajeitando uma sacola de mercado com coisas pra comer num cantinho da
mesa. não sei o que respondi.. o som.. Padre Cícerooo Padre
Cícerooo...lutador.. entre ódio e amor.. Padre Cicero ooooohh.eu sou de lá, disse
ela com a boca cheia de sanduba, sou lá de Juazeiro do Norte.. e o Padre Cícero
é meu padrinho que música.. eu só murmurei um humhum e continuei comendo. ainda
tinha muita verdinha e começamos mais um ,ainda tinha mais de uma hora pra
chegar o resto dos manos que iriam pra parada. Depois do segundo trago, disse-lhe
que estava cansado de viver como um cão sarnento destes que capengam poraí ,de
saco cheio de trampos de merdas, de chefes analfabetos, e vivendo com um
salário que me dá nojo.. e ela era um espelho dos meus olhos chapados e cheio
de angústias e tantos subterfúgios ordinários. olhei pras estantes e perguntei
pra mim mesmo: onde este filhodaputa arrumou tanto vinil ?caralho. ontem você
me chamou de Cristina bota aquela música pra gente dançar aquele samba-rock. porra..
acabamos numa trepada tão fenomenal que a agulha ficou lá unhando a bolacha....
seis da manhã. a Van estava ali na minha cara, a favela ainda sonolenta era só
ruídos dentro dos barracos de toda esta gente que corre atrás de um pouquinho
de dignidade e tem que ajeitar a parada com filhos, cachorros e meter o pé na
lama e sair fincado pra descolar o rango e a tal dignidade que vai te esfolar
de trabalho e muitas humilhações.. peguei o atestado e entrei na van. Meu Deus!
Eram uns oito caras dos mais mal-encarados que já vi; ficaram me olhando e
ninguém falou porra nenhuma. como tínhamos combinado na décima primeira breja; eu
entraria na empresa iria pro Departamento Pessoal entregar o atestado do dia
anterior, que fiquei no barraco do filhodaputa sendo feliz, fumando e namorando.. ao som de músicas
que me levaram de volta ao tempo bom de minha vida.. depois de entregar o
atestado e ouvir uma recomendação do chefe dos Seguranças que ta cheio de gente
querendo trabalhar e blá blá blá..eu desceria pela escada lateral e iria pra
portaria cumprir aquelas malditas oito horas de abre e fecha aquela porra de
portão automático, assim, abriria
o portão a Van entraria e aqueles caras ali na minha frente iam botar pra
foder... Aí coroa, vai na fé. foi tudo que ouvi do filhodaputa e fui.. Os
meganhas da parada das cargas surrupiadas estavam na fita. roubaram tudo. tudo..
Sobrou uma parte pra mim que foi o suficiente pra que eu viva numa clandestinidade
ímpar Tenho meu próprio trampo, meu canto. por vezes, tenho uma tristeza que
não me abandona e, quando a Erenilde sente que estou ficando assim; corre pro
som e bota o que mais gosto de ouvir de todos os vinis que o filhodaputa me
deu.. Como é que vai compadre...como vai seu bem querer...tchururu.... Clovis
de Carvalho
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
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