segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Merdinha

O quarto de hotel na cara da rodoviária denunciava em que situação esta quem ali hospeda-se. a mala era uma mochila azul. aquele azul de felicidade que quando você é um merdinha e, olha o céu azul da manhã e nada é mais lindo. praticar o pôr-do-sol e chorar ainda é um ato livre e solitário que me ensina ir vivendo com minha fudida alma.um dia destes li num livro que o céu do sertão do Guimarães Rosa é tão estrelado que parece uma casa sempre acesa pruma baita festa. mas o que é um pôr-de-sol? é uma beleza sem explicação que toma voce..encosto num pé de viaduto que é um lugar dos mais tranqüilos estas horas da tardezinha. ali. o sol vai afundando e cai de vez lá no fundo de prédios que não tem fim. A cidade fica tão linda esta hora. parece uma festa, sabe; gente pra cá gente pra lá e todos fora do compasso da dança. todos perdidos numa velocidade sem nexo. vidas que não deixam sombras nem num espelho. e quando se é um merdinha você vê aquele céu lindo. tudo é perfeito. depois; todo cara que não aceita as direções autoritárias da montagem de todas as cenas trágicas-cômicas cotidianas que chamamos de sociedade. então ele é um fracassado, um fudido.um zero.. A água do chuveiro é um bálsamo que abriga um ser que refestela-se na vida simples; do agrado do mato; da brisa das roças de milho e mandioca que plantei. da noite que ouve o sussurro do vento.. e da dor que remoi a memória como o nervo de um dente que dói numa chuvosa e fria noite. Por fim, calço aquelas gastas sandálias que parecem de índios dos distantes planaltos. na rua o olfato humano escorre em calhas dentro do vão que as pessoas criam no trajeto sobre as calçadas. uns vão com a tristeza da morte; outros em sentido contrário caminham com o peso dos afazeres; dos desmandos; dos acasos insondáveis desta vida e Deus para consolar à todos. o ar que canaliza-se entre estes vãos humanos criam uma zona de olfato muito diversificada e rica. caminho pelo vazio desta existência sem existir. não busco nada. existo. Por vezes, caminho sozinho pelas ruas da cidade que me segura como um filho no atravessar da rua. e sinto nas expressões futigadas de tanta gente uma desesperança, uma dor forte que nos arremessa pro mundo. assim: é minha solidão. e na noite que nutre nossos diabos que nos invadem como as de muitas almas num fogo dos infernos de Dante. Percebo seu olhar como se questionasse a imensidão do céu que alaranjazulou-se e confeccionou o painel mais lindo do dia. ele me mostra suas coisas, sua casa: coisas amontoadas de um lado coisas amontoadas de outro lado. o viaduto é o teto. carrinho estacionado na porta da pocilga entre três vira-latas que rosnam a quem chega perto. sem autorização é um perigo. digo-lhe que estou no hotel da frente. torce sua feição e diz que ali é melhor. chamo prum café.me diz se procuro trabalho. só no comércio e pros judeus. quando se é um merdinha daqueles em dias felizes com os irmãos e os pais num parque. não poderia entender o odor que saculeja todo meu olfato.. as morenas tem algo de diabólico. Cruzam roçando no meu corpo ,estão tão alucinadas de sonhos e pressa que não sentem meu olhar.de posse.de luxuria total. a voraz vida que se arrasta diante desta rotina caquética que nos ilude com um futuro que não virá, porque o que você vive é teu futuro. ele ouve e olha o ceú num novo alaranjazulou de arder a vista num fundo de mar .eu beberia formal pra comemorar. digo que preciso ir. e vou por onde sempre fui: a lugar nenhum sempre dando voltas como um cão que perdeu seu dono e agora só tem os becos ,as vielas ,as pontes e os viadutos e vez ou outra um hotel de quinta; quando você caminha nas ruas de qualquer grande metrópole é uniforme esta velocidade; gente com papéis numa das mãos e arrastando a outra mão como um rastelo nervoso pelos cabelos; gente que não olha as reentrâncias nos imensos edifícios onde os pardais e pombos ficam imóveis nos observando. as ruas desta cidade são grandes bocarras que masgam toda esta gente como se fosse um naco de fumo e, depois, as cospem fora suas almas negras como a baba do fumo escorrendo pela boca; as marcas de toda desesperança que vejo estão refletidas em mim como uma máscara num manequin destes que uma vitrine qualquer anuncia uma liquidação. a grande desurbanização que é esta cidade; inspira um olhar de grande instalação que afeta nossas mais primitivas aflições e emoções num grande redemoinho de imagens que nos desmontam como expectadores para uma grande arte que não afeta o nosso entendimento. caminho como um destes livros velhos que mesmo jogado na rua ninguém apanha. as pessoas estão realmente na era cibernética .quando volto pro hotel, vejo que o cara do pôr-de-sol esta nas ruas com seu carrinho e o séqüito de três vira-latas num trabalho relegado aos marginais, os excluídos de tudo. da janela do hotel visualizo o oceano de prédios que naufragam num cinza cor de pele de rato e, os únicos que tem um pouco de paz neste caos que se estabelece como premissa de viver num lugar destes; são os vadios e mendigos que estacionam suas dores em qualquer lugar e emergem para dentro de suas desgraçadas vidas. arrumo minha mochila cor de felicidade e desço para me despedir do cara do pôr-do-sol. falamos coisas do dia que passou tomamos um café numa espelunca e digo que já estou de partida. vai pra onde? ele me pergunta como se eu pudesse arrastá-lo dali mesmo se fosse a fórceps. fico mudo e ele compreende que seus vira-latas estão melhor que eu.de repente apanha um livro de sua tralha e me entrega sem dizer nada.um Olhai os Lírios do Campo com capa dura.adeus.adeus.... Clovis de Carvalho


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