segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Vagabundo que é vagabundo já vem de berço

Minha mãe deixava eu—dois anos—e meu irmão - um ano—dentro do berço e, ia cuidar de sua vida que não era fácil; cuidar de dois pirralhos, cuidar da casa e lavar roupa pra fora pra gente ter mais o que comer. Não demo-morava muito meu irmão estava abrindo a boca; minha mamadeira caia pra fora do berço eu nem tentava em me preocupar em pegar, já metia a mão na mamadeira do meu irmão, vacilou já era. Minha mãe que conta esta parada, como poderia eu me recordar de uma coisa destas?. Mas, o vagabundo nato tem seu estilo próprio e natural e, começa a desenvolver as suas habilidades nesta vida de cada dia; o vagabundo que é vagabundo é o cara que não dorme no ponto, ele, pensa e vê parada pronta na sua frente antes de agir, mas não é aproveitador da fraqueza humana só se agiliza porque tem a raça de vagabundo. Quando eu tomava a mamadeira do Rato, este é o apelido do meu irmão; não era por maldade ou porque eu era um pouco maior, é que meu instinto de bebê vagabundo dizia-me: eu tomo a dele e minha mãe ouve o cara berrando vem e pega a minha mamadeira que caiu fora do berço eu não queria ficar me matando tentando pegar a minha mamadeira, enfiando a mão nas grades do berço. Eu enfiei a mão várias vezes em outras grades. grandes delitos: brigas, vadiagem e muitas bebedeiras. Então o tempo vai passando enquanto você fica olhando a bunda da vizinha no tanque; e tudo vai se transformando com velocidade de bala perdida e, se você não esta ligeiro: Paft! na testa... Quando eu era um rapaz foi a fase de passar de vagabundo amador pra vagabundo profissional; é uma fase difícil porque todo mundo já esta ligado no teu movimento e, sabe que você anda na sombra pra não se queimar; a parada fica entrucada. dividida e; é aí que se decide na vida o que vai querer ser; é só escolher: seguir o que tua família te passou e seguir dentro de tantas regras e normas que a sociedade exige que se você der um peido mais alto e fedorento tem que explicar o que comeu; ou escolher o estilo das ruas. puta escola. Mas, ser vagabundo original não é escolha tua, a porra nasce contigo e; tive as duas oportunidades e fiz das duas uma; tenho família mas sou vagabundo. Aos poucos você vai descobrindo como é o amadorismo e, quanto mais longe dele você fica, mas você sente e vê a competição alucinada pra galgar os grandes sonhos que estão prontos pra você e te empurram: ser isto ou aquilo e pra isto você tem que se foder e suar sangue, literalmente, ainda mais quando você é da periferia , da quebrada, da favela. Ouve até a exaustão que pra ser uma pessoa de bem tem que se sujeitar a tudo e a todos que estão no topo; que uma pessoa de bem tem que crer num Deus que nunca viu e nem sei como é. Você ouve estas coisas desde que chuta a primeira bola. porra, pra mim não deu pra ser uma pessoa de bem. Mas, chega o tempo de mostrar que se profissionalizou na tua opção maior e vai tocando de prima e no chão. E não é pra qualquer otário, tem que se impor, e na agilidade cerebral, no drible da vaca, e muitas vezes na porrada e, claro que um oitão na mão facilita muita coisa.; porque sempre vai ter aquela torcida adversária que atira pedras em você ou fica esperando você dar de canela, uma bola espirrada, uma falta mais feia; o tempo continua passando como aquela bala perdida e, aí o vagabundo profissional sente tua incompatibilidade com todo o sistema familiar, social e o caralho à quatro. E comigo não foi diferente eu me lançava na roda e ficava ali sambando de Mestre-Sala, na moralíssima, respeito é bom e conversa os dentes e, você tem que dizer a que veio...Claro quando você se profissionaliza tudo mais é incompatível na tua vida, mas, pra Todo este sistema montado você tem que fazer tua parte, tem que ser feita, foda-se a minha parte: eu tive vinte e três registros em carteira profissional em dez anos de trabalho, entretanto: seguia por Vezes no fio da navalha entre ser vagabundo profissional e cair de vez na malandragem; por que aí é outra estância e como a malandragem demais engole o malandro; eu optei por ser vagabundo profissional e, dava meus pulos aqui e ali pra ir vendo O sol nascer de minha janela. Eu era universitário e centroavante do time da favela, freqüentava o Teatro Municipal –que no meu tempo, as segundas-feiras era de graça—E, desfilava na Primeira do Itaim Paulista ,e cheguei a ir numa –farra—posse do Governador Paulo Egydio ;namorei uma sobrinha de uma artista mais ou menos famosa e fodia muito com a Lena que saia na minha querida Xurupita, era o apelido da Primeira do Itaim Paulista, inúmeras vezes acordei sob marquises, no 69 ou na praça da Sé. Claro, chega um tempo que teu estilo começa a incomodar, porque você Vai tocando de prima ,toma uma entrada mais dura, cai levanta e parte pro teu jogo; você esta administrando tua essência, evidente, que todo vagabundo profissional tem sua original essência e não fere ninguém com ela; a torcida adversária sabe que você joga pra valer e vai abrindo seu próprio caminho no rumo de ser um pouco mais livre, isto, transforma você num num cara habilidoso; e gritam: pau nele! pau nele! Aí tua essência de vagabundo profissional faz a diferença, você administra sua natureza e faz dela sua aliada; nada é fácil. nada é de graça; porque no mesmo time que você joga tem sempre aqueles que jogam uma bolinha assim ô e, se acham o Pelê; mas, aí você pode mudar de time e jogar contra eles. No tempo que a Bonnie e o Clayde governaram o Brasil e toda a Esfarrapeira era visível a milhas de distância; meu filho nascia; sem trampo, sem amigos importantes nem galinhas no quintal—grande Belchior—é aí que você tem que mostrar que Que se profissionalizou na vagabundagem e seguir pelo atalho da humildade pra sobreviver sem dar arrego pra filhodaputa nenhum.eu fui vender limões nas mesmas feirasLivres que minha mãe trabalhou a vida inteira até se aposentar como feirante pra criar três filhos e um profissional na vagabundagem .Era um rolê nervoso, saco de limões nas costas do Mercadão até a Sé, aí outro busão ate o Aeroporto de Congonhas. pagava as contas, botava comida na mesa e que felicidade : não devia favor pra puto nenhum. Mãe é mãe e Esta sempre ligada quando você desentoa do resto da prole e, sente por este desgarrado uma certa predilação, meu irmão e minhas duas irmãs sempre sacaram isto ,mas nunca deixaram De me ajudar sempre que a coisa ficava encardida pro meu lado. É nestes interlúdios que o vagabundo profissional tem que ter atitude e não cair do fio da navalha e; quando bicho pega pro teu lado tem que segurar o B.O. e, sair no gás atrás do prejuízo; por que também é aquela bola perdida que você corre atrás e sente que não vão vai dar pra pegar, mas você esta jogando pro time e se mata por aquela bola que saiu... Mas, eu tinha dois atributos que vários vagabundos profissionais não nascem com eles: o amor pela arte e pelos livros e, minha alma pertence aos dois. Era uma coisa muito louca; eu saia do Itaim Paulista, Jardim Camargo Novo e, quando eu passava em frente o boteco que frequentava com mais assiduidade, num domingo à tarde os caras me chamavam pra tomar uma e perguntavam onde eu ia com aqueles livros na mão; vou numa Vernissage lá no Masp. que porra é esta? era o que ouvia deles. Vou ver telas, quadros e uma bucetaiada que cola por lá .Bom, aí era outra coisa, só a bucetaiada valia a pena ,agora esta porra de
Vernissage ..E era sempre assim os caras perguntado o que eu fazia com tantos livros. Você troca estes livros por birita? Eu tive que passar muita parafina Pra não escorregar do fio...Tem que ser na maciota, não pode ofender o cara que não tem opção de porra nenhuma nas quebradas; é tv. e boteco e a tarde babando na frente dos filhos e da mulher diante desta porra ofuscante. E foi assim que meu profissionalismo na vagabundagem cultural meu levou várias tardes da minha quebrada pro centro da cidade Em viagens de leitura e sempre vendo a paisagem urbana em mudança. Mas o tempo, continua sempre dilacerante e largando tudo para trás como a primeira que você toma de manhã pra parar de tremer. Por vezes, o vagabundo perde o senso e foge da realidade e, se transforma numa pintura de Chagall e viaja. E, eu viajei num alcoolismo que durou quase vinte anos; mas, o que é do homem o bicho não come e, sempre na minha e quando tive que mostrar a sola da chuteira: mostrei com força e decisão e ninguém na minha quebrada embaçou na minha porque sempre respeitei quem me respeitou.. Mas, chegou o dia de bater aquele pênalti. viver ou morrer!! Viver meu chapa e; segurei com força nas mãos da mesma família que viu brotar esta coisa que nasceu comigo e suportaram minha opção de se profissionalizar na vagabundagem ,porque sabiam que a essência é uma coisa sua, nasce contigo e nem o alcoolismo esmaga ela. A vagabundagem esta na alma de quem ama a vida dentro de uma loucura sem dimensão e, com uma densidade pertubadora para as pessoas que seguiram só as regras do caminho que interessa aos que dominam e, num momento de redenção e reencontro todos nos saímos feridos deste jogo duro, mas com a vida e o espírito fortalecido pelo placar vencedor da unidade entre eu e minha família. Hoje, estou aos cinqüenta e dois do primeiro tempo foi um jogo conturbado; quem diria, aquela torcida adversária que ficava na beira do campo gritando ;que eu não passaria dos vinte e cinco minutos ficou desnorteada com minha reação. Quem sabe eu não suporto mais uns vinte minutos do segundo tempo.... Clovis de Carvalho

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