Minha mãe deixava eu—dois anos—e meu irmão - um ano—dentro do
berço e, ia cuidar de sua vida que não era fácil; cuidar de dois pirralhos, cuidar
da casa e lavar roupa pra fora pra gente ter mais o que comer. Não demo-morava muito meu irmão estava abrindo a boca; minha mamadeira caia
pra fora do berço eu nem tentava em me preocupar em pegar, já metia a mão na
mamadeira do meu irmão, vacilou já era. Minha mãe que conta esta parada, como
poderia eu me recordar de uma coisa destas?. Mas, o vagabundo nato tem seu
estilo próprio e natural e, começa a desenvolver as suas habilidades nesta vida
de cada dia; o vagabundo que é vagabundo é o cara que não dorme no ponto, ele, pensa
e vê parada pronta na sua frente antes de agir, mas não é aproveitador da
fraqueza humana só se agiliza porque tem a raça de vagabundo. Quando eu tomava
a mamadeira do Rato, este é o apelido do meu irmão; não era por maldade ou porque
eu era um pouco maior, é que meu instinto de bebê vagabundo dizia-me: eu tomo a
dele e minha mãe ouve o cara berrando vem e pega a minha mamadeira que caiu
fora do berço eu não queria ficar me matando tentando pegar a minha mamadeira, enfiando
a mão nas grades do berço. Eu enfiei a mão várias vezes em outras grades. grandes
delitos: brigas, vadiagem e muitas bebedeiras. Então o tempo vai passando enquanto
você fica olhando a bunda da vizinha no tanque; e tudo vai se transformando com
velocidade de bala perdida e, se você não esta ligeiro: Paft! na testa...
Quando eu era um rapaz foi a fase de passar de vagabundo amador pra vagabundo
profissional; é uma fase difícil porque todo mundo já esta ligado no teu
movimento e, sabe que você anda na sombra pra não se queimar; a parada fica
entrucada. dividida e; é aí que se decide na vida o que vai querer ser; é só
escolher: seguir o que tua família te passou e seguir dentro de tantas regras e
normas que a sociedade exige que se você der um peido mais alto e fedorento tem
que explicar o que comeu; ou escolher o estilo das ruas. puta escola. Mas, ser
vagabundo original não é escolha tua, a porra nasce contigo e; tive as duas
oportunidades e fiz das duas uma; tenho família mas sou vagabundo. Aos poucos
você vai descobrindo como é o amadorismo e, quanto mais longe dele você fica, mas
você sente e vê a competição alucinada pra galgar os grandes sonhos que estão
prontos pra você e te empurram: ser isto ou aquilo e pra isto você tem que se
foder e suar sangue, literalmente, ainda mais quando você é da periferia , da
quebrada, da favela. Ouve até a exaustão que pra ser uma pessoa de bem tem que
se sujeitar a tudo e a todos que estão no topo; que uma pessoa de bem tem que crer
num Deus que nunca viu e nem sei como é. Você ouve estas coisas desde que chuta
a primeira bola. porra, pra mim não deu pra ser uma pessoa de bem. Mas, chega o
tempo de mostrar que se profissionalizou na tua opção maior e vai tocando de
prima e no chão. E não é pra qualquer otário, tem que se impor, e na agilidade
cerebral, no drible da vaca, e muitas vezes na porrada e, claro que um oitão na
mão facilita muita coisa.; porque sempre vai ter aquela torcida adversária que
atira pedras em você ou fica esperando você dar de canela, uma bola espirrada, uma
falta mais feia; o tempo continua passando como aquela bala perdida e, aí o
vagabundo profissional sente tua incompatibilidade com todo o sistema familiar,
social e o caralho à quatro. E comigo não foi diferente eu me lançava na roda e
ficava ali sambando de Mestre-Sala, na moralíssima, respeito é bom e conversa
os dentes e, você tem que dizer a que veio...Claro quando você se
profissionaliza tudo mais é incompatível na tua vida, mas, pra Todo este
sistema montado você tem que fazer tua parte, tem que ser feita, foda-se a minha
parte: eu tive vinte e três registros em carteira profissional em dez anos de trabalho,
entretanto: seguia por Vezes no fio da navalha entre ser vagabundo profissional
e cair de vez na malandragem; por que aí é outra estância e como a malandragem
demais engole o malandro; eu optei por ser vagabundo profissional e, dava meus
pulos aqui e ali pra ir vendo O sol nascer de minha janela. Eu era
universitário e centroavante do time da favela, freqüentava o Teatro Municipal
–que no meu tempo, as segundas-feiras era de graça—E, desfilava na Primeira do
Itaim Paulista ,e cheguei a ir numa –farra—posse do Governador Paulo Egydio
;namorei uma sobrinha de uma artista mais ou menos famosa e fodia muito com a
Lena que saia na minha querida Xurupita, era o apelido da Primeira do Itaim
Paulista, inúmeras vezes acordei sob marquises, no 69 ou na praça da Sé. Claro,
chega um tempo que teu estilo começa a incomodar, porque você Vai tocando de
prima ,toma uma entrada mais dura, cai levanta e parte pro teu jogo; você esta
administrando tua essência, evidente, que todo vagabundo profissional tem sua
original essência e não fere ninguém com ela; a torcida adversária sabe que
você joga pra valer e vai abrindo seu próprio caminho no rumo de ser um pouco
mais livre, isto, transforma você num num cara habilidoso; e gritam: pau nele! pau
nele! Aí tua essência de vagabundo profissional faz a diferença, você
administra sua natureza e faz dela sua aliada; nada é fácil. nada é de graça; porque
no mesmo time que você joga tem sempre aqueles que jogam uma bolinha assim ô e,
se acham o Pelê; mas, aí você pode mudar de time e jogar contra eles. No tempo
que a Bonnie e o Clayde governaram o Brasil e toda a Esfarrapeira era visível a milhas de distância; meu filho
nascia; sem trampo, sem amigos importantes nem galinhas no quintal—grande
Belchior—é aí que você tem que mostrar que Que se profissionalizou na
vagabundagem e seguir pelo atalho da humildade pra sobreviver sem dar arrego
pra filhodaputa nenhum.eu fui vender limões nas mesmas feirasLivres que minha
mãe trabalhou a vida inteira até se aposentar como feirante pra criar três filhos e um profissional na vagabundagem .Era um rolê nervoso, saco
de limões nas costas do Mercadão até a Sé, aí outro busão ate o Aeroporto de
Congonhas. pagava as contas, botava comida na mesa e que felicidade : não devia
favor pra puto nenhum. Mãe é mãe e Esta sempre ligada quando você desentoa do
resto da prole e, sente por este desgarrado uma certa predilação, meu irmão e
minhas duas irmãs sempre sacaram isto ,mas nunca deixaram De me ajudar sempre que a coisa ficava encardida pro meu lado. É
nestes interlúdios que o vagabundo profissional tem que ter atitude e não cair
do fio da navalha e; quando bicho pega pro teu lado tem que segurar o B.O. e,
sair no gás atrás do prejuízo; por que também é aquela bola perdida que você
corre atrás e sente que não vão vai dar pra pegar, mas você esta jogando pro
time e se mata por aquela bola que saiu... Mas, eu tinha dois atributos que
vários vagabundos profissionais não nascem com eles: o amor pela arte e pelos
livros e, minha alma pertence aos dois. Era uma coisa muito louca; eu saia do
Itaim Paulista, Jardim Camargo Novo e, quando eu passava em frente o boteco que frequentava com mais assiduidade, num domingo à tarde os caras me chamavam
pra tomar uma e perguntavam onde eu ia com aqueles livros na mão; vou numa
Vernissage lá no Masp. que porra é esta? era o que ouvia deles. Vou ver telas, quadros
e uma bucetaiada que cola por lá .Bom, aí era outra coisa, só a bucetaiada
valia a pena ,agora esta porra de
Vernissage ..E era sempre assim os caras perguntado o que eu fazia
com tantos livros. Você troca estes livros por birita? Eu tive que passar muita
parafina Pra não escorregar do fio...Tem que ser na maciota, não pode ofender o
cara que não tem opção de porra nenhuma nas quebradas; é tv. e boteco e a tarde
babando na frente dos filhos e da mulher diante desta porra ofuscante. E foi
assim que meu profissionalismo na vagabundagem cultural meu levou várias tardes
da minha quebrada pro centro da cidade Em viagens de leitura e sempre vendo a
paisagem urbana em mudança. Mas o tempo, continua sempre dilacerante e largando tudo para trás como a
primeira que você toma de manhã pra parar de tremer. Por vezes, o vagabundo
perde o senso e foge da realidade e, se transforma numa pintura de Chagall e viaja.
E, eu viajei num alcoolismo que durou quase vinte anos; mas, o que é do homem o
bicho não come e, sempre na minha e quando tive que mostrar a sola da chuteira:
mostrei com força e decisão e ninguém na minha quebrada embaçou na minha porque
sempre respeitei quem me respeitou.. Mas, chegou o dia de bater aquele pênalti.
viver ou morrer!! Viver meu chapa e; segurei com força nas mãos da mesma família
que viu brotar esta coisa que nasceu comigo e suportaram minha opção de se profissionalizar
na vagabundagem ,porque sabiam que a essência é uma coisa sua, nasce contigo e
nem o alcoolismo esmaga ela. A vagabundagem esta na alma de quem ama a vida dentro
de uma loucura sem dimensão e, com uma densidade pertubadora para as pessoas que
seguiram só as regras do caminho que interessa aos que dominam e, num momento
de redenção e reencontro todos nos saímos feridos deste jogo duro, mas com a
vida e o espírito fortalecido pelo placar vencedor da unidade entre eu e minha
família. Hoje, estou aos cinqüenta e dois do primeiro tempo foi um jogo
conturbado; quem diria, aquela torcida adversária que ficava na beira do campo
gritando ;que eu não passaria dos vinte e cinco minutos ficou desnorteada com
minha reação. Quem sabe eu não suporto mais uns vinte minutos do segundo tempo.... Clovis de Carvalho
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