segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Lápis Azul
quase na penumbra ela aponta o lápis azul encostada na ponta da mesa metálica presa por duas finas tiras de cabo de aço na parede.uma mesa levadiça.a noite apresenta sua escuridão aos abraços de Morfeu. e na mínuscula fresta de luz que trepassa os vãos da porta desajustada em seus batentes.portas de ferro batentes de chapa galvanizadas fixas por buchas e parafusos imensos. na ponta do lápis começa a nascer entre uma lasca e outra um fino dedinho azul e, as lascas ficam dispersas sobre a mesa metálica e ela continua com seus movimentos compassados num ritmo de dança entre o lápis e a gilete.pela linha de luz que rasga a escuridão do ambiente--aquela lâmpada amarela fixa no teto do corredor é a única certeza que existe um outro lado.a ponta do lápis cresceu.com terna paciência ela começa a recolher os restos decepados do lápis azul e , num movimento livre vai tocando um por um com a ponta do lápis azul as lascas juntando-os num pequeno mosaico de um sol azul sobre a mesa metálica.seu olhar por vezes alcança a fresta de luz que insiste dentro do ambiente e,seu olhar retorna pra cima da mesa e assim,vai passando seus dedos finos delgados com uma delicadeza de menina e as lascas formam uma figura de boneca.num movimento calmo e silêncioso ela apanha o lápis azul e com muita calma,caminha ate onde a fina luz vara a fresta e mancha a parede de um branco gasto.com destreza vai esbarrando o lápis azul na parede áspera e uma caligrafia clara e precisa vai deixando uma inscrição rupestre azul perdido sobre um fundo branco gasto.agora com o olhar dentro de si,repousa o lápis azul com a mesma calma dos movimentos anteriores e, deixa-se ser acolhida pela cama que fixa como a mesa metálica range os cabos de aço quando seu corpo magro ajeita-se sobre ela.olhando a fina fresta de luz que vara teu ambiente,ela arrasta a lâmina e, sem tirar seu olhar perdido da linha de luz que invade sua visão fraca;afunda a lâmina no pulso esquerdo e o sangue salta aos jorros absoluto. com a mesma parcimonia do movimento anterior abre o pulso direto e,temos a mesma cena do pulso esquerdo:sangue saltando aos jorros e absoluto.na manhã quando a porta de ferro 48 é acionada e destravada a funcionária da Instituição,depois de observar o corpo ínutil e o encharcado colchão de sangue.percebe o lápis azul,o pequeno mosaico e uma inscrição em letras miúdas:Eu não suporto mais esta vida.
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