"Vem por aqui"--dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços,e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem:"vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há,nos meus olhos,ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre de minha Mãe.
Não,não vou por aí!Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis:"vem por aqui"?
Prefiro escorregar,arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo,foi
So para deflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O que mais que faço não vale nada.
Como,pois,sereis vós
Que me dareis machados,ferramentas,e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre,nas vossas veias,sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos,as torrentes,os desertos...
Ide!Tendes estradas,
Tendes jardins,tendes canteiros,
Tendes pátrias,tendes tetos,
E tendes regras,e tratados,e filósofos,e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a,como um facho,a arder na noite escura,
E sinto espuma,e sangue,e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam,mais ninguém.
Todos tiveram pai,todos tiveram mãe.
Mas eu,que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah,que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:"vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--Sei que não vou por aí!
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
ÁLVARO DE CAMPOS / LISBON REVISTED
Não:não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-na daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos,não me enfileirem
[conquistas
Das ciências(das ciências,Deus meu,das ciências!)
Das ciências,das artes,da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade,guardem-na!
Sou um técnico,mas tenho a técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido,com todo direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo,ouviram?
Não me macem,por amor de Deus!
Queria-me casado,fútil,cotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto,o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa,fazia-lhes,a todos,a vontade.
Assim,como sou,tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixe-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho
Ah,que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul -- o mesmo da minha infância--,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada,Lisboa de outrora de hoje!
Nada ma dais,nada me tirais,nada sois que eu me sinta.
Deixem em paz! Não tardo,que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-na daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos,não me enfileirem
[conquistas
Das ciências(das ciências,Deus meu,das ciências!)
Das ciências,das artes,da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade,guardem-na!
Sou um técnico,mas tenho a técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido,com todo direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo,ouviram?
Não me macem,por amor de Deus!
Queria-me casado,fútil,cotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto,o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa,fazia-lhes,a todos,a vontade.
Assim,como sou,tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixe-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho
Ah,que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul -- o mesmo da minha infância--,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada,Lisboa de outrora de hoje!
Nada ma dais,nada me tirais,nada sois que eu me sinta.
Deixem em paz! Não tardo,que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho.
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