quarta-feira, 5 de novembro de 2014

JOSÉ RÉGIO / CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui"--dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços,e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem:"vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há,nos meus olhos,ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre de minha Mãe.

Não,não vou por aí!Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis:"vem por aqui"?
Prefiro escorregar,arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo,foi
So para deflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O que mais que faço não vale nada.

Como,pois,sereis vós
Que me dareis machados,ferramentas,e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...


Corre,nas vossas veias,sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos,as torrentes,os desertos...

Ide!Tendes estradas,
Tendes jardins,tendes canteiros,
Tendes pátrias,tendes tetos,
E tendes regras,e tratados,e filósofos,e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a,como um facho,a arder na noite escura,
E sinto espuma,e sangue,e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam,mais ninguém.
Todos tiveram pai,todos tiveram mãe.
Mas eu,que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah,que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:"vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--Sei que não vou por aí!


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